Rangel recusa ideia de “geringonça” europeia e lembra que PPE é “indispensável” para maiorias

Eurodeputado diz ver o PSD “coeso e determinado” para as legislativas e considera que o resultado das europeias até pode ser “um estímulo” para o partido “tocar a reunir”.

Paulo Rangel
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Paulo Rangel LUSA/TIAGO PETINGA

O eurodeputado Paulo Rangel recusa a ideia de que se possa vir a formar qualquer “geringonça” europeia e realça que o Partido Popular Europeu (PPE) “é sempre indispensável” para formar maiorias no Parlamento.

“A versão que em Portugal actualmente passa sobre o actual estado das negociações europeias - e que [o primeiro-ministro] António Costa também tem veiculado - não corresponde à verdade”, defendeu, em entrevista à agência Lusa e à Antena Um, em San Sebastián (Espanha), no âmbito das jornadas parlamentares do grupo PPE.

Em concreto, o eurodeputado e vice-presidente da bancada e do PPE contesta a ideia de que possa existir uma aliança entre liberais e socialistas que exclua o PPE e que possa haver uma espécie de “geringonça” europeia, à semelhança do que se passa em Portugal, onde se construiu uma solução parlamentar sem o apoio do partido mais votado.

“Primeiro não há geringonça nenhuma, não há nenhuma maioria que pudesse ser conseguida com socialistas, liberais, verdes ou até mesmo a extrema-esquerda europeia [...]. O PPE é sempre indispensável a uma maioria no Parlamento e tem minoria de bloqueio no Conselho, isso é um facto”, salientou.

Por outro lado, Rangel relativizou o papel que o primeiro-ministro português tem tido como um dos dois negociadores dos socialistas europeus na discussão em curso sobre os cargos de topo da União Europeia, apontando que na imprensa internacional é o chefe de Governo espanhol, Pedro Sánchez, que aparece como “a figura mais relevante”.

“Não estou a menosprezar o seu papel, acho que para Portugal é bom que o primeiro-ministro português tenha um papel activo. Nas questões europeias, o primeiro-ministro português encarna não só a visão do seu grupo, mas a visão geopolítica portuguesa, e isso é positivo”, afirmou, lamentando que em Portugal se use por vezes “uma lógica patrioteira”.

Na reunião que decorreu esta semana em San Sebastián - e que juntou os deputados do PPE que agora abandonam funções e os que tomarão posse em 2 de Julho -, Rangel considerou que ficou “muito claro” que esta família política vai ser “completamente intransigente” na defesa do seu candidato, o alemão Manfred Weber, para presidir à Comissão Europeia.

Por outro lado, destacou, foi lançada uma plataforma negocial entre o PPE, os socialistas, os liberais e os verdes para encontrar consensos nas principais áreas programáticas, como a economia, ambiente, inovação ou defesa.

“A ideia será estes quatro grupos sentarem-se a uma mesa e estabelecerem prioridades comuns que possam levar ao Conselho e que qualquer candidato à presidência da Comissão possa subscrever como o seu programa”, explicou.

O eurodeputado José Manuel Fernandes - número dois da lista do PSD - é o único português que integra, na área da economia e finanças, a equipa negocial de dez elementos do PPE.

Numa reunião onde participaram, entre outros, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, e do Parlamento Europeu, Antonio Tajani, decorreram “intensas negociações” no grupo PPE para a distribuição dos deputados pelas várias comissões.

O líder da delegação do PSD no Parlamento Europeu considerou que estão assegurados lugares com “alguma influência e relevo para Portugal”, como a presença de efectivos nas comissões de economia, de orçamento ou de energia, estando os sociais-democratas a bater-se por uma presença permanente na de agricultura e uma participação reforçada na das pescas.

“Com os seis deputados como nós temos, é possível fazer uma cobertura quase total, entre efectivos e suplentes”, considerou Paulo Rangel.

Questionado se o próximo Conselho Europeu, que se realiza em 20 e 21 de Junho, poderá já chegar a uma decisão sobre os cargos de topo na União Europeia nos próximos cinco anos, Rangel confessou que sai de San Sebastián mais optimista do que chegou.

