Às cinco da tarde, o México vai defender a dignidade face aos EUA

Presidente mexicano convoca governadores, deputados, patrões e sindicatos para uma manifestação, este sábado, em Tijuana, para responder à ameaça de Trump por causa dos migrantes. Guerra de taxas alfandegárias pode custar muito à economia dos dois países.

López Obrador e o seu gesto na conferência de imprensa: "Sou dono do meu silêncio"
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López Obrador e o seu gesto na conferência de imprensa: "Sou dono do meu silêncio" EDGARD GARRIDO/REUTERS
Rio Suchiate
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Migrantes passam da Guatemala para o México através do rio Suchiate Luis Villalobos/EPA
,Andrés Manuel López Obrador
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Migrantes detidos pelas autoridades mexicanas esta semana em Tapachula, etado de Chiapas, que faz fronteira com a Guatemala Carlos Lopez/EPA

Se no Pranto por Ignácio Sánchez Mejía, Federico García Lorca insiste na hora “em ponto” das cinco da tarde para transmitir o dramatismo da morte do toureiro na praça ao seu poema mais conhecido, no caso da convocatória de uma manifestação para sábado feita pelo Presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, a razão não é inelutável, mas pretende igual efeito dramático: um protesto multitudinário em Tijuana, a que se juntarão governadores, senadores, deputados, patrões e sindicatos e membros do Governo.

“Vamos unir-nos para defender a dignidade do México e, ao mesmo tempo, para manter a amizade com o povo dos Estados Unidos”, explicou o chefe de Estado mexicano.

Será às cinco da tarde, na cidade capital do estado da Baixa Califórnia, mesmo ali nos limites nortenhos do México, com mensagem clara para o seu vizinho americano: responder simbolicamente à ameaça do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de aplicação de uma taxa alfandegária às importações do México (começando em 5% e subindo mensalmente mais 5% até ao máximo de 25%) caso este país não trave os migrantes da América Central que tentam entrar nos EUA.

Tão simbólico como foi López Obrador na sua conferência de imprensa matutina desta sexta-feira ao lhe pedirem um comentário à declaração do seu homólogo da Casa Branca, em entrevista à Fox News: “Não estou preocupado porque eles precisam de nós. Nós não precisamos deles, eles precisam de nós”, disse Trump.

Ao invés de responder, e porque antes já referira que o seu país quer “manter o diálogo e as boas relações com o Governo dos EUA”, López Obrador levantou os dois braços e estendeu dois dedos de cada mão, como se fizesse o “v” da vitória com que qualquer político experiente saúda os presentes nos seus comícios. Face à insistência dos jornalistas, repetiu o gesto e acrescentou: “Sou dono do meu silêncio”.

O Presidente do México tinha argumentos, números, factos para contestar a afirmação do seu homólogo de Washington. Por exemplo, de acordo com uma análise da consultora económica The Perryman Group, se os EUA subirem em 5% as taxas alfandegárias de todos os bens que importam do México podem perder 400 mil empregos. Se as taxas chegassem aos 25%, o preço dos veículos nos EUA aumentava em média 1300 dólares, tão dependentes se tornaram as duas economias com o Tratado de Livre Comércio da América do Norte, assinado em 1994, e que entretanto, Trump já obrigou a mudar.

Ao invés, López Obrador preferiu sublinhar a mistura de comércio com seres humanos por mais migrantes que sejam: “Infelizmente mistura-se o migratório com o comercial. Não deveria ser assim. Além do mais, no caso migratório, nem sequer se analisam as causas. Só se vêem os defeitos. Não se tem em conta o que se está a passar na América Central, a crise profunda, os nossos irmãos centro-americanos que não têm opções, que não têm alternativas – principalmente a crise nas Honduras”.

O chefe de Estado mexicano insistiu no ponto de estabelecer formas concertadas de responder ao problema na fonte: “Estamos sempre a insistir que tem de se atender às causas, que temos de apoiar os países centro-americanos, para que haja actividades produtivas, para que haja emprego, para que haja bem-estar. Para que a migração seja opcional e não forçada”.

O diálogo entre as duas partes foi reatado na quinta-feira, com o vice-presidente Mike Pence a chefiar a delegação dos EUA e ministro dos Negócios Estrangeiros mexicano, Marcelo Ebrard, à frente da congénere do México. “Estou optimista, acredito que chegaremos a um acordo. É isso que queremos, sempre dissemos que o melhor é dialogar”, afirmou López Obrador.

Foi Ebrard quem anunciou na quinta-feira que o Governo mexicano iria enviar seis mil homens da sua recém-criada Guarda Nacional (GN) para a fronteira sul com a Guatemala, para ajudar no controlo do fluxo migratório proveniente da América Central, principalmente de Guatemala, Honduras e El Salvador.

Pence saiu da reunião “encorajado” pelas propostas mexicanas, embora sublinhasse que a última palavra a tem o Presidente Trump, a quem cabe decidir se o México está a fazer o suficiente para travar as caravanas de migrantes rumo à fronteira com os EUA.

O Presidente mexicano, no entanto, explicou que a GN é uma polícia de segurança pública que permite ajudar em questões migratórias e que a deslocação de seis mil homens para a fronteira com a Guatemala está relacionado com a colocação destes guardas em todo o território mexicano, nas 266 coordenações em que o Plano Nacional dividiu o país.

Washington continua a pressionar o México a mudar a sua lei de asilo para funcionar como um “país terceiro seguro”, o que permitiria aos EUA deportar candidatos a asilo da Guatemala para o México e os de Honduras e El Salvador para a Guatemala. O Governo mexicano, no entanto, não parece interessado.

“Continuamos a analisar opções para responder ao aumento do número de migrantes sem documentos que cruzam o México”, escreveu o ministro no Twitter. “A posição dos EUA está focada no reforço de medidas em relação à imigração, a nossa, no desenvolvimento. Não chegámos a um acordo, mas continuamos a negociar”, acrescentou Ebrard.

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