Opinião

A transformação do automóvel num device de mobilidade sustentável

Esta revolução na forma como nos movemos nas cidades configura um carro do futuro como um device de mobilidade sustentável, desenhado para ser um integrador de serviços.

A nossa sociedade está em profunda transformação. Neste momento, assistimos à emergência de uma consciência generalizada de que o nosso planeta tem um limite e que temos pouco mais de uma década para reduzir drasticamente as emissões até à sua neutralização. De acordo com a Comissão Europeia, a mobilidade urbana representa 40% do total de emissões de CO2 originadas pelos transportes rodoviários, sendo que esta preocupação já ultrapassou as Nações Unidas e a União Europeia, passando, agora, pressão para os países, cidades, empresas e indústria até ao cidadão comum.

Na liderança desta transformação estão as novas gerações nascidas na época do digital e para quem o físico perdeu significado, sendo o acesso ao uso a nova forma de posse. Escolhem o rápido, o barato e o sustentável, abdicando da posse do transporte individual pelo acesso a um sistema de mobilidade urbana que responda, em cada momento, às suas necessidades através de uma aplicação no telemóvel. Esta é a lógica que está na base da transformação da mobilidade urbana que começou a ser pensada de forma integrada entre a mobilidade física, com a mobilidade de informação em torno de plataformas zero emissões, dando origem à mobilidade elétrica e depois à mobilidade como um serviço, com exemplos que começaram a surgir como a Uber ou mesmo o MobiCascais (todos os serviços de mobilidade numa única plataforma).

Esta revolução na forma como nos movemos nas cidades configura um carro do futuro como um device de mobilidade sustentável, desenhado para ser um integrador de serviços (Device as a Service). Trata-se de um objeto de mobilidade física zero emissões, cuja interatividade é baseada na integração entre redes de objetos e redes sociais, permitindo interação em tempo real com outros veículos (V2V), os seus utilizadores (V2User) e a cidade (V2X). Tal implica uma profunda transformação de toda a cadeia de valor do automóvel, que se estende do desenvolvimento até à operação, liderada pelos serviços de mobilidade, com oportunidades para novos atores focados nas funções do veículo e nas tecnologias subjacentes. Nesta (r)evolução surge, ainda, a oportunidade para integradores (device makeres) como agregadores de tecnologias (sistemas base e funções avançadas), que integram verticalmente o seu negócio com a operação dos veículos.

Esta é, também, uma oportunidade para desenvolver uma indústria portuguesa de nova geração, através da evolução da base tecnológica e industrial nacional que tem vindo a trabalhar no automóvel e noutros setores adjacentes, como é o caso das tecnológicas e da energia. Para aproveitar esta oportunidade é necessário apostar na especialização em áreas como tecnologias avançadas para novas arquiteturas; interiores interativos e funcionais; funções autónomas; sistemas de carregamento ou sistemas de conectividade. É ainda determinante apostar na diversificação para novos modelos de negócio, apoiando empresas nacionais com condições para evoluírem como integradores capacitados para operar serviços de mobilidade de nova geração.

Portugal, que foi o primeiro país a criar uma rede de carregamento interoperável para veículos elétricos de âmbito nacional, pode ser agora uma referência na descarbonização das cidades, através da indução de programas estruturantes na indústria automóvel que promovam uma mobilidade cada vez mais conectada, integrada e sustentável a partir do nosso país para o mundo, com impactos significativamente positivos para o futuro do nosso planeta!

Helena Silva participa na conferência Academia Meets Auto-Industry, iniciativa promovida pelo Técnico Lisboa – Instituto Superior Técnico (IST) e pela Mobinov (cluster do setor automóvel) a 16 e 17 de maio, em Lisboa

A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico