O acordo de Tsipras deixou os gregos “desapontados, zangados e ansiosos”

O primeiro-ministro grego regressou a Atenas, depois da maratona negocial em Bruxelas, com um compromisso que mais parece uma capitulação. Mas agora, o importante é avançar, dizem os analistas.

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A manifestação desta segunda-feira à noite foi maior do que os protestos anteriores LOUISA GOULIAMAKI/AFP

O jornalista e o analista não podiam ser mais diferentes, mas estão juntos na defesa do acordo que chegou de madrugada em Atenas e que ainda deixava os gregos atónitos. Porque foi o acordo possível, dizem. Apesar do Banco Central Europeu não ter aumentado o financiamento aos bancos gregos, que vão continuar fechados até quarta-feira, anunciou o ministério das Finanças.

O facto de exigir ainda mais medidas do que as anteriores propostas, de obrigar a reverter medidas contrárias ao acordo, de deixar Atenas sob supervisão apertada da troika, e de fixar garantias em caso de incumprimento, tudo isto sem conseguir uma declaração inequívoca de restruturação da dívida, faz com que seja um acordo difícil de aceitar para uma facção do Syriza, que deverá partir-se. O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, cuja imagem de marca tem sido o ar bem-disposto nas cimeiras, parecia abatido depois das 17 horas de negociação. Os jornais gregos faziam eco de um sentimento de profunda derrota: “Afundem o país, ordena Schäuble”, diz o Efimerida Ton Syndakton (esquerda). No Twitter, foi criada e replicada uma hashtag (uma espécie de palavra para um assunto): “ThisIsACoup” – isto é um golpe de Estado.

Na votação anterior no Parlamento, que autorizou o Governo a negociar, 17 entre 149 deputados do Syriza não apoiaram o primeiro-ministro: votaram ou contra (dois), ou abstiveram-se (oito) ou estiveram ausentes (sete). Outros 15 deputados anunciaram que rejeitariam as reformas. E nesta segunda-feira, os parlamentares da chamada Plataforma de Esquerda, a facção mais radical no Syriza, anunciaram que rejeitarão as medidas. Serão cerca de 30 deputados.

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Em desacordo com Tsipras, Manolis Glezos figura histórica - foi quem tirou a bandeira nazi da Acrópole em 1941 - anunciou a sua demissão antecipada de deputado do Syriza no Parlamento Europeu.

Entre os 13 dos Gregos Independentes (Anel), não é claro o que poderia acontecer. O seu líder, Panos Kammenos, disse que não aprovaria o acordo mas continuaria no Governo, uma aparente contradição. Encontrou-se na segunda-feira com Tsipras e reúne-se esta terça com o grupo parlamentar do seu partido, populista e nacionalista, que se separou do partido Nova Democracia quando este começou a defender o memorando. A posição mais provável seria a abstenção ou ausência.

Apesar disto, as medidas serão certamente aprovadas, diz George Tzogopoulos, no seu gabinete no centro de estudos de relações internacionais Eliamep. E uma vez que o plano seja aprovado e a primeira ronda de medidas passe no Parlamento, será altura de formar o novo Governo, acrescenta. “Era bom que este Governo fosse o mais inclusivo possível, para que governe mesmo os três anos e meio que faltam. Precisamos disso”, sublinha. “Tsipras terá de se livrar das vozes radicais, e formar um governo rapidamente.”

Um cenário de novas eleições seria um pesadelo, diz Tzogopoulos. “Já votámos em Janeiro, já votámos agora… Com cada nova eleição, vamos ter de aceitar ainda mais medidas.”

Já Dimitris Rapidis, do centro de estudos Bridging Europe, está mais convencido de que as eleições antecipadas são mesmo um cenário a considerar - se não já, muito em breve. “Nestas circunstâncias de ruptura significativa no Syriza, Tsipras será forçado a eleições antecipadas porque perderá o apoio do seu partido”. Rapidis põe a hipótese de Tsipras não o fazer de imediato. “Mas os partidos da oposição vão questionar a maioria do Governo, e forçá-lo a eleições mais tarde ou mais cedo.”

A Nova Democracia tem um líder interino depois da demissão do anterior, e ex-primeiro-ministro, Antonis Samaras. O Pasok tem também uma líder nova, depois da demissão de Evangelos Venizelos após o desastroso resultado do partido nas eleições de Janeiro. Não é claro o que poderão querer para entrar num Governo.

