O “escaravelho” que desceu a montanha para tocar o céu de Paris

Aos 22 anos, o jovem colombiano prepara-se para ser o grande dominador do Tour na próxima década.

Egan Bernal
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O ciclismo está no sangue dos colombianos, consequência natural da topografia montanhosa do país. É uma vantagem natural para quem vive e cresce na Cordilheira dos Andes ou na Sierra Nevada de Santa Marta habituar-se a um ar menos rico em oxigénio, uma espécie de doping natural que outros procuram através do treino em altitude ou de outras vias menos legais. O ciclismo europeu habituou-se a ver, a partir dos anos 1980, os guerreiros colombianos que eram conhecidos como os “escaravelhos”, homens pequenos que pareciam crianças em bicicletas de adultos a baterem-se nas alturas das grandes voltas, ferozes gladiadores das montanhas como Luis Herrera, Fabio Parra, ou, mais recentemente, Rigoberto Urán e Nairo Quintana. Nenhum deles, no entanto, chegou tão alto e tão longe como Egan Bernal, o primeiro colombiano a vencer a Volta a França em bicicleta.

Bernal não veio propriamente do nada, mas a idade (22 anos) com que ganhou o Tour 2019 antecipa uma longa carreira ao mais alto nível. Talvez não fosse formalmente o líder da Ineos (ex-Sky) porque esse estatuto, na ausência do tetracampeão Chris Froome, seria do campeão em título Geraint Thomas, mas sabia-se que o jovem colombiano seria um sério candidato a chegar a Paris com a camisola amarela no corpo. Provou-o na estrada como um corredor disciplinado e multidisciplinar, não apenas como um homem de montanha que se aguenta nos “cronos”. E fê-lo numa das mais imprevisíveis edições do Tour das últimas décadas, o que só ajudou ao espectáculo, mesmo que às custas das esperanças francesas de ver um compatriota ganhar, o que já não acontece desde Bernard Hinault em 1985.

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Alaphilippe andou muitos dias de amarelo e Pinot, antes de abandonar, também chegou lá perto, mas quem triunfou foi o jovem “escaravelho”, apenas na sua segunda participação no Tour – tinha sido 15.º em 2018, como um gregário de luxo para os chefes Froome e Thomas. Ao quarto ano de profissional, o Tour foi a sua décima vitória, isto sem contar com os múltiplos prémios de juventude que foi acumulando (e que também ganhou no Tour). Antes, já vencera, entre outras, a Volta à Suíça, a Volta à Califórnia, a Paris-Nice ou o Tour de l’Avenir. E isto é só em asfalto, porque, antes, Bernal já tinha sido um prodígio na bicicleta de montanha.

Da montanha para as montanhas

Foi da montanha que veio Egan Arley Bernal Gómez, nascido na capital Bogotá, mas criado em Zipaquirá, uma cidade andina a 2650m de altitude, situada num vale e rodeada por montanhas. A mãe trabalhava numa empresa a escolher flores para exportação, o pai era segurança e antigo ciclista amador que não queria para o filho essa vida de sacrifício. Mas o pequeno Egan sentia-se irresistivelmente atraído pelas bicicletas e não havia nada a fazer. Deu as primeiras pedaladas aos cinco anos, numa bicicleta amarela e pesada que tinha sido dos primos, e aos nove anos participou na sua primeira corrida – que ganhou.

Fez a sua aprendizagem em Zipaquirá, evoluindo na equipa de um antigo ciclista com experiência europeia, Fábio Rodríguez, que chegou a participar em três edições da Volta a Espanha nos anos 1990. Foi Rodríguez quem começou a moldar o talento de Egan e viu muito do que o seu pupilo aprendeu nos primeiros tempos com uma bicicleta de montanha. “A técnica que ele tem, as mudanças de ritmo do ciclismo de montanha que não tem o de estrada. E num contra-relógio na Volta à Suíça, quando ele derrapou, não caiu. Foi a técnica que ele aprendeu na montanha”, recordou à agência EFE o antigo ciclista. Não foi só técnica que Egan aprendeu nos primeiros tempos, acrescentou Fabio Rodríguez. Foi também espírito de sacrifício e capacidade de trabalho, duas coisas que todos os ciclistas têm de ter e que Bernal tem de sobra. “Quando todos faziam duas horas à chuva e na lama, ele fazia o dobro. Puro trabalho e entrega.”

Com todo o êxito promissor que teve nos primeiros tempos, Egan Bernal esteve quase a pedalar rumo a outra carreira, a de jornalista. Chegou a cumprir um semestre de um curso de comunicação social na Universidade de la Sabana - ia e vinha de bicicleta, cumprido 44 quilómetros todos os dias e muitas vezes chegava atrasado às aulas, encharcado em suor. Foi na universidade que conheceu a rapariga que ainda hoje é a sua namorada e que estava entre as centenas de colombianos à sua espera para a consagração final nos Campos Elíseos.

Passado esse semestre de dúvida, Bernal percebeu que tinha corpo e cabeça de ciclista e não voltou a questionar essa vocação. Era mesmo um “escaravelho”. Foi ganhando medalhas em Mundiais de “cross country” como júnior ao mesmo tempo que ia alcançando sucesso em provas de estrada na Colômbia e, em 2016, uma equipa italiana, a Androni Giocattoli-Sidermec, ofereceu-lhe um contrato de quatro anos e um lugar entre os seniores. Dois anos depois, já estava na poderosa Sky (que passaria a Ineos), a aprender com os melhores e a ganhar pernas para o futuro.

Esse futuro chegou em 2019, com Bernal a afirmar-se perante uma concorrência forte e aberta, sem ganhar uma única etapa, mas a dosear o seu esforço na altura certa. Os “escaravelhos” já têm representantes na galeria dos vencedores das três grandes provas por etapas, Herrera na Vuelta em 1987, Quintana no Giro em 2014 e na Vuelta em 2016, e, agora, Bernal no Tour 2019, que é o mais jovem a vencer a Grande Boucle desde 1909 e o primeiro latino-americano a fazê-lo. A expectativa é de que o Tour 2019 não seja apenas o “seu” Tour. Mas que seja o primeiro de muitos Tours que também serão dele.