Editorial

César e o discurso do diabo

É duvidoso que a estratégia de mimetizar Passos seja bem-sucedida para a maioria absoluta. A agravante é que afasta o eleitorado socialista que se sentiu confortável com estes quatro anos de governação.

Quem tinha saudades dos discursos de Pedro Passos Coelho consolou-se um bocadinho com o presidente do PS, Carlos César. Entre a ameaça da “bancarrota” e o andar “com uma mão à frente e outra atrás”, a linguagem do líder parlamentar do PS não podia ser mais edificante. Como não tem forma de explicar o recuo do PS na questão da aprovação do fim das taxas moderadoras, César lança uns ataques desproporcionados ao Bloco de Esquerda (“O Bloco não manda na Assembleia da República nem manda no país” — claro, só “mandou” o correspondente ao seu resultado eleitoral de modo a, em conjunto com o PCP, viabilizar um Governo socialista durante quatro anos) e depois oferece ao povo um reciclado discurso do diabo que já não ouvíamos desde que Pedro Passos Coelho abandonou a liderança do PSD. 

Atente-se nos termos usados por Carlos César, porque a semiótica é, neste caso, um facto político: “Se fôssemos sempre atrás do estilo de aventura, de que tudo é fácil, que tudo é barato (...), tínhamos um país com uma mão à frente e outra atrás e voltávamos ao tempo da bancarrota.” Isto é o discurso do “vem aí o diabo”, expressão um dia atribuída a Passos Coelho e ressuscitada agora por um alto dirigente socialista em combate com os seus parceiros de Governo

A questão é que não é apenas a dificuldade de explicar o recuo da bancada que chefia na aprovação do fim das taxas moderadoras que explica o inopinado uso da linguagem passista por parte de Carlos César. A expressão “contas certas” que foi o mantra da campanha para as europeias já tinha tido essa inspiração. Ao que tudo indica, na ânsia de fazer sobressair a sua vertente centrista e em captar o eleitorado que desapareceu do PSD, não vão chegar aos socialistas as “boas contas” de Centeno que, como Marcelo referiu, têm o seu senão no estado dos serviços públicos.

Preparemo-nos para ver mais altos dirigentes do PS a dramatizar contra “quem leva o país para a bancarrota” — por acaso foi um governo PS e nele estavam várias pessoas que compõem o actual. Daqui até às legislativas, muitos irão gritar “vem aí o diabo”. Os discursos estão escritos: basta ler tudo o que disse Passos Coelho contra o anterior governo PS e contra o governo Costa enquanto foi líder. É duvidoso que a estratégia de mimetizar Passos seja bem-sucedida para a maioria absoluta. A agravante é que afasta o eleitorado socialista que se sentiu confortável com estes quatro anos de governação.