Assessor de Costa: “Nunca tive qualquer conversa com o primeiro-ministro sobre Tancos”

O jurista Rui Pereira vai ser ouvido na comissão. Já não Aguiar-Branco, Eduardo Cabrita e Francisca Van Dunem, um ex e dois actuais ministros.

Foto
O vice-almirante Montenegro no Parlamento LUSA/TIAGO PETINGA

A frase foi sonora e parece surreal. “Nunca tive qualquer conversa com o primeiro-ministro sobre Tancos”, disse esta terça-feira o vice-almirante José Alfredo Montenegro, que na altura do roubo era assessor militar de António Costa.

“Presumo que o primeiro-ministro estivesse confortado com a informação que lhe desse o ministro da Defesa Nacional”, justificou aos deputados da comissão de inquérito. O vice-almirante Montenegro disse mais. “Tive o cuidado de não andar para aí a fazer perguntas, porque poderia ser interpretado como a mando do primeiro-ministro, o que não correspondia à realidade”, admitiu.

O quadro traçado era simples. Nas salas do poder, o assalto a Tancos não era tema de preocupação. Mesmo para um militar e tratando-se de uma pouca normal, mesmo excepcional, questão: um assalto a um paiol.

Tancos é tema poliédrico: há o roubo, em 28 de Junho de 2017, e o achamento a 18 de Outubro do mesmo ano de parte do material; temos a Procuradoria-Geral da República versus a Polícia Judiciária Militar (PJM); tudo sobre um pano de fundo de desconfiança dos militares face ao poder civil democraticamente constituído, a ponto de a irreverência castrense não respeitar a lei.

Apurada a verdade após a Operação Húbris, com a acusação de encenação, o assessor militar que viveu os acontecimentos arrisca a análise a posteriori. “Houve uma recuperação a que se recorreu por uma encenação através de uma denúncia anónima”, diagnosticou na sala 6 das audições de São Bento. “Fiquei muito satisfeito com o aparecimento do material, a principal preocupação era a recuperação, que não andasse por aí à solta material perigoso”, afirma. Já a forma peculiar do achamento só foi colocada com as detenções do director-geral da PJM, coronel Luís Vieira, do seu porta-voz, major Vasco Brazão, de outros oficiais e sargentos daquela polícia, bem como da Guarda Nacional Republicana.

Sobre a reunião convocada por António Costa com as chefias militares de 11 de Julho de 2017, o vice-almirante Montenegro descreveu o encontro. “O primeiro-ministro falou com os chefes militares sobre as condições de segurança de cada um dos ramos e das medidas que eventualmente fossem necessárias”, precisou. Foi então revelado que parte do material, as granadas, estavam inoperacionais para a actividade do Exército, estavam nos paióis para serem abatidas ou servir para práticas dos sapadores de Engenharia.

Esta declaração, admitiu em resposta ao deputado Jorge Machado, do PCP, poderia ter um objectivo tortuoso. De desvalorizar no mercado o material que os ladrões queriam vender, seguindo a lógica de que falta de qualidade equivale a menor preço, e colocando-lhes o problema de não se livrarem da mercadoria.

As questões levantadas pelos deputados esta terça-feira não tiveram a consistência provatória que implicasse o gabinete do primeiro-ministro, como pretendido pela oposição. Mas também as respostas do assessor não tranquilizaram sobre o modus operandi governamental perante situações de risco. Como se a fleuma campeasse.

Os deputados decidiram ainda convocar a uma audição o jurista Rui Pereira, autor de um parecer que confiava poderes à PJM para investigar o caso, e desmobilizaram as previstas comparecências do ex-ministro da Defesa Aguiar Branco e dos actuais titulares da Administração Interna, Eduardo Cabrita, e da Justiça, Francisca Van Dunem.

Sugerir correcção