Duas pássaras chamadas Tuca e Bertie

Tuca & Bertie é uma série de animação do Netflix criada por Lisa Hanawalt, a responsável pelos desenhos de BoJack Horseman. Os dez episódios da primeira temporada estrearam-se nesta sexta-feira.

Programa de televisão
Foto
Uma tucana e uma ave canora animadas e um dedo a apontar: é isto que Tuca & Bertie tem Netflix

Ambas na casa dos 30, duas melhores amigas, uma delas extrovertida, solteira e sem trabalho fixo e a outra introvertida, cheia de ansiedade, com um emprego e um namorado, enfim, o seu oposto, vivem no mesmo prédio. A extrovertida, Tuca, que deixou de beber há alguns meses, acabou de sair de casa da introvertida, Bertie, para dar lugar ao namorado da melhor amiga, que foi para lá viver.

É esta a premissa de Tuca & Bertie, uma nova série do Netflix. A dinâmica é comum e intemporal: opostos que se atraem. Só que, neste caso, são mulheres e, além disso, elas são, respectivamente, uma tucana e uma ave canora, e Tuca & Bertie, uma criação de Lisa Hanawalt, quer ser uma comédia animada para adultos. Os dez episódios da primeira temporada ficaram disponíveis na íntegra nesta sexta-feira.

Não há muitas animações para adultos que tenham sido criadas por mulheres. Hanawalt, que fez um percurso na banda desenhada e na ilustração antes de, há cinco anos, ter sido pescada pelo amigo Raphael Bob-Waksberg para desenhar BoJack Horseman, é uma nova adição à curta lista. Preocupou-se em desenvolver uma amizade realista, sem rivalidade, e que não é muito comum em televisão. Há ecos de PEN15 ou da recém-finada Broad City, só que com animais. E centrar-se, sem reservas e pruridos, em duas personagens que não sabem bem o que fazer às suas vidas, com todos os momentos confrangedores possíveis e imaginários associados aos dilemas da idade adulta.

Em relação à série que deu fama mundial ao seu traço, Tuca & Bertie é bastante diferente e mais próxima do trabalho de Hanawalt na BD – não é à toa que Tuca é uma personagem que veio desse formato. Sim, está lá o gosto por trocadilhos – que nunca são mostrados como as piadas mais hilariantes e importantes, apenas fazem parte do mundo – e gags visuais que BoJack Horseman tem, tal como o sentido de humor absurdo e da componente dramática. Mas não há muitos humanos, e o mundo em que Tuca e Bertie vivem, Bird Town, não tem só animais antropomórficos, tem também plantas que fumam droga e objectos que ganham vida. Além disso, e passando à frente do óbvio que é ter uma perspectiva feminina mais pronunciada, esta é uma série mais leve, optimista e surreal, e menos adepta de seguir regras.

E é profundamente mais bizarra, não raras vezes parva. Por exemplo, num episódio, a meio de uma perseguição que envolve uma tartaruga, açúcar e as cinzas de uma avó, vemos uma mulher na rua, com texto e setas a aparecerem a apontar para ela e a dizer que ela tem uma vida interior rica. Esta personagem não faz parte da série e nunca mais a voltamos a ver. A animação também muda bastante, afastando-se do traço da autora. Uma vez, uma viagem de um andar para o outro do prédio é mostrada como se fizesse parte de um videojogo dos anos 1980. Outra, vemos fantoches em imagem real num flashback

Tal como BoJack Horseman, a série conta com um elenco cuidado de vozes, se bem que, pelo menos por enquanto, não recorre tanto a nomes famosos a fazerem deles próprios – como não se passa em Hollywood, também não há grande justificação em termos de acção para tal acontecer. Tuca tem a voz de Tiffany Haddish, a cómica de stand-up/força da natureza que em 2017 se tornou uma estrela pelo papel em Girls Trip, um filme que não teve estreia em Portugal. Já Bertie é Ali Wong, que também vem da stand-up e causou furor com Baby Cobra Hard Knock Wife, dois especiais do Netflix em que estava grávida.

A juntar-se a ambas no elenco fixo está Steven Yeun, antigo membro do elenco de The Walking Dead , como namorado de Bertie, bem como alguns cómicos de valor como a imparável Nicole Byer, que apresenta Nailed It!, a competição de pasteleiros do Netflix, John Early, Cole Escola ou Reggie Watts, a fazerem várias vozes de pequenas personagens. E, aqui e ali, nomes que vão de Tessa Thompson ao sempre delicioso Richard E. Grant, que este ano foi nomeado para um Óscar, passando por Laverne Cox, Awkwafina, Jennifer Lewis, Jane Lynch ou Michelle Dockery.