Fertagus vai alterar interior dos comboios para acomodar mais passageiros

Carruagens terão menos bancos junto às portas para libertar espaço para passageiros que viajam de pé. Empresa quer ainda reforçar oferta nos períodos de ponta.

Transporte ferroviário
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dro daniel rocha

A Fertagus vai modificar o interior dos seus comboios para que os passageiros que viajam de pé o possam fazer um pouco mais à larga durante os períodos de ponta que ocorrem durante a manhã e ao fim da tarde. A empresa constatou que grande parte dos passageiros que viajam de pé concentram-se junto às plataformas de acesso, evitando espalhar-se ao longo da composição, quer seja no “rés-do-chão” ou no “primeiro andar” das carruagens, porque receiam não ter tempo para sair na estação de destino.

Os passageiros ficam assim com a percepção de que o comboio vai congestionado quando, na realidade, há ainda espaço para mais pessoas. Daí a solução de retirar alguns bancos para oferecer mais espaço e maior comodidade a quem não conseguiu lugar sentado.

A empresa aguarda ainda que o regulador – o Instituto da Mobilidade e dos Transportes – autorize as modificações previstas, não só por razões de segurança, mas também porque as composições são propriedade do Estado (a Fertagus só detém a concessão da operação).

Cristina Dourado, da administração da empresa, disse ao PÚBLICO que notou um aumento significativo da procura desde o início de Maio, seguramente relacionado com a entrada em vigor do Plano de Apoio à Redução Tarifária dos Transportes Públicos. No entanto, a alteração do interior das carruagens é um projecto já antigo que visa responder a um dos maiores problemas da operação – os elevados picos de procura nas horas de ponta.

“Na prática são só quatro ou cinco comboios nos períodos de ponta que vão muito cheios”, explica a administradora. O problema é que são poucos, mas vão, realmente, muito cheios. Por isso, a solução passa também por um reforço da oferta colocando comboios duplos (duas unidades de quatro carruagens) no início das horas de ponta entre Coina e Lisboa.

Para Setúbal, a empresa pretende também reforçar a oferta introduzindo mais uma circulação ao início da tarde para iniciar a cadência das “meias horas” uma hora mais cedo (fora da horas da ponta só há comboios para Setúbal de hora a hora). Intenções que, ressalva Cristina Dourado, dependerão sempre da Infra-estruturas de Portugal a quem cabe gerir os canais horários disponíveis nas linhas.

Já um significativo aumento da oferta que resolva de vez o problema dos utentes da Margem Sul no acesso a Lisboa está fora de questão. A Fertagus só tem à sua disposição uma frota de 18 comboios, mantendo 17 em operação e um em oficina para revisão e manutenção. A compra de mais comboios implicaria uma grande modificação no contrato de concessão com o Estado, além de que tardaria anos a concretizar-se.

Uma solução de médio prazo seria a compra de mais carruagens para aumentar as composições de quatro para cinco veículos. Cada UQE (Unidade Quádrupla Eléctrica) tem uma unidade motora nas extremidades e dois reboques intermédios. Inserir mais um reboque seria uma medida eficaz, mas depende dos preços apresentados pelo fabricante – a multinacional francesa Alstom – que teria de abrir uma linha de montagem, necessariamente cara, para produzir uma quantidade muito reduzida de carruagens.

Seja como for, tal implicaria um (improvável) aumento do investimento público na ferrovia. Os 18 comboios pertencem à Sagesecur, uma empresa que é detida pela Parpública e à qual a Fertagus paga o respectivo aluguer no âmbito do contrato de concessão. Um contrato que termina em Dezembro deste ano, mas que terá de ser irremediavelmente prolongado porque o Estado não lançou nenhum concurso público para abrir a exploração desta linha suburbana entre Lisboa e Setúbal a novos operadores.

Afastada continua, também, a solução de prolongar o serviço até à gare do Oriente, impedindo uma verdadeira ligação ferroviária entre a Margem Sul e aquela estação multimodal. Há linhas e canal horário e também há comboios da CP que, alugados à Fertagus, poderiam ser afectos a este serviço, mas tal possibilidade não foi contemplada pelo Governo.

A Fertagus foi notícia no mundo inteiro em 2016 devido a uma inédita campanha que apelava aos seus clientes para tomarem o pequeno-almoço antes de apanhar o comboio. O objectivo era evitar o número de desmaios em passageiros que viajavam em jejum.

A notícia da campanha tornou-se viral e foi citada em jornais de praticamente todo o mundo. Cristina Dourado diz que a verdade é que o número de episódios de doença súbita a bordo dos seus comboios reduziu-se desde então.