Sobre a noite passada: quem chorou e quem sobrou em The Walking Dead

Promessas cumpridas, machos alfa ao desafio e muitos espectadores frustrados ou arrasados. Para onde vai a série que não tem futuro? (Contém spoilers sobre o primeiro episódio da sétima temporada)

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Negan é interpretado por Jeffrey Dean Morgan Gene Page/AMC

Promessa cumprida: os espectadores de The Walking Dead ficaram a saber quem foi a primeira vítima de Negan, o novo vilão da série (embora ele não se veja como “um gajo mau”). Mas também ficaram a saber quem foi a segunda, lançando a (já) habitual torrente de tweets chorosos e desolação na Internet. O episódio não foi subtil - a Fox transmitiu-o com um aviso de “cenas violentas” antes da estreia - nem queria sê-lo. Foi sobre poder, homens e recomeços. Outra vez.

Na madrugada de segunda-feira, com alguns espectadores portugueses já a par e os norte-americanos e os brasileiros bem mergulhados no luto, (a Fox volta a exibir o episódio esta noite no horário bem mais confortável das 22h15), desenrolou-se o novelo pendente desde Abril. Seis meses depois, e 15 e 20 minutos (respectivamente) decorridos desde o início de Signs, o primeiro episódio da sétima temporada de The Walking Dead, morria a personagem que passou a última temporada a cortejar a morte, o ruivo Abraham, e morria também a personagem que passou a última temporada a iludir a morte, Glenn. Um primeiro golpe menos impactante – afinal, Abraham estava na série há apenas duas temporadas – e um segundo violentíssimo, não só pela forma como emulou o que sucede na série de livros The Walking Dead, mas pelas ligações emocionais da personagem que há seis anos povoa as florestas húmidas do Sul americano.

Ambos já bem mortos nos comics que inspiram a série que domina as audiências dos EUA desde 2010, ambos vítimas de Negan, o líder de um novo grupo de antagonistas para a matilha de Rick Grimes, sobreviventes do apocalipse zombie que a série de Robert Kirkman, Scott Gimple e Greg Nicotero acompanha desde o início. Falador, convencido e macho alfa, encontrou em Jeffrey Dean Morgan, o Comedian de outra novela gráfica, The Watchmen, uma voz tonitruante. “Para mim, ele não é um gajo mau”, disse o actor no programa de comentário sobre The Walking Dead, que nos EUA é transmitido no canal AMC logo após cada novo episódio. Porque depois de muita tortura, de jogos de luz e sombras com o seu bastão (“Lucille”) erguido ao nível dos genitais e de provas de que Rick já não é o macho alfa, Negan deixou os sobreviventes voltarem a casa.

É um novo começo, e dizê-lo não só é uma evidência quando mais uma temporada arranca, mas também é uma repetição no ciclo de The Walking Dead. “Fuga, abrigo, ameaça, vilão, nova fuga” tem sido a forma como, de quinta em prisão, de comunidade em vila, o grupo faz o seu caminho. A certeza de que o inferno são os outros e não os walkers (os zombies) reforçada a cada temporada.

Com a violência deste episódio – não sendo novidade e sendo mesmo ADN da série matar personagens queridas, há quem o considere um dos mais sangrentos episódios de sempre na história da ficção televisiva – a dar início a uma nova fase, também se lê nos comentários ou nas reacções nas redes sociais que há muitos espectadores prontos a abandonar o barco. Alguns são também movidos pelo que consideram ser a falta de qualidade (de)crescente da série. “Quem é que precisa desta merda?”, lê-se na crítica do IndieWire. “Este não foi um bom episódio”, avaliou o crítico Jeremy Egner no New York Times.  

Já a revista Entertainment Weekly, conhecida pela sua proximidade a algumas das produções de maior sucesso na TV, considerou que matar duas personagens, e não apenas uma, foi “uma manobra criativa sábia dos produtores, prestando um tributo doloroso ao acontecimento épico do comic [a morte de Glenn faz parte do centésimo número dos livros] e acrescentando-lhe um novo twist aterrorizante”. Robert Kirkman, presente também no programa Talking Dead, explica que os plot twists anunciados e os plot twists dolorosos são para “estabelecer que há muito mais para vir": "Há tanto que sai desta cena que tem de ser resolvido. Por mais que estejamos a fazer isto há anos, queríamos mandar uma mensagem clara de que estamos só no início." A série, antes da estreia, já fora renovada para uma oitava temporada.

Dos seis actores originais, restam agora Andrew Lincoln (Rick), Chandler Riggs (Carl), Norman Reedus (Daryl, agora um animal enjaulado for Negan) e Melissa McBride (Carol, que esteve longe desta carnificina). Lennie James (Morgan), que regressou após uma breve aparição na primeira temporada, também ficou de fora do círculo mortal de Signs, onde estavam ainda Lauren Cohan (Maggie), Danai Gurrira (Michonne), Sonequa Martin-Green (Sasha), Josh McDermitt (Eugene), Christian Serratos (Rosita) e Ross Marquand (Aaron). O produtor Scott Gimple admitiu que as decisões quanto ao rumo da narrativa tinham dois alvos: “O que é que quebraria Rick”; “mas também procurar uma forma de quebrar o público”.

As cenas foram dominadas por Negan – “a série tinha perdido nervo e parece ter encontrado algum em Negan”, espera Egner no New York Times; “The Walking Dead parece estar a contar com a chegada de um vilão adorado pelos fãs para reavivar uma série que passou as últimas duas temporadas a arrastar-se em círculos”, escreve Sam Adams na Variety. Vem aí um futuro incerto, com mais comunidades para conhecer –o grupo de King Ezekiel e seu tigre, o Reino; os Salvadores de Negan; e a colónia de Hilltop.

No final, o momento mais emotivo, aquele que preenche a quota de gifs, memes e outros confortos digitais, e que motiva emojis lacrimejantes foi a morte de Glenn, o antigo entregador de pizzas. “Acho que Glenn morreu de uma forma muito Glenn”, diz o actor Steve Yeun, que agora se despede da série. Prometeu encontrar-se com a mulher, Maggie, como últimas palavras. E, no programa do AMC, evocou o episódio em que, na última temporada, todos pensavam que a personagem tinha morrido. Agora, “é adequado que ele acabe aqui”.