Alimentação artificial retirada a Vincent Lambert, o francês símbolo da morte digna

Caso do francês de 42 anos tetraplégico e em estado vegetativo tem marcado o debate sobre a eutanásia em França. Pais lutaram contra a decisão, mas já esgotaram as possibilidades de recurso.

Rachel Lambert, mulher de Vincent
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Rachel Lambert, mulher de Vincent Reuters/Vincent Kessler
Viviane Lambert, mãe de Vincent
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Viviane Lambert, mãe de Vincent DR

Os médicos de um hospital francês desligaram esta segunda-feira o sistema que tem alimentado nos últimos anos Vicent Lambert, um antigo enfermeiro de 42 anos que ficou tetraplégico num acidente em 2008 e que se encontra em estado vegetativo desde 2014.

À medida que Lambert vai deixando de receber alimentos e água através de um tubo gástrico, os seus sinais vitais vão desaparecendo e a morte deve ser declarada nas próximas horas ou dias.

Vincent Lambert está no centro de um debate na sociedade francesa sobre a eutanásia, que no país só é legal na sua forma passiva – através da interrupção da alimentação e da hidratação, por exemplo, como no caso de Lambert.

Durante anos, os pais e dois irmãos do francês lutaram nos tribunais para impedirem os médicos de desligarem as máquinas, dizendo que Vincent tem recuperado e que só não sai do estado em que se encontra porque não está a receber os melhores cuidados possíveis.

No Verão do ano passado, publicaram um vídeo no Youtube que mostra o que dizem ser uma reacção de Vincent a um telefonema da mãe – no vídeo vêem-se movimentos como um piscar de olhos.

O médico que diagnosticou Vincent em 2014, Eric Kariger, acusou os pais do paciente de tentarem manipular a opinião pública e disse que o vídeo é “obsceno” – de acordo com o especialista, os movimentos em causa são involuntários e comuns em pacientes em estado vegetativo.

Ouvido na altura pela BBC, um médico especialista em cuidados paliativos, Bernard Devalois, disse que as imagens de Vincent Lambert seriam as mesmas “se lhe tivessem lido a lista telefónica”.

O caso complicou-se nos tribunais porque seis outros irmãos de Vincent e a sua mulher, Rachel, pedem que as máquinas sejam desligadas.

Em 2014, a mais alta instância judicial francesa validou a decisão dos médicos, a favor da mulher e dos seis irmãos de Vincent, mas os pais do francês recorreram para o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos – que acabou por dar a mesma resposta em 2015 e, assim, fechar todas as portas à parte da família que queria manter as máquinas ligadas.

A situação não se alterou desde então por razões de segurança no hospital, quando o pai de Vincent começou a insistir que havia um plano para raptar o filho. Com a entrada em funções de uma nova equipa médica, a decisão foi tomada e o processo foi iniciado esta segunda-feira.

Depois da decisão final do tribunal europeu, os pais ainda apelaram às Nações Unidas e ao Presidente francês, Emmanuel Macron, mas nada mudou. Na carta enviada a Macron, os pais dizem que Vincent “vai morrer sem hidratação na semana de 20 de Maio se nada for feito”, e que “em França, em 2019, ninguém devia morrer de fome e de sede”.