A “paixão e o esforço” das danças de Rabo de Peixe que este ano também abanam o Tremor

©Rubén Monfort
Fotogaleria
©Rubén Monfort

A tradição é centenária e ninguém “sabe ao certo como começou”. Rubén Monfort, de 31 anos, conheceu-a apenas em 2017, quando foi convidado por um amigo natural de Rabo de Peixe, uma vila piscatória nos Açores, para ir ver as danças tradicionais locais conhecidas como "despensas". Nascido em Benicarló, uma “pequena vila” entre Barcelona e Valência, o fotógrafo ficou “totalmente assombrado” quando visitou o Bairro dos Pescadores no primeiro fim-de-semana das Festas do Espírito Santo e quis lá voltar no ano seguinte para documentar “todo o processo”. O trabalho fotográfico que de lá saiu vai ser exposto no Tremor, festival que começa esta terça-feira, 9 de Abril, em São Miguel.

“Uau, de onde saiu isto?”: foram as palavras proferidas por Rubén, quando viu as celebrações pela primeira vez. Protagonizadas por agrupamentos de 15 a 20 homens, com castanholas, acordeões, violas e violinos, as danças aludem às principais actividades dos residentes da vila, ou seja, à pesca e à agricultura. No primeiro fim-de-semana das Festas do Espírito do Santo, que começam por alturas da Páscoa, dançam-se as despensas do Mar; no seguinte, as despensas da Terra. Apesar de poderem ser dançadas em inúmeras ocasiões durante todo o ano, é nesta altura que os rabo-peixenses saem à rua para dançar e cantar cantigas tradicionais: um momento de “envolvência brutal da comunidade”, nas palavras de Rubén. Antes das apresentações, há toda uma “superprodução” que o fotógrafo também quis captar: “Comecei a trabalhar em Janeiro de 2018 e consegui entrevistas com cada um dos representantes. Queria seguir o processo de toda a festa, não apenas o dia das apresentações.”

Acompanhou ensaios, churrascos que antecedem a festa, “a loucura que a preparação implica”. “Cada despensa tem uma sede, que é a casa de um dos participantes” e é lá que se reúnem as mulheres para preparar comida, explica Rubén. Os agrupamentos vão dançando “sem ordem nenhuma pelas casas das outras despensas”, que estão abertas e apetrechadas com comes e bebes para “todo o mundo”: “Bebem, comem e dançam até altas horas durante três dias”, relata o fotógrafo.

Em São Miguel há cinco anos, Rubén envolveu-se na organização do Tremor desde a sua primeira edição, em 2014. Este ano tem a sua primeira exposição individual de fotografia na Casa da Irmandade do Espírito Santo da Beneficência, que pode ser visitada até 12 de Maio todos os sábados, em que retrata a tradição de Rabo de Peixe. A apresentação funciona como um complemento do espectáculo surpresa das despensas de Rabo de Peixe que integra a programação do festival — não se sabe ainda quando ou onde, mas um grupo local vai dançar ao som dos espanhóis ZA!. As suas imagens não seguem “pautas” e querem transmitir “a paixão e o esforço”, a festa e os seus momentos: “Isto envolve milhares de pessoas e é algo novo em todos os lugares.”

“Para eles, aquela tradição é super importante, também por causa da devoção religiosa”, explica o fotógrafo. Ainda que “milhares de pessoas por aí não conheçam”, há vontade por parte da comunidade de se dar a conhecer. “A despensa que vai fazer a residência artística no Tremor tem muita vontade de levar isto para fora” e dar continuidade à tradição, que começa desde cedo a ser transmitida e a envolver os mais novos. Rubén acredita que, ainda que os habitantes sejam “incríveis e amáveis”, há um preconceito em relação à vila piscatória. E as suas fotos são uma maneira de devolver o que lhe foi dado pelas pessoas de Rabo de Peixe.

©Rubén Monfort
©Rubén Monfort
©Rubén Monfort
©Rubén Monfort
©Rubén Monfort
©Rubén Monfort
©Rubén Monfort
©Rubén Monfort
©Rubén Monfort