Quem paga o quarto poder?

Com plataformas como o Google e o Facebook a captarem o dinheiro da publicidade, muitos órgãos de comunicação tentam vender jornalismo na Internet. Em Portugal, apenas 7% pagam por notícias online.

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Em Portugal, a confiança nas notícias é elevada por comparação com os outros países Nelson Garrido

O jornalismo pode ser o quarto poder nas democracias – mas, ao contrário dos outros três, não depende do dinheiro público para funcionar. E debate-se há anos com uma crise de negócio.

A massificação da Internet começou no final dos anos 1990. Poucos anos depois, começava o declínio da venda de jornais e revistas. Em Portugal, o número total de exemplares vendidos caiu 40% entre 2011 e 2017, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE). A queda é maior no segmento dos jornais generalistas nacionais.

Ao contrário do que muitos antecipavam em meados da década passada, quando o Google já era um gigante e o Facebook estava a nascer, a publicidade digital não compensou a quebra das receitas das edições impressas. Em vez disso, o dinheiro dos anunciantes migrou sobretudo para as grandes plataformas de Internet, onde os anúncios são mais direccionados e onde as marcas têm formas de chegar a clientes que não passam apenas pela publicidade.

A concorrência das plataformas digitais não tocou apenas a imprensa escrita, num efeito em cascata que afectou rádios e televisões. O mercado publicitário português encolheu 41% entre 2008 e 2017, segundo o INE. O investimento na publicidade online foi o único que cresceu naquele período, passando a representar um quinto do total. Desta fatia, só uma parte é para os media (medir o volume das receitas publicitárias não é uma ciência exacta, em parte, porque os órgãos de comunicação fazem descontos acentuados sobre os preços de tabela, e há números muito diferentes dos do INE).

Quando se tornou evidente que os novos modelos de publicidade digital não iam chegar para financiar as redacções, muitas empresas de comunicação decidiram apostar na estratégia de vender notícias online, tipicamente através de assinaturas. É um modelo que tem funcionado melhor para alguns órgãos do que para outros (na linha da frente estão as grandes publicações internacionais que têm uma audiência global) e que em alguns países parece ter beneficiado de um ambiente político polarizado e onde campanhas de desinformação podem ter tido consequências eleitorais.

Nos EUA, as assinaturas de jornais online subiram acentuadamente em 2016, o ano em que Donald Trump foi eleito, estabilizando nos ano seguintes, segundo números do Digital News Report, um relatório anual do Instituto Reuters para o Estudo do jornalismo, que foi divulgado na semana passada e que faz inquéritos a milhares de pessoas em 38 países.

Mesmo que não sirva para todos, o modelo de assinaturas pode ser uma luz ao fundo do túnel para os media. “É possível imaginar um cenário em que algumas empresas dominantes sobrevivem em cada mercado, enquanto outras encolhem significativamente. Mas a situação pode mudar rapidamente,” observa ao PÚBLICO Richard Fletcher, investigador do Instituto Reuters. “Há poucos anos, a preocupação era saber se as pessoas algum dia pagariam por notícias. Agora, é saber se pessoas suficientes vão pagar.”

O relatório nota que a conquista de novos assinantes digitais pode estar a aproximar-se de um limite, mesmo que a percentagem de pessoas que paga por notícias pareça baixa, especialmente aos olhos de quem gere o negócio dos media.

Em Portugal, apenas 7% dos consumidores de notícias dizem que pagam por jornalismo online (no ano passado, eram 9%). Contabilizando apenas os que têm uma assinatura recorrente, o número desce para 5%. Os utilizadores em Portugal até estão entre os que mais confiam nas notícias (em segundo lugar na lista de países analisados) e entre os que mais preocupações mostram com o fenómeno das chamadas fake news – mas acabam por ficar entre os que menos pagam por jornalismo na Internet.

Apesar dos esforços crescentes do sector, o crescimento de utilizadores pagantes aconteceu apenas num número reduzido de países, entre os quais a Noruega e a Suécia. Em parte, argumentam os autores do relatório, muitas pessoas poderão estar cansadas de assinarem múltiplos serviços online e têm mais propensão para pagar por entretenimento, numa altura em que abundam opções na Internet. Quando questionados sobre que serviços pagos assinariam se só pudessem escolher um, poucos escolhiam notícias. Muitos mais preferiam pagar por música ou filmes – ou não pagar nada.

A análise do Instituto Reuters mostra o perfil de quem tem mais propensão a fazer uma assinatura de um site informativo: aqueles que têm mais habilitações académicas e mais rendimentos. Com alguns órgãos a colocarem o seu melhor jornalismo atrás de uma paywall, um efeito colateral pode ser o aparecimento de uma “desigualdade de informação”, observa Richard Fletcher.

“A principal preocupação é que só um pequeno grupo de elite tenha acesso a informação de qualidade, porque são os únicos dispostos a pagar por ela”, diz o investigador. “Os efeitos concretos que isto pode ter, se acontecer, são difíceis de antecipar, e irão variar consoante os contextos, mas as sociedades em geral beneficiam de ter uma população bem informada que seja capaz de tomar decisões políticas bem informadas.”