Tunísia em pânico com o regresso dos atentados e a saúde do Presidente

Um polícia morto e vários feridos, entre os quais civis, trouxe o medo de volta a Tunes. E a doença do chefe de Estado ajudou a agitar o clima no país. O Daesh já reivindicou os dois atentados.

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Os atentados foram cometidos por bombistas suicidas EPA
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O Presidente Béji Caïd Essebsi está "estável" mas em estado grave GIUSEPPE LAMI/EPA

Um duplo atentado na capital, Tunes, que fez um morto e oito feridos, e o internamento de urgência do nonagenário Presidente da República, Béji Caïd Essebsi, abalaram a Tunísia na abertura da época alta turística, e poucos dias depois de uma polémica mudança na lei eleitoral que impedirá candidatos ditos “populistas” de concorrerem às eleições legislativas de Outubro e presidenciais de Novembro.

Um comunicado da presidência da República noticiou que Essebdi, de 92 anos, foi internado no Hospital Militar de Tunes, “em estado crítico”, numa “crise de saúde grave”. O anúncio desencadeou uma vaga de boatos – uma televisão chegou até a noticiar a sua morte, e obrigou um conselheiro do Presidente a desmenti-los, garantindo que o chefe de Estado estava “estável”. O primeiro-ministro Youssef Chahed garantiu no Facebook que Caïd Essebsi estava a receber toda a atenção necessária e pediu para que não se espalhassem mais “fake news” sobre a sua saúde.

O Presidente já tinha sido internado na semana passada, e a notícia de novo internamento, que surgiu após dois atentados suicidas no centro da capital – que fizeram apenas um morto, um agente da polícia, e vários feridos, entre os quais civis –, numa das avenidas mais movimentadas, agitou os ânimos. Um dos ataques foi perto da embaixada francesa em Tunes e tudo aconteceu um dia depois do quarto aniversário do atentado em Sousse, quando um atirador matou 38 pessoas numa estância balnear nesta zona turística tunisina no Golfo de Hammamet. O grupo jihadista Daesh já reivindicou os dois atentados suicidas, segundo a agência de notícias Amaq, citada pela Reuters. 

Estes ataques foram os primeiros desde Outubro do ano passado, quando uma mulher se fez explodir no centro de Tunes, ferindo 15 pessoas (entre elas dez polícias). Esse ataque pôs fim ao período de acalmia que o país vivia, depois de um ataque particularmente violento em 2015. Nesse ano, uma sucessão de três atentados (sendo que um deles teve como alvo guardas presidenciais), reivindicados pelo Daesh, fez 12 mortos. 

A Tunísia é o único dos países que passou pelo processo da Primavera Árabe, em 2011, que efectuou uma verdadeira transição democrática. Essebsi foi eleito Presidente em 2014, à frente do partido Nidda Tounes, que se tornou a maior força política tunisina. Mas o partido cindiu-se em dois, no congresso de Abril deste ano: uma parte é dirigida pelo filho do Presidente, Hafedh Caïd Essebsi, e outra pelo deputado Sofiène Toubel.

Apesar dos seus 92 anos, o partido fez ainda uma tentativa de apresentar o nome de Caïd Essebsi à sua própria sucessão. Ele, no entanto, garantiu em Abril que não se candidataria – o Presidente considerou que era altura de “dar lugar aos jovens”.

Mas o grande tema político recente é a nova lei eleitoral, apresentada na semana passada, que pretende dificultar as candidaturas de partidos não tradicionais – classificados como “populistas” – e está a inflamar a cena política tunisina. A lei parece ter alvos específicos, diz o jornal francês Le Monde, como Abir Moussi, que considera a revolução de 2011 que depôs o ditador Ben Ali “uma conspiração estrangeira” e quer fazer uma nova Constituição. Ou então o proprietário de uma televisão que tem operado sem licença, e é amigo e admirador de Silvio Berlusconi.