Trump diz que cancelou ataque contra o Irão por ser “desproporcional”

Presidente norte-americano diz que as armas estavam apontadas a três alvos iranianos, em resposta ao abate de um drone não-tripulado. Operação foi cancelada porque faria 150 mortos no Irão, segundo Trump.

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O Irão terá recebido uma mensagem do Presidente norte-americano Carlos Barria/REUTERS

O Presidente dos EUA, Donald Trump, disse esta sexta-feira que os aviões e os mísseis norte-americanos estiveram virados para o Irão e preparados para destruírem três alvos no país, mas a ordem de ataque não foi dada porque seria “desproporcional”. Num episódio com avanços e recuos que deixam bem visível a instabilidade no estreito de Ormuz, entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, Trump disse que recuou porque recebeu a informação de que pelo menos 150 pessoas poderiam ser mortas na resposta norte-americana ao abate de um drone não-tripulado pelo Irão, na quinta-feira.

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O Presidente dos EUA, Donald Trump, disse esta sexta-feira que os aviões e os mísseis norte-americanos estiveram virados para o Irão e preparados para destruírem três alvos no país, mas a ordem de ataque não foi dada porque seria “desproporcional”. Num episódio com avanços e recuos que deixam bem visível a instabilidade no estreito de Ormuz, entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, Trump disse que recuou porque recebeu a informação de que pelo menos 150 pessoas poderiam ser mortas na resposta norte-americana ao abate de um drone não-tripulado pelo Irão, na quinta-feira.

Numa comunicação ao país, na forma de uma série de mensagens publicadas na rede social Twitter, o Presidente norte-americano não explicou em que momento da operação foi informado sobre o número de potenciais vítimas – uma informação que, tipicamente, é discutida com os responsáveis militares no início e não na fase final de um plano de ataque militar.

Esta sexta-feira, Trump disse que ordenou o cancelamento “dez minutos antes do ataque”, depois de ter perguntado a “um general” quantas pessoas iriam ser mortas. “150 pessoas foi a resposta de um general. Travei o ataque dez minutos antes, porque não seria proporcional ao abate de um drone não-tripulado”, disse o Presidente norte-americano, acrescentando que os EUA vão continuar a pressionar o Irão por outros meios.

“Não tenho pressa. As nossas forças armadas foram reconstruídas e estão a postos. São, de longe, as melhores do mundo. As sanções estão a fazer danos e ontem [quinta-feira] aprovámos mais algumas”, disse Trump, sem esclarecer que novas sanções foram aprovadas esta semana. Segundo o site do Departamento do Tesouro norte-americano, as sanções mais recentes foram anunciadas a 12 de Junho, abrangendo mais dois indivíduos e uma empresa ligados ao regime iraniano.

As explicações de Trump foram recebidas com duras críticas no Partido Democrata, mas também em alguns sectores do Partido Republicano. O congressista Mike Gallagher, do Wisconsin, disse que o recuo no ataque vai “encorajar o Irão”, e comparou Trump ao seu antecessor, Barack Obama: “Se dissermos que vamos fazer uma coisa e depois não a fazemos, ficamos numa terra de ninguém. Foi aí que Obama viveu durante oito anos, e não é um bom sítio para se viver.” 

Avanços e recuos

A notícia de que o Presidente norte-americano tinha ordenado um ataque contra o Irão, para depois recuar, foi avançada pelo jornal New York Times ainda na quinta-feira e dava conta de um ambiente de surpresa nas estruturas militares e políticas.

“Pelo menos até às 19h [de quinta-feira], responsáveis militares e diplomáticos estavam à espera que fosse lançado um ataque, depois de intensas reuniões na Casa Branca entre os principais conselheiros de segurança nacional e líderes do Congresso”, avançou o jornal, baseando-se nos relatos de “múltiplos responsáveis envolvidos ou informados sobre as decisões”.

Por essa altura, a resposta norte-americana ao abate de um drone pelo Irão, na quinta-feira, parecia estar decidida. Ao contrário do que é habitual quando não estão em causa vidas humanas, a Casa Branca teria decidido lançar um ataque contra três alvos iranianos.