“A minha primeira impressão é que dificilmente ficaria resolvida a questão dos postos chave no Conselho Europeu de Junho, ou mesmo até final de Junho”, afirmou.

No entanto, considerou, alguns factores poderão acelerar o processo, como a eleição do presidente do Parlamento Europeu ter de ser feita na primeira sessão em Estrasburgo, em 2 de Julho.

“Como o presidente do Parlamento faz parte do “pacote”, é evidente que se não houver um acordo até lá, haverá uma eleição que depois vai condicionar as outras todas”, alertou.

Por outro lado, a previsível mudança de primeiro-ministro do Reino Unido, depois da demissão de Theresa May, funcionará também como factor de pressão externa.

“Ou se faz agora ou depois será sempre feito com novas premissas”, afirmou.

Paulo Rangel pediu ainda aos responsáveis nacionais que foquem a sua atenção num outro cargo europeu, que está mais afastado das negociações: o de presidente do Banco Central Europeu, alertando que poderá ser “muito complexo” para Portugal se a actual linha de Mário Draghi não for prosseguida.

Paulo Rangel afirmou ainda que vê o PSD “coeso e determinado” para as legislativas e considera que o resultado das europeias até pode ser “um estímulo” para o partido “tocar a reunir”, mas admite ser necessário “um suplemento de alma”.

“Eu acho que o partido está coeso, está determinado. Pode ter de fazer um esforço suplementar porque não atingiu os objectivos a que se propunha, é sempre um certo abalo. A dinâmica de vitória para se ter um bom resultado em Outubro precisa de um suplemento de alma”, defendeu Paulo Rangel.

O cabeça de lista do PSD nas eleições europeias de 26 de Maio - em que o partido manteve os seis eurodeputados, mas teve o pior resultado de sempre em eleições nacionais, abaixo dos 22% - admitiu que será preciso fazer um “maior esforço de mobilização” do que se os sociais-democratas tivessem conseguido eleger sete ou oito eurodeputados.

No entanto, Paulo Rangel alertou que a dinâmica entre eleições próximas variou ao longo da história do PSD, tendo por vezes um bom resultado nas primeiras gerado um efeito de dar “confiança excessiva” e culminado num mau resultado nas seguintes.

“Ao contrário, por vezes um resultado menos positivo, um resultado que não é satisfatório para nós, até pode ser um estímulo, é um tocar a reunir”, defendeu, considerando que a vitória em Outubro está ao alcance do PSD.

Por outro lado, Rangel considerou positivo que possam continuar a existir vozes críticas “aqui e ali”. “Não há nenhuma conjuntura em que elas não existam e se não existirem será mau sinal”, alertou.

O eurodeputado escusou-se a voltar à análise dos resultados das europeias, defendendo que o essencial é o partido “corrigir o que houver a corrigir” para Outubro e não fazer “catarses ou psicanálises no espaço mediático”.

Questionado se concorda com o presidente do PSD, Rui Rio, que falou em responsabilidade “repartida” pelos maus resultados do partido, Rangel disse haver uma “convergência na análise de que há factores complexos” na base de qualquer resultado eleitoral.

“Não pode ser atribuído a uma única pessoa ou uma única causa”, afirmou.

Apesar de não querer concretizar qual o peso que pode ter tido no resultado uma estratégia mais agressiva centrada no primeiro-ministro, António Costa, ou a crise dos professores, Rangel admitiu que esta última até teve “algum efeito”, mas apenas para ilustrar que os quatro meses até às legislativas podem ser muito tempo em política.

“É das coisas que mais me choca a forma como a comunicação social antecipa resultados desvalorizando a vontade dos eleitores. Em política, como a crise dos professores mostrou -- apesar de tudo, teve algum efeito aqui -, as coisas alteram-se por vezes de forma relevante em espaços de tempo muito curto”, afirmou.

Rangel considerou, por outro lado, que a comunicação social “tem prestado um mau serviço” na forma como comunica as sondagens, sobretudo em vésperas de actos eleitorais, por vezes “como se se tratasse de um veredicto”.

“Não sou favorável à proibição das sondagens, não tenho nenhuma teoria conspirativa quantos aos media, mas a forma como comunicam as sondagens é uma coisa que se devia rever”, defendeu.