O maior desastre nuclear chega aos ecrãs com Chernobyl, 33 anos depois

Protagonizada por Jared Harris, Stellan Skarsgård e Emily Watson, a minissérie é um recuar no tempo ao momento zero do desastre nuclear — e à forma como a catástrofe foi gerida pela comunidade soviética.

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A reconstituição feita na mini-série do acidente nuclear de 26 de Abril de 1986 DR

Passaram 33 anos desde o desastre em Tchernobil, o maior acidente nuclear da História. O que aconteceu, afinal? Quem foram as pessoas que tentaram evitar a catástrofe? A minissérie da HBO, Chernobyl, tenta dar resposta a estas questões. A série estreia-se em Portugal no dia 7 de Maio e só estará disponível no serviço de streaming HBO Portugal (que chegou em Fevereiro a solo nacional). Para já, só está prevista uma temporada com cinco episódios.

O primeiro episódio tem o nome “1:23:45”, a hora a que foi accionado o botão de emergência no reactor nuclear número 4 da central de Tchernobil pelo supervisor nocturno Alexander Akimov (interpretado por Sam Throughton) — foi o momento zero daquela que viria a ser uma das maiores catástrofes da humanidade. Tudo aconteceu na noite de 25 para 26 de Abril de 1986. 

O criador da série é o norte-americano Craig Mazin, cujo currículo não faria adivinhar uma viragem para um registo mais sério e documental: Mazin foi um dos argumentistas por detrás dos filmes Scary Movie 3 e Scary Movie 4, assim como A Ressaca — Parte II e Super-Herói: O Filme. O trailer da minissérie deixa claro que o tom é bem diferente e mais sombrio, como seria de esperar de um tema como Tchernobil. A primeira frase que se ouve no trailer mostra-o: “Não houve nada são em relação a Tchernobil.” Os cinco episódios, grande parte deles filmados na Lituânia, são realizados por Johan Renck, que também trabalhou em The Walking Dead e Bates Motel.

“Tchernobil está a arder e cada átomo de urânio é como uma bala que penetra tudo no seu encalço: o metal, o cimento, a carne humana. Tchernobil tem mais de três biliões destas balas. E algumas delas não pararão de ser disparadas ao longo de 50 mil anos”, assevera a personagem do químico Valery Legasov (interpretada por Jared Harris) no trailer divulgado no final de Março. Legasov foi o cientista chamado pelo regime soviético depois do acidente nuclear e, enquanto as autoridades tentavam minimizar o impacto do desastre, foi um dos primeiros a aperceber-se das verdadeiras consequências da radioactividade na saúde humana. Dois anos depois do desastre, Legasov suicidou-se. Na sua extensa carreira de representação, esta não é a primeira vez que Harris interpreta um papel de alguém que parece condenado: fê-lo no papel de rei Jorge VI na série The Crown ou com Lane Pryce, em Mad Men. Também interpretou Andy Warhol (Um Tiro para Andy Warhol, 1996) e o arqui-inimigo de Sherlock Holmes, James Moriarty (Sherlock Holmes: Jogo de Sombras, 2011).

“Estamos a lidar com algo que nunca aconteceu antes neste planeta”, ouve-se no trailer, em inglês — o idioma da minissérie, ainda que a acção se desenrole na União Soviética e conte com uma mão-cheia de actores que não são anglo-saxónicos. A série começa com um vislumbre dos momentos que se seguiram ao acidente nuclear: a evacuação da zona, a incerteza quanto aos mecanismos de segurança a serem tomados, os animais a sofrerem os danos, os homens e mulheres outrora saudáveis que morreram numa questão de semanas, dias até.

A dois quilómetros da central, os 50 mil habitantes da cidade de Pripiat (agora fantasma) ficaram durante 36 horas a serem contaminados, sem o saberem, com os materiais radioactivos que foram lançados com a explosão do reactor. Depois, as autoridades soviéticas chegaram e levaram-nos em autocarros — o mundo ainda não sabia do perigo à espreita. Foi ainda preciso lutar durante 12 dias contra um incêndio da grafite, um material presente no núcleo deste tipo de reactores; muitos dos bombeiros não tinham protecção adequada e acabaram por sentir na pele os efeitos da radioactividade. Hoje, nos quatro mil quilómetros quadrados da zona de exclusão criada na Ucrânia e na Bielorrússia, a vida foi voltando através dos animais e das plantas que brotaram do solo radioactivo.

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A cidade-fantasma de Pripiat GLEB GARANICH/REUTERS

O enredo tenta explorar o motivo por trás da catástrofe, mas a série vai além do relato do desastre. A HBO diz que esta é a “verdadeira história que não foi contada”. Segue a história das pessoas que tentaram salvar vidas e que tentaram controlar a propagação da catástrofe: além de Valery Legasov, há a física Ulana Khomiuk (Emily Watson, duas vezes nomeada para Óscar de Melhor Actriz) e o então vice-primeiro-ministro soviético Boris Scherbina (interpretado pelo sueco Stellan Skarsgård, que entrou em O Bom Rebelde, Ninfomaníaca, Piratas das Caraíbas e Os Vingadores). Estes dois últimos já tinham contracenado no filme de 1996 de Lars von Trier, Ondas de Paixão.

O site especializado IndieWire adianta que, a acompanhar a série semanal, existirá um podcast “de companhia”: chama-se “The Chernobyl Podcast” e será apresentado pelo criador da série, Craig Mazin (que também participa num para argumentistas, chamado “​Scriptnotes”​) e pelo actor e apresentador do podcast Wait Wait, Don’t Tell Me, Peter Sagal. A missão do programa áudio é dar um olhar mais aprofundado às histórias reais que serviram de base à narrativa da série, explicando a forma como “moldaram as cenas, as personagens e os temas representados”.