Neste torneio ganha-se a marcar golos e a defender valores

Mais de mil jovens rumaram a Madrid para mais uma edição do Football For Friendship. Tornaram-se embaixadores dos nove valores que dão beleza ao futebol. 

Diogo, defesa, 12 anos. Igor, médio, 12. Vasco, avançado, 12 anos. Gerson, treinador, 14 anos. Em Junho, quando a temporada europeia de futebol estava prestes a encerrar com a Liga dos Campeões, estes quatro jovens rumaram a Madrid para representarem Portugal num campeonato com fins sociais.

Nunca tinham saído de Portugal. Raramente saem da vida de bairro, da escola, do percurso casa-escola-treino-casa. A primeira vez que entraram num avião, para aterrarem na capital espanhola, foi como uma equipa concorrente na sétima edição do programa anual Football for Friendship. Em 2014, o palco foi Lisboa. Desta vez, as centenas de jovens de dezenas de países juntaram-se na cidade que acolheu a final da Liga dos Campeões, que o Liverpool ganhou ao Tottenham, no estádio do Atlético de Madrid.

A iniciativa decorre todos os anos sob a égide do Comité Olímpico Internacional. Jovens, rapazes e raparigas, dos 12 aos 15 anos, mobilizam-se para um torneio que é todo ele uma imitação do mundo dos adultos em ponto pequeno. Uns jogam, outros treinan, outros trabalham como jornalistas. A ideia é transformá-los em "embaixadores" dos nove valores deste programa, financiado pela Gazprom: amizade; igualdade; desportivismo; saúde; paz; dedicação; vitória; tradição e honra.

Quem conhece a modalidade apenas pelas longas horas de televisão e páginas e páginas de jornais dirá que alguns destes valores estão em crise no mundo do futebol adulto. Daí que o esforço de encontrar "embaixadores" que ajudem a passar a palavra seja relevante. Na edição 2019, foram 1992 atletas, de 84 cidades e 29 países.

Diogo, Igor, Vasco e Gerson foram os representantes nacionais. São os quatro amantes de futebol, quatro exemplos dos quase 54 mil jovens com menos de 14 anos que estão federados, segundo dados da Federação Portuguesa de Futebol: masculinos são 51.963 (futebol, 44.189 + futsal, 7774); femininos são 1616 (futebol, 1185 + futsal, 431). Isto é pouco mais do que um quarto do total de atletas federados no futebol em Portugal.

Se fosse missão deles, e dos dois treinadores adultos (os irmãos Marco e Gabriel Anjos) que os acompanharam, fazer a "evangelização" destes milhares de praticantes, a missão seria mais espinhosa do que a semana que eles viveram em Madrid. Não é o caso. Para o ano, Portugal fará representar-se por outros e já não estes atletas do Castelo Forte FC, clube de Oeiras, fundado em 2005.

É um clube que "sempre esteve muito mais focado nos aspectos sociais que o futebol poderia produzir na vida dos seus atletas e simpatizantes", salienta o treinador Marco Anjos.  "Conseguimos muitos êxitos, mesmo sem apoios autárquicos de Oeiras, êxitos esses que foram manter pelo menos 99% por cento dos seus integrantes no caminho do bem e numa vida social responsável em sociedade mesmo depois de o futebol acabar para muitos", acrescenta.

Em Madrid, os quatro portugueses foram separados, como todos os outros, e misturados com gente de outras línguas, culturas, filosofias de vida e de jogo. Durante uma semana, tiveram de conviver, de treinar, de se entender dentro e fora do campo, por mais estranho que fosse o idioma de cada membro da equipa. Até porque "dentro do campo há apenas uma língua", salienta Gabriel Anjos.

Nenhum deles chegou à final do Football for Friendship. Mas todos estiveram nas bancadas do Wanda Metropolitano. Saíram de bairros sociais directos para o palco da final da Champions League deste ano. Quem sabe se os voltamos a ver daqui a anos no relvado de uma qualquer final. Eles gostariam. Porque o futebol é esse sonho de uma vida diferente, melhor, cheia de mundo.

Até lá, vão ter de defender muitos golos. E valores. "Não se chega lá sem isso", diria Roberto Carlos, internacional brasileiro do Real Madrid e que foi, a par de Ricardo Carvalho, antigo central da selecção portuguesa e de clubes como FC Porto, Chelsea, Real Madrid e Mónaco, um dos diversos futebolistas no activo ou reformados que acompanharam os mais de mil jovens participantes.

O P3 viajou a convite da organização do Football For Friendship

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