Entrevista

“Há que usar estas palavras: emergência ambiental”

Foi muito infeliz que o Parlamento português se tivesse recusado a decretar a emergência ambiental, afirma o prémio Pessoa 2018.

Especialista dos efeitos das alterações climáticas na biodiversidade, prémio Pessoa 2018, Miguel Bastos Araújo é o convidado desta semana do “Hora da Verdade”, uma parceria PÚBLICO/Renascença, que pode ouvir na rádio esta quinta-feira, às 13h. Para o cientista, a emergência climática só se combate com uma superestrutura e dá o exemplo da União Europeia. A ONU, diz, está obsoleta, apesar de António Guterres. E está em causa a sobrevivência da humanidade.

Disse que não vamos a tempo de evitar uma crise climática e biológica no planeta e que temos uma escolha entre impactos graves e menos graves. Mas apesar disto diz-se um optimista...
O que eu quero dizer é que a atitude pessimista não é muito produtiva. É como se alguém nos atirasse no meio de um grande lago e tivéssemos que nadar até à margem, e a margem fosse muito longe e o nosso estado de preparação física não fosse suficiente. O que fazemos? Afundamo-nos ali? Ou apesar de tudo tentamos nadar? Uma atitude pessimista no meio do lago não ajudaria de todo a resolver a situação.

A probabilidade de acerto seria maior tendo uma atitude optimista e pró-activa. É isto que eu quero dizer. E a verdade é que nós somos uma espécie inteligente, temos capacidade de engenho, somos animais de sobrevivência e o meu optimismo também reside nessa capacidade que temos - mas não temos estado a aplicar com todo o empenho que deveríamos estar. É possível que em algum momento o façamos. Não vamos a tempo de voltar ao mundo do século XX em termos ambientais.

O que são os efeitos graves e os menos graves? 
Se olharmos para as tendências demográficas a nível mundial, temos um crescimento exponencial no século XX. Estamos agora a chegar aos oito mil milhões de habitantes no planeta e os cenários futuros são muito incertos. Não sabemos de todo o que é que vai acontecer. Mas a continuar com os padrões actuais chegaremos ao final do século com cerca de 14 mil milhões.

Temos outro facto indiscutível: o consumo per capita de recursos naturais e de energia também tem aumentado. Cada humano consome mais do que consumia antigamente, em média. Temos mais pessoas e mais pessoas a consumir mais. O resultado destas duas variáveis é desastroso para o planeta que tem recursos finitos. 

Mas um dos mantras da Europa é o “temos de ter mais filhos”. Mas, pelo que diz, não precisamos de multiplicar a população na Terra? 
Uma população envelhecida na União Europeia é avessa à inovação...

Mas a Europa não devia “importar” pessoas? 
Em termos humanos, não há nenhuma razão objectiva que seja avessa a que essas correcções se possam fazer, importando pessoas de sítios onde haja excesso de população. Ora, isso gera é depois problemas sociais e políticos porque nós somos uma espécie gregária, tribal e temos alguma dificuldade em integrar o que é diferente, especialmente quando temos um nível de vida médio-alto e vemos este influxo de populações como ameaçadoras desse nível de vida.

É uma percepção baseada em factos errados. Veja-se o Brexit que resulta da percepção de que havia um excesso de fluxos migratórios... Uma coisa é a percepção das pessoas lá em casa, outra a realidade económica dos países e nem sempre elas casam. Há um esforço de educação que é necessário fazer. As pessoas têm de viajar mais, conhecer mais outras culturas... A globalização económica só faz sentido havendo também uma globalização cultural. 

Mas o problema é o consumo? 
Podemos abordar a questão da sustentabilidade com estas duas variáveis. Por um lado, temos um aumento de consumidores, por outro temos um padrão de consumo que tem aumentado per capita. É bom termos uma percepção parcimoniosa de quais são os grandes mecanismos de alteração global porque é sobre esse que temos de actuar.

E quais são? 
Temos de pensar a questão da demografia sem dogmas e com pragmatismo. Este é o grande elefante na sala. Em todos os debates sobre ambiente obviamos a questão demográfica. Se vamos dobrar a população mundial até final do século, temos um problema muito sério. Ou as pessoas passam a ser pobres, muito pobres, e deixam de consumir aquilo que a classe média consome ou se querem consumir o que a classe média consome, não temos planeta que chegue. 

