Reunião entre Sánchez e Iglesias falha. Eleições antecipadas ganham força em Espanha

Sánchez quer um “governo de cooperação”, Iglesias não abre mão de pastas governamentais. Os dois líderes estão inflexíveis e o cenário das quartas legislativas em quatro anos ganha forma com o socialista já a apostar nas sondagens que lhe dão 40% dos votos - 10% mais do que em Abril.

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Há semanas que Pedro Sánchez e Pablo Iglesias estão num braço de ferro sobre a composição do futuro Governo espanhol Juan Carlos Hidalgo/EPA

Um dia depois de o PSOE ter garantido com todas as letras que quer governar sozinho, o chefe do Governo espanhol, Pedro Sánchez, reuniu-se com o líder do Unidas Podemos, Pablo Iglesias, para que este apoiasse no parlamento o seu governo. Mas a quinta reunião desde as eleições de Abril fracassou e a possibilidade de legislativas antecipadas – as quartas em quatro anos – é cada vez maior.  

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Um dia depois de o PSOE ter garantido com todas as letras que quer governar sozinho, o chefe do Governo espanhol, Pedro Sánchez, reuniu-se com o líder do Unidas Podemos, Pablo Iglesias, para que este apoiasse no parlamento o seu governo. Mas a quinta reunião desde as eleições de Abril fracassou e a possibilidade de legislativas antecipadas – as quartas em quatro anos – é cada vez maior.  

O principal obstáculo ao apoio do partido de Iglesias a um governo PSOE é precisamente a sua entrada ou não no executivo espanhol. Sánchez quer apenas um “governo de cooperação, não de coligação”, enquanto Iglesias não abre mão de assumir pastas governamentais. E já garantiu por inúmeras vezes que não vota a favor da investidura de Sánchez se o Podemos não fizer parte do Governo, dando inclusive a entender na imprensa que o socialista concordou com uma coligação logo na primeira reunião – versão desmentida pelo PSOE como “falsidade”.

“O que Espanha precisa é de um governo de coligação de esquerda e esperamos convencer o PSOE a flexibilizar a sua posição para se abrir a uma posição integral no Governo”, disse Iglesias, já depois de a quinta reunião ter terminado. A resposta socialista não se fez esperar: “A reunião de hoje não foi bem-sucedida. Parece que Iglesias está mais preocupado com os nomes do Conselho de Ministros do que com as políticas a serem desenvolvidas”, criticou Adriana Lastra, vice-presidente do PSOE, sublinhando que Iglesias “quer ser vice-presidente do Governo”.

Exigência que o PSOE rejeita liminarmente e que fontes da plataforma de esquerda não perderam tempo a contestar na imprensa: “É absolutamente falso, eles não falaram sobre isso”, disseram ao Público.es, com o site espanhol a dizer “começa o jogo sujo”.

O Unidas Podemos garante querer firmar um acordo alargado, discutindo primeiro o programa de Governo, e só depois ose nomes para cargos, insistindo nunca terem colocado possíveis candidatos em cima da mesa.

“Há líderes do Podemos que dizem não confiar no Presidente [do governo], é essa a melhor maneira de começar uma negociação?”, questionou Lastra, com fontes do Unidas Podemos a trocarem acusações em declarações ao El País. “Notamos que Pedro Sánchez não quer negociar, mas tenta impor unilateralmente um Governo de partido único. Não é sensato que o PSOE aja como se tivesse maioria absoluta quando isso não acontece”.

Ao mesmo tempo, o PSOE tenta negociar com o Cidadãos (centro) e o Partido Popular (direita) as suas abstenções na investidura, ainda que estes não cedam um milímetro. Pablo Casado, líder do PP, avisou no dia a seguir às legislativas que não contassem com ele e o Cidadãos, afirmando-se partido “responsável e sensato”, apelou a um “cordão sanitário” contra o PSOE recusando apoiar a investidura de Sánchez.

A posição do Cidadãos radicalizou-se tanto que dois importantes líderes do partido, o deputado Toni Roldán e o eurodeputado Javier Nart, ambos da ala europeísta e progressista, se demitiram em oposição à aproximação da força partidária à extrema-direita e por defenderem o apoio à investidura de Sánchez.

O líder socialista corre contra o tempo para viabilizar a sua proposta de Governo no Congresso, e, ao invés de ceder, quer usar essa pressão para obrigar a plataforma de esquerda a ceder. “Só haverá uma investidura”, garantiu Lastra. E a troca de acusações não está a ajudar ao desbloqueio das negociações, crispando o ambiente e minando a confiança de ambas as partes.

O debate de investidura está agendado para 22 e 23 de Julho e tudo indica que o PSOE não terá os apoios necessários, isto é, uma maioria absoluta, para formar governo. Caso não consiga ser investido, Sánchez tem dois meses – até Setembro – para voltar a tentá-lo. Mas, diz o El País, os socialistas podem não apresentar uma segunda proposta.

É uma estratégia de pressão que, esperam os socialistas, deixe tanto o Unidas Podemos como o Cidadãos mal na fotografia. “O momento pelo qual a sua estratégia passa é, antes de mais nada, o de compartilhar a culpa ante a hipótese do fracasso da investidura: ao Cidadãos por não se abster; ao Unidas Podemos por não se dobrar”, explica o jornalista Teodoro León Gross no El País, sublinhando que o socialista pode sair prejudicado desta estratégia por, ao longo das semanas, “ficar cada vez mais claro que Sánchez não quer uma negociação, mas uma imposição”.

Se os socialistas cumprirem com a palavra dada, Espanha irá a eleições antecipadas, no que será uma repetição da situação que obrigou o antigo presidente do Governo, Mariano Rajoy, a legislativas antecipadas em 2016. E o PSOE, que, segundo a mais recente sondagem do Centro de Investigações Sociológicas (CIS), está próximo dos 40% nas intenções de voto, está em boa posição para conquistar os 176 deputados (em 350) necessários para governar sozinho, apesar do impasse político que se mantém há dois meses. Um avanço de mais de 10% face ao resultado que conquistou nas legislativas de Abril.