Helena Flores
Foto
Helena Flores

Megafone

De bicicleta, com amor

Para citar Liberdade, de Fernando Pessoa, “o melhor do mundo são as crianças”, e não os carros. E eu não sei se, em democracia, haverá melhor definição de liberdade do que esta de podermos usar, todos, sem medo, o espaço público.

A nenhum de nós que já tenha conduzido um carro faltarão episódios de irritação perante o comportamento dos outros na estrada. Lembrei-me disso há dias num cruzamento, quando, de automóvel, levava a minha filha mais velha para a escola, com os minutos contados, e vi uns vinte carros passarem lentamente até que uma alma caridosa abrandou, fez sinais de luz, e deixou que eu entrasse numa estrada nacional, vindo de uma rua secundária. A prioridade não é apenas uma regra do código da estrada. É, na maior parte dos casos, algo que gostamos de aplicar a nós mesmos em doses maciças. E tenho, pela minha experiência de 15 anos a conduzir automóveis, que nessa condição de condutores o nosso egoísmo tem uma certa tendência para acelerar. E alguns estudos dizem-nos que isto vai para lá da minha pobre experiência.

Entrar em generalizações seria meio caminho para o despiste, mas o facto é que as consequências da falta de empatia de um condutor são perniciosas, dadas as características de peso, dimensão, velocidades e potencial poluente dos automóveis. Estacionar em segunda fila, incomodando todos os outros automobilistas, ou em cima do passeio, pondo em causa a possibilidade de circulação, e a segurança, dos peões, só são atitudes graves porque os egoístas do momento estão ao volante de um carro que ocupa vários metros quadrados do espaço público. E o que dizer de todos aqueles que o fazem em percursos facilmente solucionáveis a pé? 

Há uns meses, numa estação de metro com um enorme parque de estacionamento improvisado, vi-me em dificuldades para aceder ao mesmo porque uma pessoa acabara de estacionar junto à rampa de acesso, dificultando a manobra de entrada/saída dos restantes. Irritei-me, claro. Levo um dístico de pessoa com deficiência no meu automóvel, fazer rotações do volante mói o meu único ombro são, e à minha frente estava um parque com umas dezenas de lugares livres, com o defeito de estarem dez, vinte, cinquenta metros mais afastados, a pé, da linha de metropolitano. A pessoa queria, claramente, apanhar o próximo comboio, e, tendo percebido a minha irritação, avançou com o seu automóvel para a frente, tapando o passeio, numa zona em que este já estava estreitado por um poste de iluminação com uma papeleira. Resultado: a passagem dos carros no acesso ao parque ficou bastante desimpedida, mas o passeio ficou bloqueado. 

Vinte segundos a pé separam-nos da paragem do metro, onde vi a pessoa que tinha acabado de fazer aquilo. Não costumo abordar desconhecidos, muito menos para dar lições de moral, mas quando, ao olhar de novo para o “local do crime”, vi duas pessoas a saírem para a estrada por não conseguirem usar o passeio naquele ponto, não me contive. “Tem noção de que o seu carro está a bloquear o passeio, e que se uma pessoa a pé não passa ali, será ainda pior para alguém de cadeira de rodas?” —​ atirei. Surpreendida com a abordagem,  e incapaz de disfarçar a total consciência do que tinha feito, a pessoa em causa respondeu-me, rispidamente: “O carro não está a bloquear nada, que eu verifiquei isso”. E virou-me a cara.

A minha percepção do nosso egoísmo enquanto automobilistas aumentou desde que passei a assumir, em parte das minhas deslocações diárias, o papel de ciclista. Tenho a noção de que, por falta de experiência — e até pela minha deficiência motora — já cometi erros, na bicla, que podem ter irritado algum condutor de um carro, mas não tenho dúvidas de que muitas das situações por que passei são fruto desse egoísmo: que aumenta quando nos deparamos, na estrada, com um veículo que, para a nossa cultura rodoviária, não lhe pertence. Quem, em bicicleta, nunca ouviu um “Sai da frente!” da boca de alguém impaciente com a nossa lentidão? Quem nunca sentiu a trepidação de uma ultrapassagem perigosa? Quem nunca foi ultrapassado por alguém que, metros à frente, vira à direita, quase nos levando a chocar com o seu carro? Quem nunca...

