“Em tudo sou designer”: a nova exposição do Mude completa o retrato de Fernando Lemos

Fernando Lemos Designer está a partir desta sexta-feira na Cordoaria Nacional, em Lisboa, para mostrar inéditos e originais da faceta menos conhecida deste criativo nascido em Portugal e naturalizado brasileiro.

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Fernando Lemos Miguel Manso

O chão é amarelo. De pó amarelo onde pés e rodas deixam rasto, um amarelo que não contamina o resto do chão de cimento da Cordoaria Nacional, em Lisboa. Mas o trabalho de Fernando Lemos, que Portugal conhece sobretudo como fotógrafo surrealista e artista plástico, é contaminação, e é contaminação design. “Sempre fui designer para tudo. Em tudo sou designer”, diz ao PÚBLICO com a certeza dos seus 93 anos, reforçada pelo novo olhar sobre a sua carreira que o Museu do Design e da Moda (Mude) agora sugere – ainda ao abrigo da sua programação Fora de Portas, dado que a sede da Rua Augusta continua fechada para obras.

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Fernando Lemos Designer é tapeçaria, azulejos, ilustrações para a imprensa brasileira e capas para a sua editora de livros infantis Giroflé, mais cartazes e as letras inconfundíveis que anunciaram o “Brasil” ao mundo na Feira Comercial de Tóquio em 1963. São 65 anos de carreira em 230 obras, muitas delas inéditas, numa sala luminosa do Torreão Poente coberta pelo tal pó amarelo vivo e onde a certa altura surge um vídeo sobre o artista.

“Para mim, tudo é gráfico. Tudo é desenhado para alguma coisa”, surge ele a dizer no ecrã, poucos centímetros acima do próprio Fernando Lemos que, não querendo ver a exposição antes da inauguração, para não interferir de maneira alguma, se coloca à margem, sentado na sua cadeira de rodas, a falar aos jornalistas. Descreve-se como “teimoso”, também na sua relação com a deficiência, e “falador”. Sabe que o seu nome tende a remeter para a fotografia ou para a pintura, mas uma visão completa do seu trabalho, insiste, tem de incluir também o design. E é a isso que vem esta exposição: “Para levantar esta bandeira dos meus anos de designer”, explica, comentando esta operação nascida de uma visita da directora do Mude, Bárbara Coutinho, à sua casa no Rio de Janeiro, onde moravam caixotes com tantos originais e inéditos que todos surpreenderam.

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Fernando Lemos nasceu em Lisboa em 1926 e naturalizou-se brasileiro depois de ter decidido, em 1952,​ escapar à tristeza da vida na ditadura. Estudou Arquitectura e Design e deu os seus primeiros passos artísticos no muralismo, mas quando aí chegou levava já consigo as incursões na fotografia e no retrato que encetara em Portugal na década de 1940, fortemente influenciado pelo movimento surrealista – cuja primeira exposição, no Chiado, foi fechada pela PIDE –, e a experiência do contacto com o círculo vanguardista de intelectuais como Jorge de Sena, Vieira da Silva ou Sophia de Mello Breyner.

A sua fotografia, defende-se agora no catálogo de Fernando Lemos Designer, já denunciava um olhar gráfico nos arranjos dos diagramas, por exemplo. Mas a sua projecção como pintor, poeta, fotógrafo, ilustrador camuflou o designer. “As pessoas perderam de vista a minha qualidade gráfica”, diz, enaltecendo a exposição que agora mostra esse seu “arquipélago”. “Eu sou a soma de actividades que têm vários nomes”, afirma aos jornalistas: “Criei essas partes de trabalho como testemunhos, exactamente como Fernando Pessoa fez com os heterónimos. São os meus heterónimos.”

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O gesto e a escrita

Logo no início de uma visita guiada às vitrines e aos painéis da exposição, dispostos num espaço desenhado por Nuno Gusmão, o comissário de Fernando Lemos Designer, Chico Homem de Melo, lembra: “A profissão quotidiana dele sempre foi de designer.” Era o seu ganha-pão: fazendo capas de revistas como a Long Playing e divulgando nelas, e em livros, cartazes ou brochuras, o design modernista no Brasil. Foi designer público, vinculado a várias entidades estatais brasileiras, para as quais criou identidades visuais ou até o Plano Urbanístico Básico de São Paulo, mas também designer experimental, como autor de estamparia vibrante ou de livros para a Giroflé. O metropolitano de São Paulo tem um doce mural de azulejos de Fernando Lemos na Estação Brigadeiro, a sua maior obra pública.

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Bárbara Coutinho contextualiza que “a forma como o Fernando Lemos vê o design – o design como ideia, o design como concretização dessa ideia” – foi um grande motivo para fazer esta primeira mostra dedicada à sua actividade enquanto designer e artista gráfico. “Tudo é gráfico porque tudo tem um sentido de se tornar visível, é gráfico porque é uma coisa de imprimir, de jogar num lugar do jeito que foi feito. É uma caligrafia, é uma letra, é um gesto”, define o próprio ao PÚBLICO, desenvolvendo o mote dado a ouvir no vídeo. É isso que verte na sua actividade como designer, cheia de geometria e de aritmética? “É o gesto, a importância de um gesto. Que tem a ver com a escrita.” Mas que é também prolongamento do corpo, da ideia, o que o leva a insistir: “Em tudo sou designer. Porque o design não se trata de um desenho, mas sim da projecção, da construção de um desejo, de um ideal, de um projecto. O design é o objecto”, vai exemplificando, com um ligeiríssimo sotaque e gerúndios cirúrgicos que dão música brasileira ao seu português.

A revisitação da obra pluriforme de Fernando Lemos completa-se por estes dias com mais duas exposições em Lisboa, Máscaras do Tempo – Azulejo e desenho, na Galeria Ratton, até 6 de Setembro, e Mais a Mais ou Menos – Fotografia, pintura e desenho, na Galeria 111, até 14 de Setembro. Entretanto, a Imprensa Nacional Casa da Moeda, que também edita o catálogo de Fernando Lemos Designer, lançou na quarta-feira a monografia que dedica ao artista e que compõe o quarto volume da sua colecção Ph., com texto de Filomena Serra. E a 6 de Outubro, dia de encerramento da exposição, terá estreia na Cordoaria o documentário de Miguel Gonçalves Mendes sobre o artista. Fernando Lemos continua a desenhar diariamente. E a conjugar passado, presente e futuro, enquanto as câmaras o filmam para o documentário: “Se fosse cineasta, já tinha até pensado fazer um filme sobre a saudade. Do que fica, do que ficou. E, mais ainda, a saudade daquilo que vou ter de fazer, que a gente chama a saudade do futuro. É o que ainda não foi feito.”

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