Joe Berardo: “Eu pessoalmente não tenho dívidas, claro que não tenho dívidas”

O comendador Joe Berardo recusa falar sobre créditos à porta aberta, porque lhe pode ser prejudicial nos processos em tribunal. Audição não vai ser filmada pelas televisões.

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Joe Berardo esta sexta-feira, na comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos LUSA/ANTÓNIO COTRIM
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Joe Berardo esta sexta-feira, na comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos LUSA/ANTÓNIO COTRIM
,António Costa
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Joe Berardo esta sexta-feira, na comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos LUSA/ANTÓNIO COTRIM

Joe Berardo foi na tarde desta sexta-feira ao Parlamento para prestar declarações sobre os créditos que criaram imparidades de vários milhões na Caixa Geral de Depósitos, mas colocou várias condições para falar com os deputados. O comendador recusou falar à porta aberta sobre os créditos que pediu à Caixa Geral de Depósitos (CGD). Contudo, na sua declaração inicial, lida pelo seu advogado André Luís Gomes, recusou ter participado em qualquer “assalto figurado ao poder no BCP”.

Assim que chegou, ficaram claras as dificuldades que os deputados vão ter nesta audição: Joe Berardo pediu para que as declarações aos deputados não fossem filmadas, exigindo o direito de reserva da imagem. Apenas parte foi concedido: as televisões tiveram de sair, mas a audição continuará a ser gravada e emitida pelo Canal Parlamento. Além disso, foi o seu advogado quem leu uma declaração inicial, uma vez que Berardo é disléxico.

Nessa declaração inicial, Berardo, pela voz do advogado, disse que não falaria dos créditos sem ser à porta fechada, uma vez que decorre em tribunal um processo contra si, movido por vários bancos. “Estou certo que esta comissão não se pretende substituir aos tribunais.”

“O meu nome e a minha situação creditícia têm servido como justificação para todos os males que afligiram a gestão da CGD nas últimas décadas”, afirma-se na declaração lida aos deputados. 

Nessa mesma declaração (em pdf), respondia às notícias de que apenas tem em seu nome uma garagem no Funchal. “Fizeram crer aos senhores jornalistas que só tinha em meu nome uma garagem, pois grato ficaria que os bancos aceitassem ficar com essa garagem no Funchal em troca de todos os activos que lhes fui entregando pessoalmente e de boa-fé em garantias de dívidas de instituições que represento, numa altura em que foi essencial no sistema bancário nacional que as dívidas não entrassem em incumprimento em virtude da situação dos mercados financeiros e da fragilidade do sistema financeiro português”, afirmou.

Na sua declaração inicial, Berardo acusou o banco público de falta de profissionalismo e, num dos pontos em análise pelos deputados, Berardo quis deixar claro nessa sua declaração por escrito: “Nunca participei em qualquer assalto figurado ao poder no BCP.” Antes pelo contrário, disse. E especificou: “As instituições que represento reforçaram a posição no BCP para garantir o apoio ao poder então existente presidido pelo dr. Paulo Teixeira Pinto [numa altura em que Jardim Gonçalves queria voltar ao poder no BCP].”

Mais tarde, sobre o crédito que lhe foi concedido para comprar acções do BCP, Berardo, já de viva voz, garantiu que “foi a CGD que propôs o negócio” através de Cabral dos Santos, então director da CGD. Berardo respondia ao deputado do PSD Virgílio Macedo. Ao social-democrata o comendador referiu: “Tentei ajudar a situação dos bancos [quando estes estavam em crise].”

Este foi um dos pontos abordados pelos deputados na audição, com Berardo a especificar que o seu primeiro empréstimo na CGD foi para comprar, essencialmente, acções do BCP. Contudo, acabou por referir que ouviu “zunzuns” de que a Caixa estaria a financiar acções do BCP detidas pela própria Caixa através da Metalgest, a empresa de Berardo. Os seus interlocutores, disse, foram Filipe Pinhal e Peter Ferraz pelo lado do BCP e Cabral dos Santos pelo lado da CGD.

Em respostas a Mariana Mortágua, admitiu que, apesar de ter liquidez (durante uns anos), não conseguia pagar os juros do empréstimo porque dependiam de como variavam as acções do BCP no mercado. “O BCP foi o maior desastre da minha vida”, lamentou.

No início da sessão, foi transmitido que Berardo não leria a declaração, mas que responderia a questões. Contudo, depois de lida a declaração inicial, o advogado voltou a intervir para impedir a transmissão via Canal Parlamento, dizendo que ia contra os direitos de Joe Berardo e contra a lei em vigor. Tal não foi aceite pelo presidente da comissão parlamentar de inquérito, Luís Leite Ramos, que teve o acordo dos deputados da comissão.

Deu aval ou não deu aval

Um dos créditos concedidos a Berardo aparece garantido na auditoria da Ernst&Young como tendo um aval pessoal do comendador. Questionado sobre o assunto, Joe Berardo diz que não deu aval à CGD. 

Contudo, surgiu alguma confusão sobre as respostas dadas pelo comendador, uma vez que tinha assegurado que não tinha dado garantias pessoais ou que estas lhe tivessem sido pedidas pela CGD: “E, se o tivessem feito, não dava o meu aval pessoal. Mas também não valho muito. Nunca pediram. Eu é que não ia arriscar a minha vida.”

Nas respostas à deputada bloquista Mariana Mortágua, acabaria por mostrar a visão que tem dos seus negócios com a CGD. “Eu pessoalmente não tenho dívidas, agora eu tenho tentado ajudar...” diz, interrompendo o raciocínio e perguntando ao advogado que o apoia: “Hum?” Quando retoma a palavra, repete a ideia: “Eu pessoalmente não tenho dívidas, claro que não tenho dívidas.” Em causa estavam respostas dadas à deputada bloquista Mariana Mortágua sobre o facto de a colecção Berardo estar penhorada por causa dos empréstimos contraídos pela fundação.

A audição de Joe Berardo está a ser difícil de acompanhar. O comendador deixa muitas vezes frases a meio, responde, remetendo para papéis que não são públicos ou é constantemente aconselhado pelo advogado, que, em grande parte das vezes, lhe segreda as respostas.