Não estamos a abordar a questão demográfica, porque é difícil, é política, é social, porque mexe com muitas outras variáveis e não sabemos como geri-la. Os chineses tiveram aquela política do filho único, mas na Europa com a nossa cultura seria um desastre. Não há qualquer governo que tenha coragem de implementar uma política dessas. 

Mas na China também estava a causar desastres... 
Exacto. Mas se calhar às vezes é preciso fazer um mal para ter um resultado positivo. Mas é verdade que criou problemas muito graves na China. Existe uma esperança, que tem a ver com os cânones da demografia, que são as chamadas transições demográficas. Quando existe um crescimento económico nas populações e a emergência de uma classe média, a tendência é as pessoas começarem a ter menos filhos. Foi o que se verificou na Europa, nos Estados Unidos. 

E que pode vir a acontecer na Ásia... 
Sim. Uma das razões por que este tema não é abordado é porque há essa esperança. 

Então na Europa estamos a discutir tudo ao contrário. Todos os partidos têm projectos para fazer com que as pessoas tenham mais filhos. 
Pois, se calhar não precisamos de ter mais filhos. Precisamos de repensar a economia que temos, ver se ela é sustentável com menos pessoas, com uma estrutura mais envelhecida. Isto resolve-se com uma política de abertura de fronteiras - seria um grande erro fazer uma abertura de fronteiras cega, porque nós somos Homo sapiens, somos emocionais e reagimos de uma maneira nem sempre objectiva perante as pressões externas e perante as mudanças. Isto tem de ser feito de uma maneira gradual, inteligente e participada. As pessoas têm de entender o que se faz e porque é que se faz. 

Foi o primeiro prémio Pessoa na área do ambiente... 
Esperemos que não o último...

Nesta campanha, vários partidos colocaram as alterações climáticas nos seus programas. Acha que está a haver mais consciência dos problemas? 
Acho muito bem que os partidos coloquem não só a questão das alterações climáticas mas a problemática ambiental nos seus programas. A problemática ambiental não é para dividir, não deve servir de arma de arremesso na pequena táctica política. Deve haver um consenso muito grande em torno dessas questões. Em última análise está em causa a sobrevivência da humanidade. Não gosto de ser alarmista, mas em última análise é o que está em causa. Não é uma questão de esquerda/direita, facção A, facção B. Devia haver aqui um consenso muito grande.

Evidentemente, diferentes orientações políticas podem propor diferentes soluções, mas isso faz parte do jogo democrático. É normal haver propostas mais liberais, mais social-democratas. Isso é óptimo. O que não é óptimo é haver pessoas como o Presidente dos Estados Unidos que querem ideologizar uma questão que é de humanidade, uma questão de civilização. Quando Trump vem dizer que os cientistas são de extrema-esquerda, tenta criar uma polarização falsa que apenas serve o propósito de justificar políticas que não são para o benefício comum, como a extracção de petróleo no Alasca e no caso do Brasil a destruição da floresta amazónica. 

Podemos dizer que o Acordo de Paris falhou? 
Não. O Acordo de Paris está vivo. Obviamente quem se preocupa com estas questões gostaria que se fosse mais longe e mais depressa. Mas também é verdade que estamos a lidar com sensibilidades, com um mundo complexo. O Acordo de Paris foi um passo fundamental mas não é o fim da linha. Costumo fazer esta analogia: isto é um comboio em viagem que começou em Quioto, depois teve uma paragem em Paris e que continua o seu caminho, embora haja de vez em quando uns troncos pelo caminho que se têm de tirar, como é o caso de Trump e Bolsonaro. Mas o comboio não vai parar por causa disso. E apesar de tudo o que Trump diz e faz, algumas das políticas mais arrojadas do ponto de vista da adaptação climática que se fazem são nos Estados Unidos. 

Tem-se notado a alteração de comportamentos individuais. Isso chega? 
Não, de modo nenhum. 

