Viajado e educado em Oxford, eis Naruhito, o novo imperador do Japão

Naruhito é o primeiro imperador nascido depois da II Guerra Mundial. Espera-se que mantenha o estilo próximo do seu pai, e que defenda o pacifismo da Constituição.

,Imperador do Japão
Fotogaleria
Naruhito ao lado da mulher, Masako, antes da cerimónia de abdicação JIJI PRESS / EPA
,Abdicação do imperador Akihito
Fotogaleria
Akihito pouco antes de abdicar JIJI PRESS/EPA

Foi com um agradecimento pelo apoio do povo japonês durante as últimas três décadas que o imperador Akihito se despediu das suas funções, num acto histórico e sem precedentes na História recente do país. Com a abdicação, a era Heisei (“paz em todo o lado”) termina e dá lugar a um novo tempo, que se inicia esta quarta-feira, com a subida ao trono de Naruhito.

A implicação mais imediata da mudança de era é bastante prática. Apesar de o calendário gregoriano ser amplamente utilizado no Japão, os anos são também contados à luz das eras imperiais. Assim, a partir desta quarta-feira inicia-se o ano 1 da era Reiwa (“bela harmonia”); o ano de 2018 foi o ano 30 da era Heisei, por exemplo. Esta nomenclatura é usada em documentos oficiais e académicos, e até em fichas clínicas, onde os pacientes devem indicar em que era nasceram, conta o Asia Times.

Segundo o mesmo site, as empresas de fabrico de calendários insistiram com o Governo para que o nome da nova era fosse revelado com um mês de antecedência para iniciarem a produção atempadamente.

Mas, mais significativamente, a mudança de era acontece depois da abdicação histórica de Akihito, consumada esta terça-feira, ao fim de 30 anos de reinado. O último dia da era Heisei no Japão começou com o imperador a participar numa cerimónia religiosa, seguindo os costumes do xintoísmo, à porta fechada, em que comunicou a sua decisão de abdicar aos ancestrais mitológicos da família imperial.

De tarde, num discurso no Palácio Imperial perante 300 pessoas, Akihito dirigiu-se publicamente pela última vez como imperador aos japoneses, a quem desejou “paz e felicidade”. “Estou profundamente agradecido ao povo por me ter aceitado como símbolo e por me ter apoiado”, disse o monarca, ao lado da imperatriz Michiko e do resto da família imperial.

“Desejo com sinceridade, em conjunto com a imperatriz, que a era Reiwa que começa amanhã seja estável e frutífera. Rezo, com todo o meu coração, para que haja paz e felicidade para todo o povo do Japão e em todo o mundo”, declarou Akihito, antes de descer do palanque onde discursou e fazer uma vénia a todos os presentes.

Aos 85 anos, Akihito tornou-se no primeiro imperador a abdicar em mais de dois séculos – o último tinha sido o imperador Kokaku, em 1817. A intenção de que o imperador queria abandonar as funções tornou-se pública no Verão de 2016, quando Akihito fez uma rara declaração televisiva em que manifestou receios de não poder levar a cabo as suas funções em virtude da idade avançada e dos problemas de saúde que vem sofrendo.

A abdicação não é prevista pela lei que rege o Trono do Crisântemo, como é designada a dinastia imperial japonesa, e o Governo teve de apresentar uma lei pensada exclusivamente para a saída de Akihito, que acabou por ser aprovada. Os estudos de opinião mostram que a maioria dos japoneses apoia a abdicação e percebe os motivos de Akihito.

Continuidade com Naruhito

Esta quarta-feira, o Palácio Imperial volta a receber uma cerimónia solene, desta vez para oficializar a subida ao trono de Naruhito, o filho mais velho de Akihito, que irá inaugurar a era Reiwa. A convicção geral é de que o novo imperador adopte uma postura semelhante à do anterior, privilegiando uma maior proximidade com a população e promova o pacifismo vertido na Constituição de 1947.

Numa declaração aos jornalistas em Fevereiro, poucos dias antes do seu aniversário, Naruhito indicou que pretende dar continuidade à linha seguida até agora. “À medida que me vou preparando para esta função, gostaria de manter o trabalho do anterior imperador. Gostaria de pensar no povo e rezar por si”, afirmou.

Mas são esperadas algumas pequenas diferenças na próxima era. Naruhito, de 59 anos, é o primeiro imperador nascido depois da II Guerra Mundial, o conflito que marcou toda a História recente do Japão, e será também o primeiro a ter estudado no estrangeiro – passou dois anos na Universidade de Oxford, onde escreveu uma tese sobre o sistema de transporte de água medieval do rio Tamisa.

Chegou a descrever os tempos passados no Reino Unido, entre 1983 e 1985, como os melhores da sua vida e publicou um livro de memórias sobre essa época. A morte do avô, Hirohito, obrigou-o a desempenhar mais funções junto da família imperial, como príncipe herdeiro, mas continuou os seus estudos académicos e tornou-se um activista do acesso à água e da defesa da sua preservação. Entre 2007 e 2015 foi presidente honorário do grupo de conselheiros do secretário-geral da ONU para a Água e o Saneamento.

Nos últimos anos, Naruhito também viajou frequentemente pela Ásia, exercendo uma espécie de “diplomacia imperial”, na esteira das deslocações do pai pelos países que foram ocupados pelo Japão durante a primeira metade do século XX.

Em 1993, Naruhito casou-se com Masako, uma diplomata de carreira que estudou nas universidades de Oxford e Harvard, com quem tem apenas uma filha, Aiko, de 17 anos. Há alguns anos, Masako deixou de aparecer em público e foi o próprio príncipe que confirmou a doença do foro nervoso da mulher – uma rara admissão pública no que respeita ao estado de saúde de membros da família imperial.

A difícil adaptação às exigências da vida no Palácio Imperial e a grande pressão para que tivesse um filho – apenas os homens podem ascender ao trono – terão estado por trás do esgotamento de Masako.

Alguns analistas antecipam um papel importante para a futura imperatriz, especialmente no contexto de uma dinastia dominada pelos homens. “Masako é muito inteligente, uma mulher bem preparada e, dependendo da sua saúde, será inteiramente possível que venha a fazer coisas extraordinárias”, disse ao Guardian o professor do Instituto de Estudos Avançados Asiáticos da Universidade de Tóquio, Christopher Gerteis.