A Liga de Salvini apresentou moção de desconfiança ao primeiro-ministro Giuseppe Conte

Líder do partido de extrema-direita diz que a coligação já não funciona. Primeiro-ministro aconselha-o a resolver “a crise que ele criou” e líder do 5 Estrelas mostra-se “preparado” para ir a votos.

A tensão entre Salvini (à esq.) e o primeiro-ministro, Giuseppe Conte (à dir.), dura há meses
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A tensão entre Salvini (à esq.) e o primeiro-ministro, Giuseppe Conte (à dir.), dura há meses Yara Nardi

A Liga, o partido de extrema-direita liderado por Matteo Salvini, um dos vice-primeiros ministros de Itália, declarou o fim da coligação de Governo de que faz parte, apresentando uma moção de desconfiança no Senado ao primeiro-ministro Giuseppe Conte, indicado pelo Movimento 5 Estrelas (M5S), o outro partido no governo. Deputados e senadores aguardam agora a convocação para o regresso a Roma, no meio do período das férias. 

Salvini, cujo partido nunca esteve tão forte nas intenções de voto - ronda os 38%, decidiu apostar nas eleições antecipadas, ainda que arque com a responsabilidade de fazer cair o Governo da terceira maior economia da zona euro ao fim de apenas um ano de coligação entre a Liga e a formação anti-sistema M5S.

Num comunicado, Salvini disse que transmitiu ao primeiro-ministro, Giuseppe Conte (que não pertence a nenhum dos partidos, mas é próximo do M5S), que a coligação colapsou. “Devemos devolver a decisão aos eleitores o mais rapidamente possível”, disse o líder da Liga.

Salvini sugeriu que os deputados interrompam as suas férias para darem início ao processo na próxima semana. Isto porque tudo tem de começar com a votação de uma moção de censura e a renúncia do primeiro-ministro.

Mais tarde, o Giuseppe Conte disse que Salvini tem de explicar aos italianos porque é que pretende derrubar o Governo, e que “a crise que ele criou” deve ser “a mais transparente na história da república”.

Conte disse que não vai continuar a tolerar os ataques de Salvini contra os seus ministros e acusou o líder da Liga de fazer uma política de slogans.

Até há poucas semanas, Matteo Salvini dizia que a coligação iria cumprir os cinco anos de mandato, enquanto acusava os parceiros do 5 Estrelas de bloquearem as medidas que considera necessárias para desenvolver a economia do país.

“A Itália não pode continuar com os ‘nãos’, precisamos de ‘sins’, de desbloqueio, de construir, de trabalhar. Acabou, temos de ir a votos”, disse Salvini aos jornalistas depois de um comício em Pescara.

A tensão atingiu um ponto máximo na quarta-feira, quando o 5 Estrelas e a Liga votaram em sentido contrário sobre o futuro de um projecto para um comboio de alta velocidade com ligação a França.

Apesar de o 5 Estrelas ter mais deputados no Parlamento, é a Liga que lidera as sondagens. A convocação de eleições antecipadas pode favorecer o partido de extrema-direita, mas também pode ser um tiro no pé – convocar eleições em Agosto, durante as férias dos italianos e a pausa no Parlamento, pode ser arriscado e nada popular.

O Presidente italiano, Sergio Mattarella, é o único com poder para dissolver o Parlamento, e pode recusar-se a fazê-lo antes do início dos trabalhos para a elaboração do Orçamento de 2020, que começa em Setembro e tem de ser apresentado ao Parlamento em Outubro.

O Orçamento de 2019 já foi um ponto de tensão com a União Europeia, por prever mais gastos públicos do que o desejado em Bruxelas, e Salvini defende mais cortes de impostos para 2020.

Em resposta, o líder do 5 Estrelas, Luigi Di Maio, disse que o seu partido não teme eleições.

“Estamos preparados, não estamos preocupados com cargos no Governo”, disse o responsável num comunicado em que acusa Salvini de “andar a passear com o país”.