As universidades e as empresas estão numa relação complicada. Pode tudo resumir-se a isso?

Os problemas de comunicação foram dos mais apontados por empresários que, esta terça-feira, participaram na Convenção Nacional do Ensino Superior 2020-2030.

António Costa participou na sessão de abertura da convenção na Universidade do Porto
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António Costa participou na sessão de abertura da convenção na Universidade do Porto LUSA/ESTELA SILVA

Quando Cristina Freire, directora da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, pediu para colocar uma pergunta ao painel de empresários que encerrou a sessão da manhã desta terça-feira da Convenção Nacional do Ensino Superior 2020-2030 dedicada ao tema “As Universidades e a Valorização do Conhecimento”, não se adivinhava que o exemplo que ali trazia seria um resumo perfeito das dificuldades que as instituições do ensino superior e as empresas têm enfrentado ao longo dos anos na sua tentativa de relacionamento.

Antes, os presentes na Reitoria da Universidade do Porto tinham ouvido o primeiro-ministro António Costa garantir que o Governo é “ambicioso” e quer continuar a investir na ciência e na inovação, prometendo, para isso, “aprofundar o processo de descentralização [do futuro quadro comunitário de apoio] que irá privilegiar a produção de conhecimento e a sua transferência para o tecido produtivo.” Sem anunciar qualquer medida concreta, o governante assumiu no discurso uma postura que parecia ir totalmente ao encontro do que reclama o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP), promotor da conferência. Munido de vários números, o primeiro-ministro lembrou que o ensino superior tem “hoje mais 15 mil estudantes” do que em 2015, que o investimento que tem sido feito aproxima o país “da meta fixada para 2030: a despesa em investigação e desenvolvimento corresponde a 3% do PIB [Produto Interno Bruto]” e que as bolsas de doutoramento “aumentaram de 971 em 2015 para mais de 1600 em 2018 e 2019”.

E, sim, o primeiro-ministro assumiu o que é também a posição do CRUP sobre a relação entre as universidades e as empresas: “Temos de apostar numa economia de conhecimento, da ciência e da inovação que nos permita ganhar em valor, produtividade e competitividade”, disse António Costa, acrescentando: “Não devemos ter medo de promover uma estreita colaboração entre o ensino superior e as empresas no desenho da oferta e na sua implementação, promovendo a aprendizagem em contextos fora da sala de aula. Não devemos ter medo da colaboração no ensino, nem devemos ter hesitações quanto à colaboração na investigação e inovação.”

O problema – percebeu-se já depois de António Costa deixar a sala – é que essa colaboração tem problemas de relacionamento fortes. Ou, como resumiu João Amaral, da Sonae MC: “O grande problema é nenhum dos lados estar a dedicar tempo suficiente para conseguir uma relação duradoura.” É que, dissera momentos antes: “As pessoas casam, mas é depois de namorarem.” As dificuldades nesse relacionamento pré-casamento descreveu-as Cristina Freire, que é também co-fundadora da empresa de base tecnológica Innovcat, uma spin-off da Universidade do Porto (UP).

“Recebemos muitos contactos de empresas para fazermos alguma prestação de serviços. Geralmente, põem um problema vago e querem um orçamento para aquela prestação de serviços. Pedem-no para ontem e levam um mês a responder. E aí precisam de mais informação. Refazemos o orçamento. Concluem que precisam de uma reunião”, explicou. E o processo ainda vai a meio. Mais do que uma vez, afirmou, pergunta-se às empresas se querem “um protocolo de confidencialidade”, para que sejam mais claras sobre o que pretendem. A investigadora diz que recusam sempre, mas continuam a libertar a informação sobre o que pretendem de forma lenta, e sempre queixando-se que os orçamentos são muito elevados. E demoram muito a responder. “Por que é que quando contratam não dizem logo o que pretendem?”, questionou.

Ângelo Ramalho, CEO da Efacec, deu-lhe a resposta: “Porque não sabemos o que queremos. Quantas vezes não sabemos o que queremos, não sabemos colocar questões, gerir expectativas, calendários. É uma forma desestruturada de desenvolver uma relação.”

Tema já era discutido há 25 anos

A evidência de que as universidades e as empresas estão numa relação complicada – o tema já era discutido há 25 anos, quando um dos empresários deixou o ensino superior – poder-se-ia ficar por aqui, mas ficou também muito clara quando o moderador do painel “A relação das empresas com a universidade no processo de inovação”, António Filipe, da Symington Family Estates, pediu aos participantes para, em 30 segundos, dizerem que medida incluiriam na agenda de uma nova estratégia para o ensino superior. João Amaral sugeriu a criação de “um market place do conhecimento”, porque, afirmou, “ter de interagir com dez universidades é muito difícil, quase impossível”. Paulo Nunes de Almeida, da Associação Empresarial de Portugal (AEP) pediu “um grande encontro anual entre universidades e indústria/empresas, com factos e exemplos concretos de cooperação”. Ângelo Ramalho aconselhou as instituições de ensino superior a “desenvolver competências novas de promoção das suas actividades junto das empresas”.

Só Fernando Sousa, da Associação dos Industriais Metalúrgicos Metalomecânicos e Afins de Portugal (AIMMAP), e Alexandre Marques, da ZF, apontaram ideias que fugiam a um problema de comunicação. O primeiro sugeriu “mecanismos para premiar grupos académicos que valorizem o trabalho com empresas” e o segundo uma maior capacidade “de descentralização, com mais autonomia para as universidades e mais agilidade”.

Uma sugestão que ia ao encontro do que defendera o reitor da UP, António de Sousa Pereira, ao alertar António Costa para “os constrangimentos financeiros e burocráticos a que o ensino superior tem sido sujeito”, pedindo “um quadro mais favorável à actividade das universidades, com a estabilização da legislação que lhes é aplicável e a definição de um novo modelo de financiamento.”

Contratação de pessoas

Mas, no mundo empresarial, a questão do financiamento parece um problema menor neste relacionamento. Paulo Nunes de Almeida disse mesmo que num inquérito recente realizado aos associados da AEP, sobre os constrangimentos ao desenvolvimento da competitividade, as questões de financiamento desapareceram do “Top 5” das preocupações, aparecendo, pela primeira vez, “a questão de contratação de pessoas e de pessoas qualificadas”. “Um bom sinal” – disse –“porque mostra que os empresários percebem que a alteração do paradigma vai ter de passar pelas pessoas com quem trabalham.”

A vontade para colaborar mais com as instituições do ensino superior está aí, garantem os empresários. E do lado da universidade, o interesse em levar mais dos seus elementos para o tecido empresarial também existe. Fica a dúvida sobre se no fundo, no fudo, será preciso muito mais do que uma boa terapia de casal.