Mas o que é que um cidadão pode fazer na sua vida quotidiana para contribuir para a sustentabilidade?
Temos de repensar todos os nossos pequenos actos. Por exemplo, o sabonete líquido com que tomamos banho, toda a gente usa. E tem um dispensador de plástico que vai para o lixo e alguém terá de lidar com isso. Cria-se um problema. Não há nenhuma justificação para que não possamos regressar ao sabonete sólido. Há muitos deles criados com base em matérias renováveis, como o leite de burra, o que implica toda uma economia de criação de burros e os burros são herbívoros, comem a biomassa. Reduzir a biomassa implica a redução de riscos de incêndio. Há toda uma economia associada a esse processo que é virtuosa e que ajudaria a reduzir a pegada ecológica. Mas não chega.

A máxima dos nossos tempos já não é “pensar globalmente, agir localmente”. Temos de pensar globalmente e agir globalmente, que é a solução para a emergência ambiental que temos. Há que usar estas palavras: “emergência ambiental”. Foi muito infeliz que o Parlamento português não tivesse aceitado votar o reconhecimento da emergência ambiental. Precisávamos de deputados que estivessem à altura do momento histórico que vivemos.

Estamos num momento em que precisamos de coordenação de políticas globais. E vamos encalhar naquilo que será a questão mais difícil que temos pela frente. Ainda temos uma ordem mundial determinada pela segunda guerra mundial, uma ONU obsoleta para fazer face a este tipo de problemas, por muito boa vontade que o secretário-geral das Nações Unidas António Guterres tenha. E acredito que tenha, é uma pessoa brilhante e moralmente superior. Tem as pernas cortadas, não pode fazer muito porque a estrutura da ONU não o permite. O que precisamos é de uma ONU mais forte. O modelo da União Europeia é muito interessante porque ensina o que poderá ser no futuro o modelo global. 

Se reconhecermos o papel da ciência nos diagnósticos que estão a ser feitos e os levarmos a sério, a conclusão inevitável é que é necessária mais globalização política. 

Perder soberania?
Sim. E isso colide com pessoas que são contra esse processo. O tribalismo do Homo sapiens que vem do tempo dos cro-magnons ainda existem em nós. Somos cro-magnons que vivem num mundo diferente dos que viviam nas grutas. Mas geneticamente continuamos a ser parecidos com os cro-magnons. Esta atitude de Trump é claramente uma atitude cro-magnon. Isto não é uma crítica. Eu também sou um cro-magnon. Somos todos cro-magnons. 

Como vê os movimentos que estão a ser dinamizados por jovens, as greves climáticas...
Acho muito bem. Eles são os representantes da próxima geração e serão os mais prejudicados por tudo o que nós façamos mal. Acho muito bem que elevem a sua voz e que zelem pelos seus interesses. No caso da geração da Greta Thunberg, está em causa ter o mesmo bem-estar que a nossa geração teve.

Na geração a seguir, o que se prevê em Portugal é um aumento de temperaturas médio a elevado, mas sobretudo a probabilidade de ocorrência de eventos extremos, ondas de calor que serão mais frequentes e durarão mais tempo. E uma onda de calor que seja mais frequente e intensa pode ter consequências extremamente graves na saúde pública e na própria habitabilidade de algumas regiões do país. 

Nos incêndios de 2017 já vivemos essa situação...
Mas se houver um aumento de ondas de calor na região centro do país que seja consistente com o que está previsto, o problema dos incêndios resolve-se porque as árvores desaparecem. Deixam de crescer. Há uma alteração da fisionomia da paisagem.

Ficaremos mais parecidos com o Norte de África? 
A região centro ficará mais parecida com o Alentejo e o Alentejo ficará mais parecido com o Norte de África. O Alentejo tem incêndios, mas não muitos. E aí as ondas de calor serão muito grandes, com grandes impactos na saúde pública. Estive em França em 2003, quando houve uma onda de calor muito forte e morreram milhares de pessoas.

Lembro-me de chegar ao meu gabinete de trabalho e estar lá um estudante desmaiado. Havia filas enormes de pessoas no hospital com ataques de calor. A França não tinha capacidade para lidar com aquela situação. Isso vai requerer da nossa parte planos de contingência e de adaptação, mas em certos casos pode ser que estejamos a ir para além do limite de tolerância fisiológica.