No meu automóvel há um autocolante no vidro traseiro com a frase “Bebé a Bordo”. Não faço ideia se isso mudou alguma coisa no comportamento de outros condutores, mas também confesso que, dentro de um carro, a minha visão periférica deixa algo a desejar, e vai ficando mais limitada à medida que passo de 40 para 60, 90 ou 120 km/h. Mesmo a 40, vejo os sinais de trânsito, as passadeiras, e os peões que a atravessam, e pouco mais. O carro é uma redoma que nos isola do resto do mundo e, nele, mais depressa nos ligamos ao “Fim da Rua ou ao Fim do Mundo”, para citar a rádio que me despertou para o jornalismo, do que à rua por onde estamos a passar, normalmente com pressa. E não há tecto panorâmico, por maiores que estes tendam a ser, que nos salve deste egoísmo, desta falta de empatia que nos entope as estradas.

Às tantas, alguns daqueles condutores que não me abriram passagem há dias estavam simplesmente presos aos seus pensamentos, compenetrados em algo que os entristecia ou fazia feliz, mas que os impedia de verem que eu tinha pressa e precisava de entrar naquela via. Talvez devesse ter esbracejado, aberto a janela, para lhes gritar. Não o fiz, e não o faria, porque julgo que é melhor chegar atrasado a um sítio do que parecer um louco. 

Entretanto, a minha recente condição de utilizador de bicicleta, para além de novos problemas, trouxe-me uma solução para esta falta de empatia. Ao contrário do autocolante “Bebé a Bordo”, uma cadeira de bebé com uma bebé de três anos a bordo de uma bicicleta mexe com os condutores, abrindo-me passagem em atravessamentos onde não tenho prioridade. Como vou mais devagar, e a minha visão periférica alcança mais mundo, tenho notado as reacções de peões, os acenos cúmplices de outros ciclistas e os sorrisos dos que seguem ao volante de automóveis, e abrandam. Ainda pensei que pudesse ser o lado sociável da Madalena, que acena e diz olá a toda e qualquer pessoa que lhe passe pela frente, se não estiver a cantar ou a descrever-me a paisagem. Talvez seja. Mas o que sei é que é bom. E, pelos vistos, vem nos livros que costuma ser assim.

Tenho reflectido sobre isso, à medida que a bicicleta, para entusiasmo dela, e da irmã, que tem 11 anos, começa a fazer parte das rotinas. A Madalena e a Raquel são mais felizes assim. Eu sou mais saudável — e feliz — assim. E, mesmo que seja por cinco segundos, esses condutores com que nos deparamos demonstram uma empatia connosco que também lhes faz bem. Com honras de abertura no livro The Happy City, de Charles Montgomery, o antigo presidente da Câmara de Bogotá, Enrique Peñalosa, defendia que a revolução que pretendia, e conseguiu, em parte, levar à sua cidade, passava por torná-la mais segura, e acessível, aos seus utilizadores mais vulneráveis, os velhos, os mais pobres, as crianças. E tem sido esse o motor de outras belíssimas revoluções urbanas, como a de Pontevedra, onde as crianças vão a pé para a escola, ou da pequena cidade alemã de Vauban, onde aos cinco anos elas podem fazem o percurso casa-escola, sozinhas, de bicla, porque não há carros no interior do casco urbano. 

Continuo a ser automobilista e, como o vice-presidente da Câmara de Pontevedra, até considero que o automóvel foi uma enorme invenção. Mas, para citar Liberdade, de Fernando Pessoa, “o melhor do mundo são as crianças”, e não os carros, e eu não sei se, em democracia, haverá melhor definição de liberdade do que esta de podermos usar, todos, sem medo, o espaço público. Mas a verdade é que sonhamos com o paraíso diferido que nos prometem as religiões, e ainda fazemos pouco para tornar a circulação nas nossas cidades um bocadinho melhor do que o inferno em que se tornaram. Pelos vistos, a Madalena tem uns quantos poderes para mudar isso, e imagino o que aconteceria se eles fossem multiplicados por todas as bebés da sua idade. Voltando a Pessoa, também eu, como ele, acredito que Cristo “não percebia nada de Finanças, nem consta que tivesse biblioteca”. Mas tivesse o nazareno sido urbanista, e seria dele uma frase que eu gostaria de ler por aí: “Deixai vir à rua as criancinhas!”