Agustina e Oliveira: encontros e desencontros de dois criadores

Ela escrevia, ele filmava. Foi uma parceria criativa que durou mais de duas décadas e que resultou em quase uma dezena de filmes — com alguns “confortáveis conflitos” pelo meio.

Agustina com Oliveira na casa da escritora, em 1996
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Agustina com Oliveira na casa da escritora, em 1996 Alfredo Cunha

“Agustina gosta de não gostar dos meus filmes. Mas eu gosto que ela não goste.” A afirmação de Manoel de Oliveira (1908-2015) na apresentação de O Espelho Mágico no Festival de Veneza, em 2005, sintetiza bem aquilo que foi a parceria, ao mesmo tempo criativa e conflituosa, entre o realizador e a escritora ao longo de duas décadas e meia e de nove filmes.

Foram inúmeros os desencontros e os remoques cruzados entre ambos, desde que em 1981 Oliveira adaptou Fanny Owen para dele fazer Francisca. Um início em estado de graça, já que o filme, sobre a história verídica do amor frustrado entre Fanny Owen e José Augusto, primo de Camilo Castelo Branco, permanece ainda uma obra maior na filmografia do realizador.

Vale Abraão (1993) foi outro momento feliz na parceria Agustina-Oliveira, recriando uma Madame Bovary portuguesa e duriense. A escritora começou por manifestar algumas reservas à adaptação do realizador — e tinha sido ele a sugerir o tema a Agustina no decorrer de uma viagem a Bordéus —​, mas acabaria por considerá-lo “um grande filme”. “Ele soube ir muito bem ao livro buscar os momentos que eu própria não privilegiei, e soube tratá-los plasticamente”, disse Agustina, admitindo mesmo que a boa recepção internacional do filme viria a alargar o seu reconhecimento além-fronteiras como escritora.

O momento mais agudo da “guerrilha” criativa entre ambos viria a seguir, com O Convento (1995). Oliveira realizou-o com um argumento escrito por si próprio, antes mesmo de Agustina ter terminado o romance que deveria dar origem ao filme — uma variação sobre o Fausto de Goethe cruzada com a tese de que Shakespeare teria sido um judeu de origem espanhola. Chegaram mesmo a zangar-se, como prova uma troca de cartas (fac-similadas na Fotobiografia do realizador). “Fiz um romance de cuja intriga tirou os efeitos necessários a servir o cinema (...). Ao ler a sua découpage não vejo nem sequer uma vaga parecença com a minha história, filosofia e moral poética dessa mesma história (...). Em suma, não nos entendemos e sobretudo não quero o meu nome no seu filme nem que nenhum contrato subsista a tal respeito”, escreveu Agustina. Oliveira respondeu: “Em tudo me inspirei na riqueza de uma ideia que é sua. Tenho aproveitado muito do seu talento, muitíssimo. Mas não do seu nome.”

O diferendo foi sanado no filme seguinte, Party (1996), para o qual Agustina escreveu directamente os diálogos com a sua visão do mito de Don Juan. E gostou do resultado. “Em Party há, pela primeira vez nos filmes de Oliveira, um acordo entre personagens, pensamento e lugar”, considerou então.

Depois houve Inquietude (1998) —​ Agustina é autora de um dos três sketches que compõem o filme —​​, Porto da Minha Infância e os dois filmes que o realizador adaptou da trilogia O Princípio da Incerteza. O primeiro tem mesmo este título (é a adaptação de A Jóia de Família), o segundo é o já referido O Espelho Mágico (A Alma dos Ricos). Estes filmes reforçam, por outro lado, um certo vínculo “familiar” na relação de ambos, já que entre os protagonistas estão Ricardo Trepa e Leonor Baldaque, respectivamente netos de Oliveira e de Agustina.

Enfim, uma parceria temperada por desencontros — Oliveira chamava-lhe “confortáveis conflitos” — motivados pelo natural choque de duas personalidades criativas muito vincadas. E algumas vezes pelas circunstâncias mediáticas, que ambos cultivavam.