Rio isola críticos ao escolher novos rostos para as listas de deputados

Líder do PSD deixa o primeiro lugar na lista de deputados pelo Porto para Hugo Carvalho, presidente do Conselho Nacional de Juventude, e candidata-se na segunda posição. Em Lisboa, o rosto da candidatura é Filipa Roseta.

Rui Rio não vailiderar nenhuma lista de deputados às eleições legislativas
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Rui Rio não vailiderar nenhuma lista de deputados às eleições legislativas LUSA/FERNANDO VELUDO

Rui Rio fez uma revolução nas listas para deputados, trocando as voltas aos seus adversários ao escolher novos protagonistas para representarem o PSD na Assembleia da República a partir de Outubro. Ao apostar em pessoas que não são do seu núcleo duro – a única excepção é Mónica Quintela, que vai por Coimbra – Rio acabou por silenciar os críticos que terão de esperar pelos próximos capítulos, uma vez que foram apenas anunciados seis candidatos. Do ponto de vista da coerência, marcou pontos porque sempre disse que ia fazer diferente. 

Em alguns dos maiores círculos eleitorais do país, o líder social-democrata fez escolhas arriscadas, apresentando rostos novos, como é caso dos cabeças de lista do Porto e de Lisboa, respectivamente Hugo Carvalho, presidente do Conselho Nacional de Juventude, e Filipa Roseta, vereadora da Câmara de Cascais.

Os seis primeiros candidatos a deputados às eleições legislativas foram noticiados na edição deste sábado do semanário Expresso e incluem ainda a deputada e líder da JSD, Margarida Balseiro Lopes (Leiria), a investigadora universitária Ana Miguel Santos, que tinha sido candidata a eurodeputada no oitavo lugar na lista do PSD (Aveiro), o vogal da comissão política nacional e vereador em Guimarães, André Coelho Lima (Braga), e a advogada Mónica Quintela, porta-voz para a Justiça do Conselho Estratégico Nacional (Coimbra).

Dos escolhidos, quatro são mulheres e apenas uma – Margarida Balseiro Lopes – é deputada. A líder da JSD e Hugo Carvalho têm menos de 30 anos. Lisboa, Porto, Braga, Aveiro, Coimbra e Leiria representam cerca de dois terços do eleitorado e o objectivo foi “promover uma ruptura” e “abrir caminho a jovens e à sociedade civil”.

Nas redes sociais, a decisão foi elogiada por Pedro Duarte, que há quinze dias lançou o movimento Manifesto X com medidas para gerir o país na próxima década. O social-democrata escreveu no Facebook sobre o que considerou serem “as surpreendentes escolhas de Rui Rio" e defendeu que “devem merecer aplauso” porque “mostram rasgo, inovação, renovação e foco no futuro”. Nomes como Ana Miguel, Hugo Carvalho, João Moura ou André Coelho Lima são, para o ex-líder da JSD, “uma aposta segura numa geração diferente e cheia de talento”. 

“A política precisa de novas abordagens que complementem o saber acumulado e a experiência. Fica a esperança de que este promissor sinal signifique um novo tempo na afirmação de uma alternativa de futuro para Portugal. Ainda vamos a tempo”, arriscou Pedro Duarte. 

Alguns dos nomes que Rio convidou para as listas têm ligações a Pedro Duarte e a Miguel Pinto Luz. Hugo Carvalho deu contributos para o Manifesto X e André Coelho Lima foi assessor jurídico de Pedro Duarte quando este foi secretário de Estado da Juventude. Por seu lado, Ana Miguel Santos trabalhou directamente com Miguel Pinto Luz quando este assumiu funções de secretário de Estado das Infra-estruturas, Transportes e Comunicações, sendo sua chefe de gabinete - antes havia sido assessora no Ministério da Defesa Nacional.

Curioso é que tanto Pedro Duarte como Miguel Pinto Luz já ponderaram candidatar-se à presidência do PSD. Também Carlos Carreiras, que nunca se assumiu como adversário de Rio, elogiou as escolhas, incluindo a da sua vereadora Filipa Roseta. Mas deixou um alerta: “Reconheço que (...) é uma aposta de ruptura e de risco (o que também valorizo) por parte de Rui Rio, pelo que a estratégia anunciada deve ser complementada com algumas precauções, para que esta aposta do presidente do PSD não possa ser questionada no sentido de que Rio, ao não ser cabeça de lista, é para poder continuar a dizer que nunca perdeu nenhuma eleição em que liderou a lista, ou que se trata de uma estratégia de colocar cordeiros pascais em cabeças de lista para o lobo mau se esconder atrás deles”. 

O líder da distrital de Braga do PSD foi das poucas vozes do partido que veio publicamente elogiar a escolha de André Coelho Lima, mas o nome daquele que foi o mandatário distrital da candidatura de Rui Rio à presidência do PSD não consta das propostas feitas pela estrutura liderada por José Manuel Fernandes, apoiante de Rio desde as directas de 2018. A secção de Guimarães do PSD indicou o deputado Emídio Guerreiro e não André Coelho Lima. Vogal da comissão política nacional, Coelho Lima foi candidato em 2013 e 2017 à Câmara de Guimarães, tendo perdido para o PS a presidência da autarquia, elegendo da segunda vez mais um vereador do que nas primeiras autárquicas.

Rui Rio não encabeçará nenhum círculo eleitoral e, por estes dias, deverá haver mais anúncios de cabeças de lista – cuja escolha é uma prerrogativa do presidente do partido. É provável que o líder social-democrata volte a surpreender. “O partido quer fazer uma aproximação ao eleitorado mais jovem (até aos 40 anos) e se a vitória não acontecer agora, surgirá no futuro”, afirmou ao PÚBLICO fonte do partido, acrescentando que “a aposta em novos protagonistas não é uma preocupação eleitoral do PSD, é antes um sinal de que é preciso fazer diferente e de que é preciso fazer mudanças dando lugar aos mais novos. O exemplo tem de vir de cima e aqueles que não querem seguir o exemplo estão à revelia do partido”.

A direcção do partido quer deixar a sua marca, que passa por mudar políticas e rostos, e se da próxima vez voltar a apresentar nomes para deputados que escapem ao sistema é porque quer tornar a sua “mensagem mais forte e mais eficaz”.

 Os críticos da actual direcção estranham a escolha de Hugo Carvalho para número um pelo Porto e questionam qual é a sua representatividade para surgir num lugar tão destacado. Fonte próxima do ex-presidente da Câmara do Porto explica que o presidente do Conselho Nacional de Juventude “não foi escolhido por ser militante do PSD, mas sim pela preponderância que teve no mundo associativo juvenil”.