Há linha e há comboios, mas não há serviço entre a margem sul e a gare do Oriente

Para prolongar o serviço de Roma/Areeiro ao Oriente, a Fertagus precisava de mais comboios. A CP tem-nos disponíveis mas não os aluga.

A Fertagus tentou alugar comboios à CP, mas a transportadora pública recusou
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A Fertagus tentou alugar comboios à CP, mas a transportadora pública recusou Rui Gaudêncio

Prolongar o serviço ferroviário da margem sul até ao Oriente faz todo o sentido no sistema de transportes da Grande Lisboa, mas o serviço da Fertagus “morre” na estação de Roma/Areeiro, a apenas cinco quilómetros daquela estação intermodal. Um naufrágio à vista do porto, que impede uma verdadeira amarração do transporte ferroviário entre o sul e o norte da capital.

Um passageiro de Palmela, Fogueteiro ou Pragal que queira apanhar no Oriente um comboio de longo curso para o Centro ou Norte do país, terá de viajar num comboio da Fertagus até Roma/Areeiro e mudar depois para um suburbano da CP Lisboa a fim de chegar à estação de onde saem os Alfas e os Intercidades. São demasiados transbordos para tão pouca distância, o que desincentiva o uso do transporte ferroviário.

O problema poderia resolver-se se a Fertagus tivesse mais três ou quatro composições para poder prolongar o serviço que, presentemente, só presta entre Setúbal e Roma/Areeiro. Mas a empresa tem um problema dramático: só possui 18 composições e comete uma proeza rara nas empresas ferroviárias: ter a circular 17 comboios mantendo apenas um na oficina em serviço de revisão. No entanto, a CP tem comboios excedentários que são exactamente iguais. Trata-se das Unidades Quádruplas Eléctricas (UQE), com dois pisos, que também circulam nas linhas da Azambuja e de Sintra. Este material está parqueado em Campolide, mas quando há cinco anos a Fertagus tentou alugar esses comboios para reforçar o seu serviço, a transportadora pública recusou.

Curiosamente, os próprios comboios da Fertagus também são públicos. É que a concessionária do eixo ferroviário Norte-Sul explora o serviço, mas não tem a posse do material circulante. As 18 UQE da Fertagus pertencem à Sagesecur, uma empresa que é detida pela holding estatal Parpública.

Do ponto de vista material, há, portanto, condições objectivas para que o serviço ferroviário do eixo Norte-Sul se estenda ao Oriente: a linha está disponível e os comboios da CP e da Fertagus são do Estado. Ou seja, não seria necessário investimento, nem na infra-estrutura, nem no material circulante. O próprio contrato de concessão da Fertagus prevê que este possa prolongar-se de Setúbal a Praias Sado e de Roma/Areeiro a Oriente. Mas para isso a empresa precisa de material circulante.

O PÚBLICO questionou a Secretaria de Estado dos Transportes sobre este tema, mas não obteve resposta.

De costas voltadas
A relação entre a Fertagus e a CP, não sendo hostil, não prima pela cooperação. As duas empresas nunca conseguiram criar um sistema de bilhética integrada, que seria útil para quem viaja nos comboios das duas operadoras. A manutenção dos comboios da Fertagus é feita por uma equipa própria, mas há três anos a empresa precisou de fazer a reperfilagem dos rodados dos comboios, tendo contactado a EMEF (afiliada da CP) para efectuar esse trabalho.

Esta operação consiste em levar os rodados a um torno para lhes corrigir a forma, adequando-os a uma melhor aderência ao carril. Poderia ter sido feita nas oficinas do Entroncamento, para onde os comboios se poderiam dirigir pelos seus próprios meios. É lá, de resto, que a EMEF executa esse trabalho para os comboios da CP. Mas como esta empresa não garantia o cumprimento dos prazos, a Fertagus acabou por adjudicar o serviço às oficinas da espanhola Renfe. E os rodados foram, assim, transportados em camião para Valladolid para serem reperfilados.

A factura desta operação foi paga pelo Estado português, através da Sagesecur, uma vez que se tratava da revisão de meia vida dos comboios e não da manutenção corrente, a cargo do concessionário.