Buenos Aires, história de uma insurreição

Companhia de Coimbra O Teatrão leva ao palco Ala de Criados, do dramaturgo argentino Mauricio Kartun. A nova encenação de Marco Antonio Rodrigues pode ser vista até 9 de Junho.

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CARLOS GOMES

Em Janeiro de 1919, Buenos Aires interrompe por instantes um certo ciclo económico que alimentava as classes altas à custa do operariado que carregava às costas prolongadas horas e duras condições de trabalho a troco de magros salários. Reunidas as condições para protestos e greves, estes seriam violentamente reprimidos, naquela que é lembrada como a “Semana Trágica”. 

Os números da matança de trabalhadores, que envolveu grupos paramilitares, variam conforme a fonte, entre 300 e 700 mortos. Os ecos da Revolução Russa de 1917 pesaram na dimensão do massacre, assim como na perseguição de estrangeiros, judeus e esquerdistas. Daí que esses acontecimentos de há 100 anos marquem também o primeiro pogrom da América Latina. 

É com este pano de fundo de insurreição portenha que três primos se reúnem num clube de campo em Mar del Plata, refúgio da aristocracia argentina, longe do centro de Buenos Aires. Foram lá colocados por Mauricio Kartun, o dramaturgo argentino que escreveu Ala de Criados, ponto de partida da peça encenada por Marco Antonio Rodrigues que a companhia O Teatrão leva ao palco da Oficina Municipal do Teatro, em Coimbra, até 9 de Junho. 

Os três primos que foram parar ao Pigeon Club, refere o encenador, “são um pouco a escória do mundo aristocrático e vão para lá enquanto na capital se estão a desenvolver essa greve e essa repressão: uma mulher, um homossexual e um sujeito meio burro”.

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Estão num tédio profundo, sem ter o que fazer. Eis que então surge Pedro, “esse sujeito que é um faz-tudo, que representa essa classe média empreendedora, negociante”. Num tempo de convulsões que é também um tempo de mudança, Pedro representa a ascensão social “e a luta contra a aristocracia”. Na verdade, menciona Marco Antonio Rodrigues, Ala de Criados “é sobre luta de classes”, e o que se vê em palco é um espelho dos combates operários na Buenos Aires do início do século XX. 

“Kartun tem sempre uma pegada muito popular”, explica o encenador, para descrever o tom de tragicomédia que afina as cenas de Ala de Criados. Mas os fatos de linho, os chapéus de veraneio e as bebidas espirituosas não aligeiram um bordado de situações que se vai tornando complexo. Ala de Criados “fala também de colonização”, de como Buenos Aires foi um dos centros desse processo para os espanhóis, de como a herança negra foi apagada na Argentina, por conta da integração em combate como carne para canhão. 

Para lá de todas as interpretações que o texto de Kartun possa ter, a Marco António Rodrigues interessa falar da América Latina e das suas encruzilhadas, da “potência de transgressão” de um continente “que está sempre começando alguma coisa que nunca dá certo”. 

A peça que teve a sua estreia a 17 de Maio no Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, no Porto​, e que esta quarta-feira inicia a sua temporada em Coimbra, é o segundo volume da Casa Revolta, um projecto d'O Teatrão que explora a relação com o poder; no primeiro capítulo deste ciclo, o mesmo Marco Antonio Rodrigues encenou Richard's, a partir do Ricardo III de William Shakespeare.