Mas esse plano para atacar o Irão ia também contra as primeiras declarações do Presidente Trump, na quinta-feira, quando se soube que as forças iranianas tinham abatido um drone da Marinha norte-americana avaliado em 130 milhões de dólares. O Irão garante que o drone violou o seu espaço aéreo, na região do estreito de Ormuz, e os EUA dizem ter provas de que nunca deixou de sobrevoar águas internacionais.

Na quinta-feira, quando questionado sobre o assunto antes de uma reunião com o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, o Presidente norte-americano desvalorizou o episódio, dizendo mesmo que o míssil teria sido disparado por um “estúpido que agiu à revelia” das suas chefias.

Na mesma ocasião, Trump deu a entender que os EUA não iriam responder com um ataque militar, ao salientar que o drone não era tripulado – se fosse tripulado, disse, isso teria feito “uma grande diferença”.

O recuo na ordem de ataque contra o Irão soma-se a outros episódios, nas últimas semanas, que deixam alguns observadores intrigados sobre a estratégia da Casa Branca em relação ao Irão, mais de um ano depois da saída dos EUA do acordo sobre o programa nuclear iraniano.

Apelo ao diálogo

Também esta sexta-feira, a agência Reuters noticiou que o Irão terá recebido uma mensagem do Presidente norte-americano, na noite de quinta para sexta-feira, alertando para um ataque e apelando ao diálogo.

“Na mensagem, Trump disse que era contra a guerra com o Irão e que queria falar com Teerão sobre vários assuntos”, disse à Reuters um responsável iraniano cuja identidade não foi revelada. “Ele deu um prazo curto para a resposta, mas a nossa resposta imediata foi que só o Supremo Líder, o ayatollah Ali Khamenei, pode tomar decisões.”

Esta aparente indecisão na Casa Branca sobre o melhor caminho a seguir levou Peter Bergen, especialista em assuntos de segurança nacional norte-americana, a escrever no site da CNN: “Isto leva-me a perguntar se alguém tem alguma ideia de qual é o objectivo de Trump no Irão – incluindo o próprio Presidente.”

Outros observadores sugerem que o resultado final da actual tensão entre os EUA e o Irão pode mesmo ser um conflito armado, ainda que não seja essa a vontade do Presidente norte-americano.

“Em certa medida, o Presidente Trump está em rota de colisão com ele mesmo”, disse ao New York Times o presidente do International Crisis Group e antigo conselheiro do Presidente Barack Obama para o Irão, Robert Malley. “Ele diz que prefere aplicar máxima pressão [através das sanções] e que está contra um confronto militar, mas essas duas posições não podem ser ambas verdadeiras, porque uma delas pode levar à outra.”

O pano de fundo da subida da tensão entre os EUA e o Irão é a decisão do Presidente Trump de abandonar o acordo sobre o programa nuclear iraniano, em Maio de 2018 – o segundo acordo importante promovido pelo seu antecessor, Barack Obama, que Donald Trump rasgou, a seguir ao acordo climático de Paris.

“O Presidente Obama fez um acordo péssimo e desesperado com o Irão”, voltou a dizer Trump esta sexta-feira, no Twitter. “Deu-lhes 150 mil milhões de dólares, mais oito mil milhões em dinheiro. O Irão estava em dificuldades e ele salvou-os. Deu-lhes um caminho livre para as armas nucleares”, criticou o Presidente norte-americano.

Segundo os outros signatários do acordo, incluindo a União Europeia, o Irão nunca deixou de cumprir as suas obrigações, que incluem a diminuição do enriquecimento de urânio e a produção de plutónio, e um reforço das inspecções internacionais, o que garante a paralisação do programa nuclear pelo menos até 2030. Tudo em troca do alívio das sanções impostas ao país ao longo dos últimos anos.

O anúncio da saída norte-americana do acordo deixou os aliados europeus, e também a Rússia e a China, a tentarem salvar os pontos principais do documento. Mas as soluções propostas pela União Europeia para que o Irão seja compensado pelas sanções norte-americanas são insuficientes para apaziguarem Teerão. Esta semana, o país anunciou que está a poucos dias de ultrapassar o limite de urânio enriquecido imposto pelo acordo – uma decisão que deverá ter uma resposta por parte dos Estados Unidos.