Presidente do Sudão deposto pelo Exército, que assumiu o poder

A Constituição foi suspensa, o país está sob estado de emergência e foi formado um conselho militar para governar o Sudão. Manifestantes recusam junta militar e querem manter protestos.

Omar al-Bashir está no poder desde 1989
Fotogaleria
Omar al-Bashir está no poder desde 1989 Reuters/Mohamed Nureldin Abdallah
Fotogaleria
Sudaneses comemoram saída de Bashir Reuters/STRINGER
,Golpe de Estado de 1989
Fotogaleria
Milhares de sudaneses têm-se manifestado nas ruas contra Bashir Reuters/STRINGER
Fotogaleria
Reuters/SOCIAL MEDIA
Fotogaleria
Reuters/STRINGER
Fotogaleria
Reuters/STRINGER
Fotogaleria
LUSA/STR
Fotogaleria
LUSA/STR

O Presidente do Sudão, Omar al-Bashir, no poder há quase 30 anos, foi afastado pelos militares e detido esta quinta-feira depois de meses de protestos.

O ministro da Defesa, Awad Mohamed Ahmed Ibn Auf, anunciou o fim do “regime” e a detenção de Bashir, numa declaração transmitida em directo pela televisão. A Constituição foi suspensa e vai ser formado um conselho militar para gerir o país durante um “período de transição” que irá durar dois anos, ao fim dos quais serão marcadas eleições, explicou o ministro.

O espaço aéreo foi encerrado por 24 horas e foi instaurado o estado de emergência por três meses. A mensagem do ministro da Defesa era aguardada com muita expectativa há várias horas, desde que começaram a circular rumores sobre a detenção de Bashir. Nas ruas de Cartum desde as primeiras horas da manhã que milhares de pessoas festejam a queda do ditador que governou o Sudão durante 30 anos.

O ministro não revelou onde é que Bashir se encontra, apenas dizendo estar num “local seguro”. A agência Reuters avançava horas antes que Bashir está detido no palácio presidencial, “sob forte escolta armada”.

A reacção imediata dos organizadores dos protestos que precipitaram a queda de Bashir foi de oposição à solução encontrada pelos militares. A Associação de Profissionais Sudaneses, que tem encabeçado as manifestações, recusou a instalação do conselho militar e manteve os apelos para que os protestos continuem, segundo uma fonte anónima citada pela Reuters.

Dois golpes

Segundo o site Sudanese Tribune, os militares avançaram para travarem um outro golpe de Estado que estaria em curso, liderado por oficiais islamistas em conjunto com os serviços secretos e a milícia do partido no poder, conhecida como Segurança Popular.

O ministro da Produção e dos Recursos Económicos no Darfur do Norte, Adel Mahjoub Hussein, disse ao canal Hadath TV, do Dubai, que “há negociações em curso para a formação de um conselho militar que vai assumir o poder após a saída do Presidente Bashir”.

Segundo o investigador sudanês Nile Nomad, as embaixadas do país já receberam a notificação de que Omar al-Bashir já não é o Presidente do Sudão, e que devem aguardar novas instruções.

A jornalista sudanesa Reem Abbas disse no Twitter que estão a ser libertados prisioneiros na cadeia de Kober, onde estão os presos políticos relacionados com a questão do Darfur. E onde, segundo os activistas sudaneses e as organizações de defesas dos direitos humanos, os detidos são sujeitos a tortura.

O Exército colocou soldados em redor do Ministério da Defesa e nas principais estradas e pontes de Cartum, à medida que milhares de pessoas se deslocavam para junto do edifício do ministério.

Dezenas de milhares de sudaneses celebram nas ruas da capital a saída do poder de Omar al-Bashir e o fim do seu regime, que governa o país desde Junho de 1989, quando liderou um golpe de Estado militar contra o Presidente eleito democraticamente, Sadiq al-Mahdi.

Militares invadem sede do Movimento Islâmico

A agência Reuters avança que a sede do Movimento Islâmico, liderado por Omar al-Bashir, foi também tomada pelos soldados sudaneses.

O Movimento Islâmico foi criado pelo Partido do Congresso Nacional, no Governo, na sequência da divisão ocorrida em 1999 com o seu antigo líder, Hassan al-Turabi, que formou o Partido do Congresso Popular.

O movimento foi criado para alargar a base de apoio à orientação islamista do Partido do Congresso Nacional e para juntar no seu seio os grupos radicais.

É controlado pelo partido no poder e teve como líder, entre 2004 e 2012, o vice-presidente do Partido do Congresso Nacional, Ali Osman Mohammed Taha.

O site Sudanese Tribune diz que os comandos militares em redor da capital, e em outros estados do país, foram informados de que as forças armadas assumiram o poder e que vão formar um conselho militar para gerir o país.

O mesmo site diz que os militares avançaram para travarem um outro golpe de Estado que estaria em curso, liderado por oficiais islamistas em conjunto com os serviços secretos e a milícia do partido no poder, conhecida como Segurança Popular.

Segundo o canal Al-Jazira, os militares detiveram o antigo vice-presidente do Sudão Ali Osman Taha e também o actual líder do Partido do Congresso Nacional, Ahmed Haroun, entre outros líderes islamistas.

Acusado pelo TPI

Em 2009, Bashir tornou-se no primeiro Presidente em exercício a ser acusado pelo Tribunal Penal Internacional – por liderar uma campanha de violações, morte e pilhagens contra civis no Darfur.

Em Março de 2009, o procurador-chefe do TPI na altura, Luis Moreno Ocampo, acusou Bashir de ser responsável por cinco crimes contra a humanidade (assassínios, extermínio, transferências forçadas, tortura e violações) e dois crimes de guerra (pilhagens e ataques intencionais contra civis) cometidos no Darfur desde 2003.

Em 2010, o TPI reforçou a acusação contra o Presidente sudanês com o crime de genocídio, considerando que há provas de que ele planeou e implementou a destruição dos três principais grupos étnicos – Fur, Masalit e Zaghawa – através de uma campanha de violações, assassínios e deportações.

Numa reacção perante os seus apoiantes, em 2009, Bashir disse que o TPI “podia comer” o mandado de captura.

Quem é Omar al-Bashir

Bashir, um antigo pára-quedista que tomou o poder num golpe de Estado sem violência, em 1989, tem conseguido sobreviver a inúmeras crises internas e às tentativas externas de o enfraquecer.

O Sudão tem sofrido longos períodos de isolamento internacional desde 1993, quando os EUA acrescentaram o Governo de Bashir à sua lista de patrocinadores do terrorismo por proteger militantes islamistas. Quatro anos mais tarde, em 1997, Washington aprovou sanções contra o regime sudanês.

Depois disso, o Presidente sudanês conseguiu evitar a sua captura na sequência do mandado do TPI, em 2009 e 2010.

A crise mais recente foi interna, com a escalada dos protestos contra ele nas ruas da capital. Milhares de sudaneses têm exigido a sua saída do poder junto ao Ministério da Defesa, em Cartum, local da residência do Presidente sudanês.

Na terça-feira houve confrontos entre o corpo de segurança de Bashir e os soldados que tentavam proteger os manifestantes. Pelo menos 11 pessoas morreram, incluindo seis elementos das forças armadas, segundo um relatório da polícia local.

Os protestos contra Bashir começaram no dia 19 de Dezembro, depois de o Governo ter anunciado aumentos no preço do pão e na sequência de uma crise económica que provocou escassez de combustíveis e uma perda do poder de compra.

A oposição apelou aos militares para negociarem a saída de Omar al-Bashir, ao fim de quase três décadas de poder, e para liderarem uma transição democrática.