Comédia, melodia e juventude, 125 anos depois

O espectáculo concebido para os 125 anos do São Luiz nasceu da feliz ideia de chamar jovens intérpretes de todo o país para tocar e redescobrir o teatro musical de Offenbach. O resultado é uma opereta engraçada e bem conseguida.

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ESTELLE VALLENTE
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O São Luiz começou por chamar-se Theatro D. Amélia, há 125 anos. Abriu no dia 22 de Maio de 1894, com a estreia de A Filha do Tambor-Mor, uma das últimas operetas de Jacques Offenbach. Por isso o São Luiz decidiu agora fazer uma produção nova desta ópera cómica em três actos e quatro quadros, com libreto de Alfred Duru e Henri Chivot. Uma obra de um homem que fez dezenas de operetas, e que mostra um espantoso savoir-faire teatral. Mas é a música que põe A Filha do Tambor-Mor em andamento, num ritmo vivo e rápido, sem perdas de tempo.

Esta produção mostra muito bem como o cómico em A Filha do Tambor-Mor é accionado pela música. A encenação de António Pires encontrou o ritmo e a agilidade que a música vai lançando. E vice-versa – a música descobriu-se fazendo teatro e empolgando a cena, na boa direcção de Cesário Costa, à frente da jovem Orquestra Clássica Metropolitana.

E contudo, apesar da importância do jogo orquestral e da sua dinâmica, o essencial passa pelas vozes, que vão lançando canções e coros como jogos, com refrães gozões para decorar e repetir. Chovem melodias a potes, e catchy mais catchy não há. A Filha do Tambor-Mor é um divertimento de e para uma burguesia que ainda tentava desesperadamente resgatar a simplicidade popular, de certa forma “ser ainda povo” (e unir-se a ele com um discurso nacionalista francês). Isto apesar de em 1879, data da criação desta opereta, as coisas em França já não serem como dantes –​ antes da guerra e antes da Comuna de Paris de 1871, quando uma parte da França ainda dançava despreocupadamente o can-can de Offenbach, achando que vivia no melhor dos mundos e que o povo era sereno.

Mas voltemos às vozes: um elenco muito bom e equilibrado, com média de idades muito jovem, pegou no divertimento de Offenbach com gozo e energia, colocando em palco uma vivacidade teatral e vocal capaz de revelar o melhor da ligeireza de Offenbach. Por vezes a música goza mesmo com ela própria, quando se anuncia ou vem salvar a cena (“Por prudência façamos de conta que dançamos uma tarantela”, diz uma personagem que quer proteger a clandestinidade de uma conversa). Talvez a leveza de Offenbach possa ainda, quem sabe (os tempos são bem outros), inspirar uma nova comédia musical feita de fragmentos colados, canções satíricas com gozos à compostura e ao conservadorismo, à Igreja e à nobreza (ou à burguesia armando-se), e fazer dos clichés uma arma, como mais tarde voltou a fazer, por exemplo, um Kurt Weill.

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Estelle Valente

Regressemos ainda às vozes – porque é preciso não deixar de nomear pelo menos duas das mais jovens solistas do elenco: Ana Filipa Leitão, que foi Stella, e Beatriz Maia, na pele de Claudine, dois papéis de soprano para duas agradáveis surpresas deste espectáculo. Na acção, no gesto e no canto, as cantoras mostraram uma capacidade vocal, um empenho, uma graça e uma leveza que calham na perfeição a esta ópera cómica. Há hoje em Portugal muito mais cantores e cantoras com capacidades assim, sabemos. Mas que bom sinal, este.

Um Offenbach refrescante, enfim, com um coro “participativo” (com cantores não-profissionais) e muitas dezenas de pessoas em palco, o que nem sempre é fácil e aqui é sempre bem conseguido. Com marionetas e elementos cenográficos de A Tarumba, que se entrelaçam com a dança e o movimento de conjunto (concebido por Aldara Bizarro) para dar um contributo importante à encenação inteligente, despretensiosa e verdadeiramente engraçada de António Pires. Um espectáculo com cinco récitas e entrada livre, ainda p'ra mais – coisa rara. Ah! Ia-me esquecendo: parabéns.

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