Sudaneses celebram deposição de Bashir, mas rejeitam governo militar

Intervenção do Exército afasta Omar al-Bashir, que liderava o Sudão desde 1989. Conselho militar vai governar o país durante dois anos, mas manifestantes opõem-se.

,Twan Huys
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Milhares de pessoas festejam a deposição de Bashir em Cartum, capital do Sudão Reuters/STRINGER

Ao fim de três décadas no poder, o ditador do Sudão, Omar al-Bashir, foi deposto e preso pelo Exército, que anunciou a abertura de um ciclo de “transição política”. Mas para os milhares de manifestantes que precipitaram a queda de um dos homens-fortes de África o dia da sua saída deixou um amargo de boca e inaugurou um período de enorme incerteza.

A confirmação do afastamento do líder autoritário surgiu através do “número dois” do regime, o vice-Presidente e ministro da Defesa, Awad Mohamed Ahmed Ibn Auf, numa muito aguardada declaração televisiva. Auf fez igualmente uma série de anúncios, entre os quais a declaração do estado de emergência com imposição de recolher obrigatório, a suspensão imediata da Constituição, a formação de um “conselho militar” para governar o país durante um período de dois anos, após os quais serão marcadas eleições presidenciais.

O ministro confirmou ainda a libertação dos presos políticos – que segundo alguns relatos começou a acontecer horas antes – e o encerramento do espaço aéreo e dos portos por 24 horas. Sobre o paradeiro de Bashir, que é acusado de crimes contra a humanidade e genocídio pelo Tribunal Penal Internacional, Auf apenas disse que o ex-Presidente se encontra num “local seguro”. Os militares também invadiram a sede do Movimento Islâmico, uma organização criada por Bashir para alargar a base de apoio do seu Partido do Congresso Nacional.

Fazendo eco de muitas das preocupações dos manifestantes, Auf disse que as forças armadas estavam “há muito tempo a observar o que se tem passado no Estado e a corrupção”. “Os pobres estão mais pobres e os ricos continuam ricos e, portanto, não há as mesmas oportunidades para as pessoas”, declarou o chefe da hierarquia militar.

Protestos continuam

Várias horas antes de ter sido confirmada, já as ruas de Cartum e de outras cidades se enchiam de pessoas a celebrar a queda de Bashir. As agências noticiosas descreviam dezenas de milhares de pessoas a cantar e a dançar, enquanto outras desfilavam de carro a buzinar.

Porém, o júbilo dos manifestantes que há vários dias acampavam em torno da sede do Ministério da Defesa, onde é a residência do Presidente, depressa foi substituído pelo protesto. A formação de um governo militar para tutelar o país foi de imediato rejeitado pelos organizadores da manifestação, que receiam a substituição de um autoritarismo por outro.

“Não aceitamos um governo do Exército nos próximos dois anos. O regime continua o mesmo, apenas cinco ou seis pessoas foram substituídas por outras cinco ou seis pessoas de dentro do regime”, afirmou, citado pelo Guardian, o porta-voz da Associação Sudanesa de Profissionais, Ahmed al-Montasser, umas das organizações na linha da frente dos protestos contra Bashir. Ao fim de uns dias mais históricos no Sudão, entre os manifestantes a ideia dominante era a de persistir nas ruas.

A situação de Bashir tornou-se insustentável depois de meses de protestos, com origem na subida dos preços do pão, que culminaram nos últimos dias com um acampamento nas proximidades de um quartel do Exército. A repressão levada a cabo pelas Forças de Segurança Rápida, uma unidade militar leal a Bashir, deixou mais de 20 mortos e o Exército acabou por sair em defesa da população.

O episódio tornou a deposição de Bashir bastante provável e a pressão das ruas aumentou de intensidade. Mas o movimento que precipitou o fim do regime não deseja um governo de militares. “A geração que lidera a insurreição nasceu e cresceu durante os 30 anos do regime de Bashir”, observa o investigador do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos da Universidade de Essex, Andrew Tchie, num artigo no site The Conversation. “Os manifestantes são sobretudo jovens profissionais que foram directamente afectados pelas políticas de islamização e arabização do regime”, acrescenta.

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