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Retirar o plástico dos oceanos, um par de sapatilhas de cada vez

De Lisboa “para os quatro cantos do mundo”, a Ircycle aproveita o plástico dos oceanos para fazer sapatilhas. São quatro modelos com milhões de possibilidades de personalização para quem quer mudar o mundo a começar pelos pés.

O plástico pode não ser o primeiro material que vem à cabeça quando pensamos no fabrico de sapatilhas. Mas um casal de Lisboa conseguiu aproveitar o plástico recolhido dos oceanos para o mercado do calçado. E o ambiente agradece.

O conceito surgiu na mente de André Facote depois de ver o documentário A Plastic Ocean na Netflix. “Tinha ideia que era um problema grave, mas não tinha ideia da sua dimensão”, conta o empresário de 35 anos. Aproveitando um convite para a Web Summit, que decorreu em Novembro, André e a mulher Andreia Coutinho começaram a dar forma ao plano — fazer sapatilhas a partir de plástico recolhido dos oceanos e com outros materiais sustentáveis. “A Web Summit serviu para testar”, revela o fundador. E deu-lhes um empurrão: “O feedback foi muito bom, fizemos muitos contactos e tivemos alguma exposição mediática também.”

O plástico que dá origem às sapatilhas Ircycle é recolhido no mar e nas praias por um grupo de pescadores espanhóis que envia os resíduos para uma fábrica em Espanha. Aí, é transformado em fibra e segue para Guimarães, onde é convertido num material têxtil. Após esta etapa, uma fábrica em São João da Madeira trata da produção do calçado. Feita a encomenda, o par chega às mãos do cliente em menos de duas semanas.

Foram desenhados quatro modelos de sapatilhas, mas para já apenas dois estão disponíveis. Os modelos Ocean e Pure retiram inspiração das Stan Smith da Adidas e foram criados para serem usados “de forma mais casual ou formal, mediante a combinação de cores e materiais”. São praticamente iguais, excepto na sola, que é mais alta nos Ocean. O terceiro modelo, Sea, “é um bocadinho mais desportivo, uma sapatilha ao estilo das Nike Air Max”, e será desvendado algures durante este mês. Por fim, os Scuba, que serão apresentados em Junho, destinam-se a um uso mais formal e têm a forma de bota.

No entanto, a escolha não se esgota nestas quatro opções — a personalização é uma das assinaturas destas sapatilhas. O cliente pode escolher as cores, da sola aos atacadores de algodão orgânico e reciclado, e todos os materiais: para além do plástico, pode ser utilizada fibra de folha de ananás. “Até ao final do ano queremos chegar aos 100 milhões de possibilidades”, sublinha o fundador. A fibra de ananás permite uma palete cromática mais variada, mas o plástico ainda se limita ao preto e ao branco, o que em breve vai mudar. Vão ser oferecidas mais cores, para haver ainda mais combinações.

Para já, o site da Ircycle está em inglês para fazer a ponte com o mercado mundial. Mas o projecto não foge do país que o acolhe. Cerca de 60 a 70% das encomendas partem de Portugal, o “maior mercado” da startup. Os Estados Unidos são o segundo principal destino, seguindo-se Brasil, Espanha e Itália. “Agora com este negócio parece que as portas se abriram e é um novo mundo para nós. (...) De um dia para o outro passamos para os quatro cantos do mundo”.

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Modelo Ocean Ircycle

Os dois primeiros modelos de calçado Ircycle estão à venda por cerca de 95 euros, independentemente da escolha dos materiais e cores. Os próximos devem rondar o mesmo valor. “É tudo feito em Portugal, e só tendo o carimbo made in Portugal já tem um custo superior”, diz André. “Portugal é conhecido como um dos países que produz um dos melhores calçados do mundo. E nós sabemos que a qualidade também tem um custo.”

A Ircycle não planeia ficar por aqui — depois do calçado, pode vir a apostar no vestuário já no próximo ano. “Nós com o têxtil conseguimos fazer tudo – cuecas, meias, braceletes de relógio, roupa, biquínis, calções de banho, tudo.” O próximo passo, revela o fundador, é uma linha de fato de banho que ainda está na fase de protótipo, a ser desenhada. “É uma ideia que está no papel porque isto está a andar tão rápido que temos que nos focar”, comenta. “Temos que nos focar primeiro no que está a acontecer e depois começarmos então a divergir.”