Mitsotakis prepara-se para vitória nas eleições gregas e quer “virar a página”

Gregos vão hoje às urnas e espera-se uma mudança de Governo. No entanto, não é claro se o líder da Nova Democracia vai conseguir uma maioria absoluta.

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Kyriakos Mitsotakis durante a campanha eleitoral ELPIDA KAFANTARI/Reuters

As eleições deste domingo vão abrir um novo capítulo na política grega e muito provavelmente pôr fim ao que o Syriza, o partido do primeiro-ministro, Alexis Tsipras, chama “o primeiro governo de esquerda” no país, com a mais do que esperada vitória da Nova Democracia de Kyriakos Mitsotakis, que quer “virar a página" dos últimos anos na Grécia.

Mas não é claro se a dimensão da vitória do partido conservador com uma forte ala nacionalista será suficiente para lhe dar a maioria absoluta num Parlamento (Voulis) de 300 deputados.

O entusiasmo por estas eleições na Grécia, país onde se diz haver 10 milhões de políticos, não é grande. A escolha entre duas estratégias diferentes para lidar com a crise – pró e anti-austeridade – terminou quando Alexis Tsipras fez a sua maior “kolotumba” (uma reviravolta em que um político acaba por fazer exactamente o contrário do que defendeu) e depois de um referendo em que venceu um “não” a um acordo com a troika, assinou esse acordo, com condições mais penalizadoras, num processo que levou ainda à imposição de controlo de capitais que, apesar de suavizados, ainda não foram levantados – duram há quatro anos.

E por muito que responsáveis se congratulem com um pequeno aumento do PIB, ou um ligeiro decréscimo da taxa de desemprego, a situação económica e social na Grécia ainda é muito complicada – um em cada dois jovens não consegue arranjar emprego; a maior parte dos empregos são precários e mal pagos, mais de metade das famílias não consegue pagar uma despesa inesperada; e um em cada três gregos está em risco de pobreza ou exclusão social.

Mesmo que o país tenha terminado com sucesso o último memorando, ainda está longe de se ver uma real recuperação e potencial de crescimento.

Além disso, as eleições vão realizar-se em pleno período de férias: é a primeira vez que as legislativas acontecem em Julho após a revolução democrática de 1974 (a outra votação foi o referendo ao plano da troika). Como é um país em que a vida se desloca para os centros turísticos (para trabalho sazonal ou férias) no Verão, é provável que a abstenção possa ser grande (nas últimas legislativas foi de 43%).

Macedónia, Mati...

O primeiro-ministro viu-se obrigado a marcar eleições antecipadas (apenas alguns meses) após uma derrota nas europeias em Maio, em que o Syriza ficou com dez pontos percentuais atrás da Nova Democracia. Para a queda de popularidade de Tsipras juntou-se, à aplicação da austeridade, o acordo com a Macedónia do Norte para que o nome do vizinho pudesse incluir o nome da região grega da Macedónia, de Alexandre, o Grande, figura central da identidade grega, e que muitos no país viram como uma traição.

A que se juntou a má gestão do incêndio de Mati, há um ano, com a falta de preparação dos serviços do Estado, de bombeiros à polícia, para lidar com a catástrofe causada por décadas de mau planeamento (morreram mais de cem pessoas).

Mas, como argumenta no site Macropolis o jornalista Nick Malkoutzis, o Syriza desapontou muitos por ter sido igual aos seus predecessores no modo de se comportar no poder, que tanto tinha criticado: “Usar empregos públicos para assegurar votos, ter ligações suspeitas com empresários, tentar controlar os media, tentar influenciar o sistema judiciário e governar com uma atitude arrogante”.

Até o cenário de aprovações de pacotes legislativos de centenas de páginas em maratonas parlamentares pela noite dentro – sem dar tempo aos deputados para as ler – foi igual.

A face nacionalista

Com a falta de escolha entre dois modos diferentes de reagir a uma crise que teima em não passar, os argumentos identitários ganham mais peso. E isto vê-se sobretudo na Nova Democracia.

