Morreu Alvin Sargent, argumentista de Gente Vulgar e de Homem Aranha

Multifacetado, distinguiu-se em thrillers, comédias, musicais ou filmes de super-heróis. Oscarizado por Julia e Gente Vulgar, esteve também ligado à transposição de Homem-Aranha para o cinema.

Alvin Sargent ficou ligado, na parte final da sua carreira, a transposição de <i>Homem-Aranha</i> para o cinema
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Alvin Sargent ficou ligado, na parte final da sua carreira, a transposição de Homem-Aranha para o cinema Twitter

A longa carreira mostrou como era tudo menos um especialista de género. Pelo contrário, assinou thrillers, comédias, dramas sociais, musicais, filmes de super-heróis. Por isso mesmo, o produtor Craig Martin apelidou-o sábado de “santo padroeiro dos argumentistas incatalogáveis”.

Alvin Sargent, responsável pelos argumentos da recuperação do Homem-Aranha no século XXI, oscarizado em 1977 pelo argumento de Julia, façanha repetida em 1980 com Gente Vulgar, morreu em Seattle dia 9 de Maio de causas naturais, noticiou sábado a produtora Pam Williams. Tinha 92 anos.

Quando assinou o argumento de Homem-Aranha 2, em 2004, Sargent era já um veterano da indústria cinematográfica americana. A sua carreira começou pela televisão, escrevendo para os programas Naked City ou Route 66. No cinema, surgiu pela primeira vez ainda antes disso, em 1953, representando um pequeno papel no filme de Fred Zinnemann Até à Eternidade, clássico com Burt Reynolds, Deborah Kerr, Montgomery Clift, Frank Sinatra e Donna Reed como protagonistas.

Seria, porém, enquanto argumentista para o grande ecrã que se viria a destacar. Estreou-se nesse papel em 1966, com o thriller Gambit, protagonizado por Michael Caine. Cinco anos depois, tinha a sua primeira nomeação para os Óscares, por Paper Moon, o filme realizado por Peter Bogdanovich com Tatum O’Neal, então como dez anos, como protagonista.

Considerado particularmente hábil na adaptação cinematográfica de obras literárias, ganharia o seu primeiro Óscar com a adaptação de um capítulo de Pentimento, de Lillian Wellman. O filme resultante, cuja acção decorre durante a Segunda Guerra Mundial, foi realizado pelo mesmo Fred Zinnemann que lhe dera um pequeno papel em Até à Eternidade. Julia, em cujo elenco tínhamos Jane Fonda e Vanessa Redgrave, foi também o primeiro filme em que vimos Meryl Streep.

Em 1980, a adaptação de um romance de Judith Guest deu-lhe novo Óscar. Gente Vulgar, estreia na realização de Robert Redford, aponta o microscópio à fachada do bem-estar burguês, com uma tragédia familiar — a morte de um filho — como pano de fundo.

Num longo percurso onde merecem também destaque o Nasce uma Estrela de 1976, com Barbra Streisand e Kris Kristofferson (antecessores de Lady Gaga e Bradley Cooper), ou, nos anos 1990, a comédia O que se Passa com Bob?, com Bill Murray e Richard Dreyfuss, Alvin Sargent deixou uma última marca na indústria cinematográfica já septuagenário, quando se envolve directamente na transição de Homem-Aranha para o grande ecrã — a sua segunda mulher, Laura Ziskin, falecida em 2011, estava por trás da recuperação do super-herói (Sargent fora antes casado com a actriz Joan Camben).

Contribuindo sem creditação na primeira película, de 2002, assinou para Sam Raimi os argumentos de Homem-Aranha 2 (2004) e de Homem-Aranha 3 (2007) e, para Marc Webb, O Fantástico Homem-Aranha 3: O Poder do Electro (2014).

Nascido Alvin Supowitz a 12 de Abril de 1927, em Filadélfia, abandonou a escola secundária durante a Segunda Guerra Mundial para se alistar na Marinha. Aí, a aprendizagem do código Morse e o consequente trabalho a enviar e receber mensagens revelar-se-ia fundamental e permitiu-lhe aprender a dactilografar com especial perícia. O argumentista de tantos géneros, em tantas décadas, costumava dizer, com humor, que dactilografar era o seu “único grande talento”.