Morreu I.M. Pei, o arquitecto da pirâmide do Louvre

Autor da polémica renovação do museu parisiense, o arquitecto sino-americano galardoado com o Pritzker em 1983 morreu em Nova Iorque, aos 102 anos.

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O arquitecto no topo da National Gallery of Art em Washington, 1978,O arquitecto no topo da National Gallery of Art em Washington, 1978 Ellisworth Davis/THE WASHINGTON POST
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Entrada principal e mais popular do Louvre: a Pirâmide, do arquitecto norte-americano de origem chinesa Ieoh Ming Pei, foi inaugurada em 1989 Charles Platiau/reuters
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A Pirâmide, por onde entram 80% dos visitantes do Louvre CHRISTOPHE PETIT TESSON/reuters
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Biblioteca John Kennedy, concluída em 1979. ADAM HUNGER/REUTERS
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National Gallery of Art, Washington Kevin Lamarque /reuters
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Museu da Arte Islâmica, Doha, Qatar, abriu ao público em 2008 REUTERS
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Interior do Museu da Arte Islâmica, Doha, Qatar Ahmed Jadallah/ REUTERS
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Rock and Roll Hall of Fame, Cleveland Wikicommons
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Banco da China, em Hong Kong Bobby Yip/ REUTERS
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Interior do Banco da China, em Hong Kong Bobby Yip/ REUTERS

O arquitecto norte-americano de origem chinesa Ieoh Ming Pei, mais conhecido por I.M. Pei, morreu esta quarta-feira, aos 102 anos, na sua casa em Manhattan, Nova Iorque. A notícia foi avançada pelo The New York Times, que cita um dos seus filhos, Li Chung Pei, adiantando que o pai celebrara ainda o seu 102.º aniversário em família, no passado dia 26 de Abril.

Distinguido com o Prémio Pritzker em 1983 – na altura, era apenas o quinto laureado com o “Nobel” da Arquitectura – e detentor de praticamente todos os outros galardões mundiais mais relevantes desta disciplina, como a Medalha de Ouro do Instituto Americano dos Arquitectos ou o Prémio Imperial, do Japão –​, I.M. Pei é autor de uma obra extensa e espalhada pelos vários continentes, mas especialmente ancorada nos Estados Unidos, país para onde viajou com apenas 17 anos para estudar, mas onde acabaria por se radicar, adquirindo mesmo a nacionalidade americana em 1954.

PÚBLICO -
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Não deixa, por isso, de ser curioso notar que o New York Times encabeça a notícia da sua morte com uma fotografia do arquitecto ao lado da Pirâmide do Louvre, em Paris. De facto, foi com este projecto que na década de 1980 originou grande controvérsia que a obra de Pei ultrapassou definitivamente as fronteiras do seu trabalho na América.

Encomenda do Presidente François Miterrand, a pirâmide que o arquitecto desenhou em vidro, alumínio e aço para o centro da neoclássica Cour Napoléon mobilizou, desde o início, críticas violentas. Classificaram-na como “uma atrocidade” e um atentado arquitectónico e patrimonial, e houve também quem visse nesta encomenda a expressão do “despotismo” de Miterrand. O jornal Le Figaro cita, a propósito, uma frase que o então ministro da Cultura Jack Lang escreveu no livro que dedicou a essa polémica: “A pirâmide inscreveu-se num monumento central da história de França e num período de grande conflito ideológico” (Les Batailles du Grand Louvre, 2010). Mas tratou-se de uma “batalha” ganha por Miterrand, e por Pei: inaugurada na Primavera de 1989, a pirâmide impôs-se, na sua elegância, racionalidade geométrica e eficácia, como um símbolo da Paris moderna.

“O que Pei conseguiu no Louvre, numa obra com uma raríssima complexidade infra-estrutural e patrimonial, foi transformar o complexo numa entidade articulada, e introduzir-lhe uma nova função comercial, em consonância com a crescente comodificação da cultura”, diz o crítico de arquitectura do PÚBLICO André Tavares, que vê na obra do autor sino-americano “uma síntese improvável de grandes nomes da arquitectura americana que o antecederam, algures entre Louis Kahn e Philip Johnson”.

“Ele foi capaz de incorporar as transformações da prática da arquitectura no pós-guerra, respondendo às exigências técnicas e à demanda por capacidade de resposta das grandes firmas. Projectou com eficiência edifícios de escritórios, torres de habitação, grandes complexos comerciais e, em simultâneo, respondeu aos anseios de representação dos grandes edifícios culturais”, acrescenta André Tavares, citando como exemplo mais conseguido neste último domínio a Ala Este da National Gallery de Washington (1978).

Desta mesma década são também os projectos do Museu e Biblioteca Presidencial JFK, em Boston – que desenhou a convite expresso de Jacqueline Kennedy –, e o Centro de Convenções Jacob Javits, em Nova Iorque.

Sob a influência de Walter Gropius

I.M. Pei nasceu em Cantão, na China, em 1917, filho de um banqueiro proeminente e de uma flautista budista. Perdeu a mãe com apenas nove anos, e em consequência da profissão do pai passou a infância e a adolescência entre Hong-Kong e Xangai.

Na primeira metade da década de 1930 viaja para os Estados Unidos para estudar Arquitectura, primeiro no prestigiado Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde conclui o bacharelato em 1940, e depois na Harvard Graduate School of Design, onde frequenta as aulas de Walter Gropius e de Marcel Breuer, com os quais aprende a lição do modernismo. Conclui a licenciatura em 1946, ficando aí como professor assistente até 1948.

No início da década seguinte, viaja com uma bolsa pela Europa (Inglaterra, França, Itália, Grécia), e chega a colocar a hipótese de regressar ao seu país natal. Mas acaba por se fixar mesmo nos Estados Unidos, onde já casara com Eileen Loo, uma arquitecta paisagista que conhecera no MIT.

No pós-guerra, o encontro com o empresário William Zeckendorf acaba por determinar o lançamento da sua carreira de arquitecto. Desenhará para ele eficientes edifícios de escritórios, torres de habitação, grandes complexos comerciais. Mas Pei não quis ficar apenas associado a esta vertente, e decide fundar o seu próprio escritório em 1955, em sociedade com Henry Cobb e Eason Leonard. Responde, a partir dele, a uma paleta muito diversificada de encomendas: museus, igrejas, centros culturais, salas de concertos… como o Everson Museum of Art, em Syracuse, o Des Moines Art Center, o Rock and Roll Hall of Fame, em Cleveland... E já quando supostamente se reformara, na década de 90, trabalhando para o escritório dos dois filhos arquitectos, Chien e Li Chung, continuou a projectar edifícios pelo mundo fora, como o Museu da História da Alemanha, em Berlim, o Museu de Arte Moderna Grand-Duc Jean (MUDAM), no Luxemburgo, o Museu de Arte Islâmica em Doha, Qatar, ou o Centro de Ciência em Macau.

“Pei foi um arquitecto de sínteses impossíveis, que garantiu, nas circunstâncias mais desfavoráveis, que as suas obras contribuíssem para a consolidação do valor colectivo da cultura ocidental”, nota André Tavares. “Seguindo o legado moderno, fê-lo através da monumentalidade, da abstracção formal, do controlo dos materiais, da luz e das dinâmicas do movimento das pessoas no espaço. A sua grande contribuição foi prolongar esse legado para o tempo complexo da economia de mercado, persuadindo os clientes mais difíceis a valorizar a arquitectura e a qualidade da construção”, acrescenta o professor, curador e crítico.