Ministra do Mar promete que o Guadiana será navegável em Outubro

Embarcações com 70 metros de comprimento e um calado máximo de 1,80 metros vão poder navegar por um canal com 30 metros de largura até ao Pomarão. Mértola fica para mais tarde.

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Melanie Map's

Após várias alterações ao projecto inicial apresentado em 2004 e de sucessivos adiamentos na conclusão dos trabalhos de desassoreamento do rio, as populações ribeirinhas de Vila Real de Santo António, Castro Marim, Alcoutim e Mértola e os municípios da província espanhola de Huelva, San Silvestre de Guzmán, Sanlúcar de Guadiana, El Granado e Ayamonte vão ter, de novo, o Guadiana navegável. Esta é a garantia dada pela Ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, no velho porto mineiro do Pomarão no passado dia 12 de Julho, onde foi presidir à assinatura do contrato da empreitada para a navegabilidade do troço Alcoutim-Pomarão do rio Guadiana a terceira fase do projecto.

Os trabalhos que vão arrancar “ainda durante o mês de Julho” irão decorrer durante três meses para estarem concluídos “em Outubro” se não houver percalços, prevê a ministra, lembrando que já estão navegáveis duas zonas internacionais do Guadiana, a área entre a entrada da barra de Vila Real de Santo António e a ponte internacional e o troço entre Vila Real de Santo António e Alcoutim, no Algarve.

O valor da empreitada é de 600 mil euros e contempla a realização das dragagens para a regularização do leito do rio. Após a sua conclusão as embarcações com um máximo de 70 metros de comprimento, 10 metros de boca e 1,80 metros de calado, passam a dispor de um canal navegável com uma largura mínima de 30 metros, e cota de serviço de -2 metros ZH (Zero Hidrográfico) que permitem a navegabilidade diurna e nocturna, entre Vila Real de Santo António e o Pomarão.

O financiamento é garantido em 75% pelo Programa Operacional de Cooperação Transfronteiriça Espanha Portugal (POCTEP 2014-2020), através de uma candidatura conjunta de Portugal e Espanha.

Apesar de Ana Paula Vitorino anunciar que o projecto de navegação do rio Guadiana até Mértola estará concluído em 2021, a regularização do troço a partir do Pomarão ainda não tem financiamento assegurado para além dos trabalhos a executar apresentarem constrangimentos de natureza técnica e ambiental. “O leito do rio parcialmente rochoso vai obrigar ao desmonte de algumas rochas para permitir que navios com um 1,5 ou 1,6 metros de calado possam chegar a Mértola em período de maré alta ou intermédia”, assinala Jorge Rosa, presidente da vila-museu. Também a sinuosidade do canal e o facto de parte do troço estar inserido no Parque Natural do Vale do Guadiana, são outros dos obstáculos a superar. 

Mas a confirmar-se uma tal possibilidade, a grande via fluvial que fez de Mértola o términus de uma das principais rotas de navegação do sul da Península Ibérica desde o Neolítico e foi lugar privilegiado para a fixação de comerciantes e guerreiros fenícios, cartagineses e romanos, verá retomada a sua função milenar.

A sua história regista o que terá sido, talvez, o seu ponto mais alto na sua escala de importância mundial quando, através porto fluvial do Pomarão, permitiu escoar entre 1858 e 1965 o cobre extraído da Mina de São Domingos, através do rio Guadiana, recebendo cerca de 500 navios por ano, com capacidade média de 300 toneladas. Durante a actividade do couto mineiro o rio nunca esteve assoreado. Competia à companhia de mineração “Mason & Barry”, empresa inglesa que detinha a concessão da mina a obrigação legal de manter o canal navegável. Com o fim da exploração mineira em 1965, e cessando a navegação comercial regular, a navegabilidade do rio perdeu importância, deixando de existir a obrigatoriedade da manutenção do canal que foi sujeito, até ao presente, a muitos anos de sedimentação e alterações no leito.

Em Setembro de 1960, o navio Mértola, que fazia percursos para passageiros entre a vila com o mesmo nome e Vila Real de Santo António, realizou a sua última viagem. Mais tarde, em 1993, as carreiras fluviais entre Mértola e Vila Real de Santo António foram retomadas mas cedo se revelou ser difícil dar continuidade à navegação por força do assoreamento do rio Guadiana no troço entre Mértola e o antigo porto mineiro do Pomarão, sedimentos que se acumularam desde que Alqueva encerrou comportas em 2002.