Paulo Branco não foi convidado para a Casa do Cinema Manoel Oliveira porque este “assim o determinou”

Manuel Casimiro justifica a ausência do produtor como uma vontade expressa pelo pai. A restante família demarca-se da decisão do filho mais velho.

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Manuel Casimiro entre o Presidente da República, a presidente de Serralves e a ministra da Cultura na inauguração da Casa do Cinema Adriano Miranda

A inauguração, no dia feriado de S. João, no Porto, da Casa do Cinema Manoel de Oliveira contou com muitas centenas de convidados e participantes. Mas houve também ausências, e uma das mais notadas, como o PÚBLICO então referiu, foi a de Paulo Branco, o produtor que trabalhou com o realizador durante mais de duas décadas e de duas dezenas de filmes.

Na altura, percebeu-se que a Fundação de Serralves não enviara um convite formal a Paulo Branco, uma decisão que teria partido da família do autor de Aniki-Bóbó. Em nome dos familiares, Pedro Lagrifa Oliveira, neto do realizador, fez entretanto chegar ao PÚBLICO uma pequena nota de “esclarecimento”, dizendo que “a ausência de Paulo Branco resultou da decisão de um dos membros da família, Manuel Casimiro, decisão essa que não foi nem é veiculada pelos restantes familiares”.

Manuel Casimiro, pintor, escultor e designer, confirmou ser o responsável pelo facto de Paulo Branco não ter sido convidado, mas apenas porque assim estava a dar sequência, e a “respeitar integralmente a vontade e a determinação” do seu pai, que está, de resto, expressa em documentos que estão na posse de advogados, tanto em Portugal como em França.

“Aqui, e ao contrário do que tem sido dito, eu não sou representante da família; pelo protocolo assinado por Manoel de Oliveira em vida, eu sou o representante dele; portanto, a família não tem que dar pareceres”, acrescenta Casimiro, que na cerimónia do dia 24 de Junho fez uma intervenção recordando as dificuldades que o cineasta tinha enfrentado ao longo de mais de uma década para ver os seus arquivos preservados na sua cidade e disponíveis para o público.

Sobre a iniciativa dos seus irmãos e sobrinhos de se demarcarem da sua posição, Manuel Casimiro limitou-se a lamentar que eles “estejam agora a contrariar, e a desconsiderar, a vontade do pai ou avô”. E acrescenta: “A Casa do Cinema Manoel de Oliveira não é de nenhum familiar; temos que respeitar na íntegra a vontade dele”.

Associado ao esclarecimento citado, os restantes familiares do realizador de Visita ou Memórias e Confissões consideram que “a inauguração da Casa do Cinema Manoel de Oliveira na cidade do Porto, com assinatura do arquitecto Siza Vieira, é para a família uma enorme satisfação pela importância que a casa terá na divulgação e preservação do trabalho do cineasta e do cinema português”. E acrescentam que “é convicção dos familiares que esta era a vontade do cineasta, e que, para a sua concretização, foram indispensáveis os esforços concertados de várias entidades e de várias personalidades, o que muito se agradece”.

Por trás deste episódio está o corte de relações, de trabalho e de qualquer outra espécie, que Manoel de Oliveira decidiu estabelecer relativamente a Paulo Branco após a realização de O Quinto Império, Ontem como Hoje (2004), a 21.ª longa-metragem por ele produzida para o cineasta, num percurso que começou com Francisca (1981).

Outra figura com quem Manoel de Oliveira cortou relações a dada altura da sua carreira – e que também ficou excluído de convite para a inauguração em Serralves – foi o francês Jacques Parsi, crítico, professor e historiador de cinema, que colaborou com o realizador português em filmes como O Meu Caso (1986), Party (1996) e Viagem ao Princípio do Mundo (1997), e publicou também vários livros em França sobre ele, entre os quais, em parceria com Antoine de Baecque, Conversation avec Manoel de Oliveira (Cahiers du Cinéma, 1996), que teve depois uma edição portuguesa na Campo das Letras, em 1999.

Contactada pelo PÚBLICO, a Fundação de Serralves não quis pronunciar-se sobre este caso.