Opinião

A arte de saber esquecer

Importa não esquecer que a chamada crise ambiental não é apenas uma questão ecológica e dos ecólogos, mas também, e sobretudo, um problema social e de saúde pública.

Saber esquecer é uma arte que se cultiva, hoje em dia, na sociedade portuguesa. Esquecemos a ameaça de seca quando a chuva teima em cair. Esquecemos (ou ignoramos) que houve matas incólumes em 2017, porque nem se visitam. O esquecimento (ou indiferença) é natural perante o dia-a-dia que se leva, mas também porque a classe política nos ajuda a esquecer. Nada como cultivar a esperança de um “grande” aeroporto e do aumento de investimento estrangeiro no lítio ou o orgulho de mostrar uma agricultura moderna no Alentejo. À esperança e ao orgulho alia-se a afirmação do poder restaurador, que neutraliza os efeitos negativos da memória e da culpa. Assim, para que a consciência se liberte e o povo descanse cultivam-se e afirmam-se a prossecução de medidas de mitigação.

Há impactes negativos no ambiente com a construção da nova infra-estrutura no Montijo? Seguramente que surgirão soluções inovadoras contra o excesso de ruído ou de choques com aves. Irá haver perda de habitat para aves migradoras ou libertação de produtos tóxicos nos solos e na atmosfera? Nada disso terá importância quando comparado com a mais-valia no aumento de turistas a Portugal, em particular na região de Lisboa.

Portugal possui uma das maiores concentrações de lítio da Europa. Com esta concentração de “petróleo branco” espalhada por grande parte do território, claro que isso pode trazer um valor acrescentado à economia portuguesa. Saber tirar partido dum recurso natural é lícito e oportuno. A questão coloca-se quando a ambição e o apetite voraz tornam a oportunidade em ameaça. O problema é se essa exploração vai afectar toalhas freáticas, diminuir a quantidade de água disponível para as populações ou mesmo colocar em risco a integridade de reservas naturais. Seguramente que surgirão medidas de mitigação. Mas o que pesa mais? O valor actual de um bem ou a perda irrefutável dum património natural destruído e irrecuperável?

O Alentejo modificou-se. As “ondas” verdes ou amarelas (consoante a estação) dos campos de trigo de outrora que se viam na paisagem foram rapidamente substituídas. Junto ao Alqueva crescem, multiplicam-se os olivais clonizados com produção controlada, dependentes da rega contínua. Para o aumento do retorno investido usam-se e abusam-se dos pesticidas e herbicidas, permitindo uma cultura e colheita mais automática e eficiente. Talvez se (ou, antes, quando?) chegar a Xilella (bactéria radicular que tem dizimado olivais em Itália e Espanha) se olhe para os olivais antigos - os que restarem - que se mostram resistentes e que teimam em produzir mesmo sem água. Para além da paisagem monótona de verde acinzentado, o Alentejo é cada vez mais uma paisagem brilhante, espelhada, com a “cultura” de painéis solares da região da Amareleja e, qualquer dia, na zona de Ourique. Nada como a autonomia energética, o cumprimento do acordo de Paris, o melhor e maior objectivo que se pode alcançar: libertar-nos dos combustíveis fósseis para a obtenção de energia. A “paisagem” fica diferente? Não, a costa ficará mais apetecível e capaz de oferecer um turismo de qualidade.

Saber esquecer pode ser libertador, mas memorizar certos conhecimentos é fundamental: a perda de conectividade entre espécies e a uniformização genética das culturas torna os ecossistemas vulneráveis e pouco resilientes. Por isso, insistir que a capacidade tecnológica inovadora do Homem permite mitigar a deterioração ambiental é uma falácia. Importa não esquecer que a chamada crise ambiental não é apenas uma questão ecológica e dos ecólogos, mas também, e sobretudo, um problema social e de saúde pública.