A Senhora do Monte quer recuperar a sabedoria do Portugal tradicional

Cláudia Costa e Tiago Lucena têm a receita para um estilo de vida mais autossuficiente e sustentável. Aliás, o casal tem até 70 receitas.

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Tiago Lucena e Cláudia Costa DR

Fazer um perfume com água ardente? E um champô seco com amido de milho? No livro A Senhora do Monte, da autoria do casal Cláudia Costa e Tiago Lucena, é possível encontrar mais de 70 receitas caseiras de produtos de higiene pessoal e limpeza da casa. Este projecto assenta num princípio ecológico, de sustentabilidade, mas também de auto-suficiência, com benefícios para a saúde e para a carteira.

Tudo começou em 2010 quando Cláudia e Tiago abandonaram a vida agitada da cidade e se instalaram no campo com ideias de agricultura biológica, ligadas à permacultura (a observação da ecologia de maneira sustentável) e escolas mais alternativas de agro-ecologia. Estavam determinados a absorver todos os conhecimentos do meio rural: desde a agricultura tradicional, sem máquinas, às mezinhas caseiras.

“Começámos a tirar notas de soluções que queríamos para não estarmos tão expostos a produtos químicos”, explicam os autores ao PÚBLICO. “Na altura, começámos a fazer isto num caderno, depois passámos para umas notas no Word [no computador] e, às tantas, criámos o blogue”, continuam. O blogue A Senhora do Monte nasceu em 2012 e é um arquivo do saber antigo, tradicional e artesão das gerações mais velhas de um Portugal, por vezes, esquecido, acrescentam. Parte dos conteúdos do blogue foram passados para o papel. 

Foi a vivência no campo que forneceu a matéria para que Cláudia e Tiago escrevessem o livro – “Os nossos amigos no campo era tudo malta nova de 85 para cima”, brincam. Apesar das muitas amizades que fizeram, A Senhora do Monte pretende homenagear duas senhoras em particular – D. Nália e D. Conceição –​ a quem os autores devem, não só grande parte das receitas incluídas no livro, como também a inspiração para o nome do projecto.

O casal conheceu a D. Nália no Cartaxo, Santarém, e esta tornou-se a sua primeira vizinha. Viúva, de 85 anos, foi o primeiro contacto dos jovens com a cultura de auto-subsistência e fo quem lhes ensinou as primeiras tarefas: “as lides da horta, tratar de animais, um chazinho ou outro”, contam. “A segunda foi a D. Conceição, na Lousã, com quem vivemos lado a lado. Foi uma outra ‘avó’ que adoptámos e era o mesmo registo, mas num ambiente mais serrano e muito mais isolado”, prosseguem.

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O objectivo do projecto é incentivar as pessoas a uma mudança de hábitos, com vista a um “mundo menos industrial e mais sustentável e a resolver os problemas de uma forma mais simples e ecológica”. Para os autores, esta transição não tem de ser feita de uma forma drástica, até porque não conseguem produzir tudo de forma caseira (apesar do cuidado em comprar produtos amigos do ambiente), mas “se dez milhões de pessoas adoptassem uma receita que fosse deste livro, já tinha um impacto ecológico brutal”, acreditam. 

Além das preocupações ambientais, fazer a maquilhagem, os sabonetes e os perfumes em casa pode trazer grandes vantagens para os bolsos dos portugueses. “Aqui [no livro] não há nada que seja mais caro que o produto convencional de supermercado, nem o biológico ou ecológico, também disponível, e que normalmente até são um pouco mais caros”, garantem os autores. Esta também não tem de ser uma tarefa complicada, já que Cláudia e Tiago tentaram “seleccionar coisas que são fáceis de encontrar em qualquer casa ou supermercado português”. 

O facto de os produtos não conterem químicos é também benéfico para a saúde. Limpar a casa de forma natural, por exemplo, é de extrema importância para os autores de A Senhora do Monte: "A água de vinagre, que já se vende nos supermercados, é uma limpeza simples de cozinha e de casa para quem tem animais domésticos. Temos essa preocupação. Não queremos limpar o chão com produtos químicos porque não sabemos como é que isso pode afectar os animais”, explicam. A mesma ideia pode ser aplicada por quem tem crianças pequenas ou para a saúde de qualquer pessoa. 

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