Em Lisboa ganha-se mais 1600 euros por ano do que no resto do país

Habitantes da Área Metropolitana da capital ganham acima da mediana nacional. Relatório do INE revela que Norte e Centro são as regiões onde há mais gente em risco de pobreza — em Portugal, em 2017, havia 1,8 milhões de pessoas nesta situação.

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Enric Vives-Rubio

Os habitantes da Área Metropolitana de Lisboa ganharam mais quase 1600 euros por ano do que os restantes habitantes do país, em 2017. A região da capital foi a única em que os rendimentos monetários líquidos equivalentes foram superiores à mediana nacional, indica o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, que é publicado nesta terça-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).

O relatório do INE revela que o rendimento mediano em Portugal em 2017 foi de 9346 euros anuais. Em Lisboa, chegou quase aos 11 mil euros por ano (10.943). Esse valor é “significativamente mais elevado” na Área Metropolitana da capital, sublinha o organismo público no relatório de apresentação deste inquérito.

Em sentido contrário, o rendimento é “mais baixo nas regiões autónomas”, lê-se no mesmo documento. Na Madeira, o rendimento mediano ficou 1020 euros abaixo da média nacional. Os Açores têm o pior registo de todas as regiões nacionais. O rendimento monetário líquido foi de 7517 euros, em 2017, menos 1829 do que a mediana do país — e 3426 euros abaixo do de quem vive na Grande Lisboa.

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Em 2017, a Área Metropolitana de Lisboa foi a única região com um rendimento mediano superior à mediana nacional. As diferenças nas restantes regiões são, porém, menos pronunciadas do que nas ilhas. É no Alentejo que existem os rendimentos mais baixos — a mediana é de 8880 euros anuais.

O rendimento monetário líquido equivalente considera os proveitos do trabalho, de outros rendimentos privados (como rendimentos de capital ou de propriedade, das pensões e outras transferências sociais), após dedução dos impostos e contribuições para a Segurança Social. A mediana corresponde ao centro da distribuição dos diferentes valores de uma amostra. Ou seja, é o valor que separa a metade superior da metade inferior dos rendimentos. Ao contrário da média, a mediana não é afectada pelos valores extremos — sejam muito altos ou muito baixos — e é, por isso, o indicador preferencialmente usado em estatísticas sobre rendimentos.

Os 9346 euros de rendimento monetário líquido equivalente apurado pelo Inquérito às Condições de Vida e Rendimento correspondem a um limiar de pobreza de 5607 euros anuais, ou seja, 467 euros por mês (uma subida de 3% face ao ano anterior). Ter um rendimento abaixo deste limiar significa estar em risco de pobreza.

O INE confirma que quase 1,8 milhões de pessoas (17,3% dos residentes) estavam em risco de pobreza em 2017, um número que já tinha sido avançado em Novembro quando foram conhecidos os dados preliminares deste inquérito conduzido pelo INE. Esse resultado significa uma queda de um ponto percentual no número de pessoas em risco de pobreza face ao ano anterior. Nunca houve tão poucos pobres no país.

Em consonância com os resultados apurados para os rendimentos, o inquérito demonstra também que os residentes nas regiões autónomas enfrentavam riscos de pobreza mais elevados: 31,6% nos Açores e 27,5% na Madeira. No entanto, a maioria das pessoas em risco de pobreza vivia nas regiões Norte e Centro, 664 mil e 415 mil, respectivamente.

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Sem surpresa, apenas a Área Metropolitana de Lisboa teve, em 2017, uma taxa de risco de pobreza inferior à média nacional: 12,3% das pessoas estavam em risco de pobreza, cinco pontos percentuais abaixo do que acontece na generalidade do país. Também o Alentejo (16,9%) teve um risco de pobreza abaixo da média — ainda que apenas 0,4 pontos percentuais.

"Forte desigualdade"

Estes dados estão em linha com os que foram divulgados no final do ano passado pelo Eurostat, a propósito do Dia Internacional da Erradicação da Pobreza, e que colocavam Portugal em 11.º lugar numa lista com 26 Estados em matéria de pobreza e exclusão. Apontava-se então para que 23,3% da população nacional estivesse “em risco de pobreza ou exclusão”, acima da média da União Europeia de pessoas nessa situação, que é de 22,5%.

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Os dados finais do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento confirmam também uma “forte desigualdade na distribuição dos rendimentos”. Apesar de os principais indicadores de desigualdade se terem reduzido novamente, a sua distribuição continua a ser “fortemente assimétrica”.

Diz o relatório do INE que o Coeficiente de Gini, que reflecte as diferenças de rendimentos entre todos os grupos populacionais, foi de 32,1% em 2017. Ainda assim, este resultado significa uma descida de 1,4 pontos percentuais face ao ano anterior. O Coeficiente de Gini é um indicador de desigualdade na distribuição do rendimento, que sintetiza num único valor a assimetria dessa distribuição. O seu valor é 0 quando todos os indivíduos têm igual rendimento ou 100 quando todo o rendimento se concentra num único indivíduo.

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A Região Autónoma dos Açores foi aquela em que a diferença entre os rendimentos dos 20% de população mais rica com os 20% mais pobres foi superior: 7,3, acima da média nacional, que foi de 5,2 pontos. O Alentejo é a região em que a distribuição dos rendimentos é menos desigual (4,4).