O seu líder, Mitsotakis, que estudou em Harvard e Stanford e foi consultor em bancos e analista na McKinsey, é uma face da ala centrista, liberal, do partido. Mas o filho de uma dinastia política (uma das três famílias ao lado dos Papandreou e dos Karamanlis) – o pai foi primeiro-ministro, a irmã ministra dos Negócios Estrangeiros, o sobrinho acabou de ser eleito presidente da Câmara de Atenas – não se coibiu em juntar-se à onda de oposição ao acordo com a Macedónia do Norte e a rodear-se de políticos nacionalistas, alguns abertamente racistas.

Um deles chegou mesmo a propor na campanha que fosse dado um “bónus” de 2000 euros a cada bebé que tivesse pelo menos um progenitor grego para promover a natalidade. Claro que a medida parece destinada ao caixote das promessas não cumpridas – tanto pelo custo como pela potencial violação do princípio de igualdade – mas é um sinal desta face nacionalista.

No site Politico, o jornalista David Patrikarakos argumentava que se Mitsotakis, eleito deputado pela primeira vez em 2004 e que foi ministro da Reforma Administrativa entre 2013 e 2015, “pode ser um centrista”, o seu partido “é tudo menos isso”, sublinhando a maior importância de elementos como o vice-presidente Adonis Georgiadis, acusado de anti-semitismo. Figuras que antes teriam existido na periferia do partido têm agora um papel importante, argumenta Patrikarakos.

Mitsotakis, que nunca debateu com Tsipras (nas europeias disse que só o faria depois de marcadas as legislativas; agora Tsipras queria um debate a dois e Mitsotakis só um com todos os candidatos), já disse que se não obtiver uma maioria absoluta, irá a uma segunda volta.

Seria um cenário pior para si, porque o bónus de 50 deputados que é dado ao partido mais votado, para facilitar a maioria, desapareceria numa segunda volta. Até agora, os partidos mais pequenos não disseram com quem colaborariam num executivo.

Além da abstenção, que pode penalizar mais a Nova Democracia se for mais alta (a abstenção dos eleitores de esquerda já é esperada), há ainda a questão dos outros partidos que vão eleger deputados e que podem mudar a composição do Parlamento.

É certo que o Partido Comunista (KKE), o Movimento para a Mudança (KINAL, formado por antigos socialistas do PASOK), e a Aurora Dourada (neo-nazi) vão eleger deputados (estão perto, mas não chegam, aos dez por cento). Mas o novo partido ultra-nacionalista Solução Grega (de Kyriakos Velopoulos, conhecido por ter tentado vender cartas que garantia terem sido escritas por Jesus Cristo) e o partido MeRA25 (do antigo ministro das Finanças Yanis Varoufakis) estão nas sondagens perto dos 3% necessários para eleger deputados, o que traz mais um elemento de incerteza.

Outros partidos que foram relevantes nas últimas eleições, como To Potami (O Rio) ou até o ex-parceiro de coligação de Tsipras, o ANEL (Gregos Independentes), desapareceram agora.

O jornal americano Wall Street Journal fez as contas ao número de partidos fundados na Grécia depois de a crise estalar em 2009: 106 partidos. Na votação de hoje, há 20 partidos na corrida – na prática, 20 boletins de voto, um por cada partido que concorre: na urna é deixado apenas o boletim do partido escolhido, os outros são deitados fora.

Se menos partidos conseguirem representação parlamentar, mais hipóteses tem Mitsotakis para a maioria. E aí a fasquia sobe. “O seu sucesso [de Mitsotakis] ou não vai depender da sua vontade de enfrentar partes da velha Grécia e dos seus interesses escondidos, de elementos da sua própria família política”, diz a revista britânica The Economist. E não há, para já, indícios para optimismo: “Não o fez na batalha pela mudança de nome da Macedónia”.

De qualquer modo, num sinal não muito subtil que muito já está definido à partida, o Eurogrupo, que junta os ministros das Finanças da zona euro, reúne-se esta segunda-feira e o assunto na agenda é “a economia grega”. Isto no dia seguinte às eleições, quando pode não haver qualquer certeza de qual será o novo Governo. À agência de notícias AMNA, uma fonte do Eurogrupo reconheceu alguma estranheza no timing, mas disse que seria um modo de enviar “a mensagem certa” a qualquer governo que saia da votação.