Crítica

Jia e os tempos que mudam

Um excelente documentário que olha para o que fez de Jia Zhang-ke o cineasta que é.

O documentário de Walter Salles reflecte um genuíno amor pelo cinema de Jia Zhang-ke
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O documentário de Walter Salles reflecte um genuíno amor pelo cinema de Jia Zhang-ke

Inspirado abertamente pelos clássicos documentários da série francesa Cinéastes de notre temps, o documentário que o brasileiro Walter Salles (Central do Brasil, Pela Estrada Fora) dedica ao mestre contemporâneo chinês Jia Zhang-ke é francamente excelente. É, coisa rara, um filme que funciona tanto para os recém-chegados ao cinema de Jia como àqueles que acompanham o cineasta desde a sua estreia em Portugal com a sua segunda longa, Plataforma — usando de maneira inteligente, quase orgânica, excertos da sua filmografia para ilustrar ou comentar os depoimentos reunidos (seus ou de colaboradores regulares). Um Homem de Fenyang usa precisamente como “centro nevrálgico” a cidade natal do cineasta, Fenyang, onde Jia situou (e rodou) os seus filmes iniciais, e retrata-o como alguém indelevelmente moldado pela “mudança de paradigma” da China moderna, pelo modo como a sociedade comunista “perfeita” se abriu ao capitalismo e ao consumismo, mas apagando nesse processo os traços de memória do passado.