Volante criado em Aveiro avisa o condutor quando está na hora de descansar

O objectivo é diminuir acidentes causados pela fadiga. Tecnologia ainda está em fase de protótipo.

Foto
A partir de 2022 todos os automóveis novos na União Europeia devem vir com sistemas deste tipo. Nelson Garrido

Uma equipa de investigadores da Universidade de Aveiro desenvolveu uma capa para o volante do carro que usa pequenos sensores para monitorizar os sinais vitais do condutor e avisá-lo quando é altura de parar e descansar. Ao mesmo tempo, permite criar uma espécie de impressão digital (a partir do batimento cardíaco do condutor), que regista quem tinha as mãos ao volante e qual era o estado emocional da pessoa em qualquer ponto da viagem.

“A pele tem condutividade eléctrica. E, de certa forma, as nossas mãos funcionam como dois eléctrodos de onde podemos extrair informação. Por exemplo, o batimento cardíaco”, explica ao PÚBLICO a investigadora Helena Alves, da Universidade de Aveiro, que coordena a equipa no Instituto de Materiais de Aveiro (CICECO) que foi responsável pela criação do volante. 

“O nosso volante permite medir se o condutor está nervoso, ou fatigado, e alertar para elevados níveis de ansiedade que podem dificultar a condução”, resume Alves.

PÚBLICO -
Foto
O protótipo da Universidade de Aveiro Universidade de Aveiro

Os sinais captados pelos sensores são analisados em tempo real por um algoritmo desenvolvido no Instituto Superior Técnico e no Instituto de Telecomunicações, no pólo de Lisboa, pela equipa da investigadora Ana Fred. Em 2017, esta equipa patenteou um método para reconhecimento biométrico contínuo baseado em sinais gráficos de electrocardiogramas. Baseia-se na identificação de padrões a partir de extensas bases de dados. Além de ver a tecnologia em volantes de carros, a equipa de Fred espera que seja incorporada em bancos de carros e guiadores de motas.

"Como uma caixa negra"

O volante desenvolvido em Aveiro não se limita a avaliar o cansaço do condutor. “Conhecer o batimento cardíaco também pode servir para identificar o condutor. Isto é útil, por exemplo, para empresas de camionagem que querem garantir a identidade dos condutores”, avança Helena Alves que descreve o volante como uma “espécie de caixa negra”.

“Neste caso, a informação sobre o estado emocional do condutor pode ser utilizada para seguradoras avaliarem a responsabilidade em casos de acidente”, explica a investigadora.

Para já, o protótipo criado por Helena Alves envia a informação recolhida, via bluetooth, para aparelhos electrónicos, como um computador, telemóvel ou relógio inteligente

No futuro, a investigadora espera ver a informação recolhida pelo volante a ser associada a sistemas de alerta no próprio carro como um sinal sonoro ou um banco que vibra. Helena Alves explica, na apresentação do projecto, que estas medidas podem “recuperar a atenção do condutor ou até mesmo provocar a imobilização do veículo”.

Para a informação aparecer directamente no carro, é preciso ter uma parceria com fabricantes automóveis, algo que permitirá reduzir os custos de produção do volante. Actualmente, são precisos cerca de 300 euros para desenvolver cada versão do protótipo.

A coordenadora do projecto, alerta, no entanto, que não tem de ser o condutor a receber a informação: “Os dados podem ir para uma central. Isto faz sentido quando o cliente final é uma empresa de camionagem, que recebe a informação sobre o estado do condutor e pode alertá-lo directamente caso seja necessário parar. Sabemos que os camionistas devem fazer pausas a cada oito horas, mas alguns podem precisar de fazer uma pausa antes.”

PÚBLICO -
Foto
Helena Alves com a capa do volante Universidade de Aveiro

Tecnologia obrigatória? 

Este tipo de tecnologia deve-se tornar mais comum em veículos nos próximos anos. A partir de Maio de 2022, todos os automóveis novos vendidos na União Europeia terão de vir equipados com tecnologias de segurança deste tipo que, que incluem sistemas para avisar os condutores em caso de distracção e de sonolência.

De acordo com dados da Comissão Europeia, entre 10 a 20% dos grandes acidentes de automóvel são causados pela fadiga. 

As grandes fabricantes automóveis começam a apostar na tecnologia. A japonesa Toyota, por exemplo, está a desenvolver bancos capazes de analisar a postura do condutor, e de monitorizar o estado de atenção, através de pequenos sensores e câmaras no habitáculo que analisam a expressão facial de quem tem as mãos ao volante.