O partido liberal To Potami disse que apoiaria o Governo mas não quer participar. Um dos seus deputados, Harry Theoharis, defendeu mais tarde a ideia de um executivo liderado por “personalidades capazes de ser muito técnicas mas também com um sentimento político”, segundo o diário francês Le Monde – o jornal nota que Theoharis, que esteve à frente do Secretariado-Geral de Informação do Ministério das Finanças, o organismo responsável pela modernização fiscal e luta contra a fuga ao fisco, poderia estar a falar de si próprio.

E analistas sublinham que uma coisa é a aprovação no Parlamento das medidas, outra coisa é a sua concretização. “A linha dura [europeia] quer dizer que os riscos políticos de um lado ou outro não conseguirem concretizar são grandes”, diz a revista britânica The Economist.

O processo vai ser difícil. O jornalista Nick Malkouztis, do diário Kathimerini e do site de análise Macropolis, refere que o Governo “tem de aprovar quatro leis até quarta-feira e outras duas até 22 de Julho, que é provavelmente mais do que o que legislaram desde a vitória eleitoral”.

Tsipras notou, no seu discurso após acordo, que várias medidas a aprovar vão criar inevitavelmente tendências de recessão, embora assegurasse que a decisão “vai manter a estabilidade financeira da Grécia e dar potencial de recuperação”.  

Muitos gregos estavam em choque com as medidas anunciadas. Mas mesmo entre muitos dos que defenderam o “não” no referendo da semana passada, há quem tenha compreensão e tente “vender” o acordo, como o jornalista do Avgi, ecoando o primeiro-ministro: “Vai ser difícil, mas conseguimos algumas vitórias na questão da restruturação da dívida”, defende Panagopoulos. “O mais importante é que evitámos um golpe de Estado contra um Governo democraticamente eleito e evitámos também um executivo com técnicos, que já mostrou que é um desastre, tanto aqui como em Itália”, defende. E com um tom combativo, acrescenta que agora é a vez de todos ajudarem: “Temos de fazer muitas coisas e ajudar a mudar o país”.

Tsipras finalizou o seu discurso com uma nota de que as medidas serão aplicadas “com justiça social”, e que “desta vez, os que evitaram pagar, vão pagar, vão partilhar o fardo”. Finalmente, prometeu “livrar-se dos interesses escondidos no país, fazer reformas radicais a favor das forças sociais, e contra a oligarquia que deixou o país neste estado” – um “compromisso que começa amanhã”.

Tudo isto acontece com os bancos ainda fechados e sem perspectivas de abrirem tão cedo. O Ministério das Finanças disse que ficarão encerrados até quarta-feira, mas analistas dizem que poderá ser que seja mais tarde. “E mesmo quando reabrirem, deverão manter-se alguns controlos de capitais, por exemplo limites nos levantamentos, limites nas transferências, e limites nas transferências para o estrangeiro”, enumerou Tzogopoulos.

Começaram a ser anunciadas greves: das farmácias, e ainda uma greve geral do sector público para quarta-feira, o dia da votação no Parlamento. Também tem havido manifestações, primeiro muito restritas a grupos de extrema-esquerda e anticapitalistas, mas a começar a ganhar fôlego pouco a pouco – a desta segunda-feira à noite já era maior, com música em vez de apenas palavras marteladas por activistas ao megafone.

“É muito difícil ter noção do que será a reacção da sociedade. Até agora, especialmente depois do grande ‘não’ no referendo, que vai contra o memorando devastador, as pessoas estão extremamente desapontadas, zangadas e ansiosas”, nota Rapidis.

Se essa frustração sairá em forma de votos nas próximas eleições, antecipadas ou não, é muito provável. “Poderão aparecer novas formações políticas, como a Plataforma de Esquerda sair do Syriza, ou, por outro lado, outros partidos vindos do centro. A Aurora Dourada vai aumentar o seu poder de atracção, mas não tanto assim”, antecipa. “O que antevejo é uma continuação da instabilidade política na Grécia”, conclui: “E posso dizer é que os defensores de uma saída do euro vão certamente aumentar, um partido ou grupo de políticos que apoiem essa opção poderão receber apoio substancial.”