Milionário americano paga empréstimos de centenas de alunos universitários

Robert F. Smith vai gastar 40 milhões de dólares para eliminar as dívidas aos bancos de 400 alunos, um problema que penaliza ainda mais a comunidade afro-americana.

Smith fez fortuna a investir na criação de empresas tecnológicas
Foto
Smith fez fortuna a investir na criação de empresas tecnológicas DR

Os finalistas de 2019 da prestigiada universidade norte-americana de Morehouse, fundada há mais de 100 anos para permitir o acesso dos jovens afro-americanos a uma educação superior, foram surpreendidos com o anúncio de que todos os seus empréstimos bancários vão ser pagos até ao último cêntimo. A boa notícia foi dada pelo multimilionário Robert F. Smith, convidado para discursar na cerimónia de final de curso, no domingo.

“Em nome das oito gerações da minha família neste país, vamos pôr um pouco de combustível no vosso autocarro”, começou por dizer Smith, depois de recordar a viagem que fez com a mãe à capital dos EUA, em 1963, para ouvir o mais famoso discurso de Martin Luther King Jr. – também ele um antigo aluno da Universidade de Morehouse.

Décadas mais tarde, em 2008, e já com uma fortuna avaliada em cinco mil milhões de dólares (4,8 mil milhões de euros) resultante de investimentos na criação de empresas tecnológicas, Robert F. Smith regressou à capital norte-americana, com o seu avô, para assistir a uma outra cerimónia histórica: a tomada de posse do primeiro Presidente negro dos EUA, Barack Obama. E foi essa profunda mudança que motivou Smith a ajudar os finalistas da Universidade de Morehouse, num gesto que deixou muitos deles sem palavras e em lágrimas.

“A minha família vai criar uma bolsa para eliminar os vossos empréstimos”, anunciou Smith. Ao todo, segundo o site da revista Time, o multimilionário vai gastar 40 milhões de dólares (36 milhões de euros).

Segundo os números oficiais, as dívidas dos alunos universitários às instituições de crédito, para pagarem os seus cursos, totalizam 1,5 biliões de dólares (1,3 biliões de euros). Em 2017, por exemplo, quase dois terços de todos os finalistas nos EUA tinham empréstimos bancários, e cerca de nove milhões deles tinham falhado os pagamentos. Segundo um estudo da Brookings Institution, quase 40% dos alunos podem falhar os pagamentos até 2023.

Quando terminam os cursos, esses alunos têm, em média, uma dívida de 30 mil dólares (27 mil euros), mas não é raro que essa dívida chegue aos 100 mil dólares (90 mil euros). Um valor que é, em média, ainda mais elevado e penalizador entre a população afro-americana, segundo um relatório do grupo The Century Foundation, publicado em Setembro de 2018.

Quem acaba o curso inicia uma carreira no mercado de trabalho com uma dívida de dezenas de milhares de dólares para abater, o que impede outro tipo de opções como a compra de casa ou carro; e quem não consegue acabar o curso arranja empregos menos qualificados, com salários mais baixos, o que dificulta ainda mais o pagamento dos empréstimos.

O problema da dívida ficou ainda mais descontrolado a partir da crise financeira de 2008, que levou os estabelecimentos de ensino superior a aumentar as propinas e outros custos associados, ao mesmo tempo que as participações do Estado nos orçamentos das universidades têm descido ao longo das últimas décadas.

Só nos últimos cinco anos, o valor total dos empréstimos subiu 400 mil milhões de dólares (358 mil milhões de euros).

Em Agosto do ano passado, o provedor dos Alunos com Dívidas aos Bancos, Seth Frotman, demitiu-se do seu cargo no Departamento do Tesouro norte-americano e criou um organismo de supervisão independente. Ao sair, Frotman acusou o seu superior, nomeado pelo Presidente Donald Trump, de “servir os interesses das empresas financeiras mais poderosas na América”.

"Giving Pledge"

Apesar de ter uma enorme fortuna, o presidente da empresa Vista Equity Partners é um dos multimilionários norte-americanos mais discretos no mundo da tecnologia. Mas o pagamento dos empréstimos bancários dos finalistas da Universidade Morehouse não é o seu primeiro gesto filantrópico.

Em 2016, doou 20 milhões de dólares (18 milhões de euros) ao Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana, em Washington D.C; e 50 milhões de dólares (45 milhões de euros) à Universidade Cornell, onde estudou Engenharia Química.

Mas a sua decisão mais importante aconteceu em 2017, quando assinou o compromisso “Giving Pledge", que envolve um grupo de quase 200 multimilionários, incluindo Bill e Melinda Gates, Michael Bloomberg, Elon Musk ou Mark Zuckerberg e Prisicilla Chan. Ao assinarem o “Giving Pledge”, os milionários comprometem-se a gastar a maioria parte das suas fortunas em causas filantrópicas.