Apresentou-se um sobressalto açoriano chamado Tremor

A música foi aquilo que tudo uniu em Ponta Delgada. Uniu público e artistas, uniu bares, associações e galerias. Chama-se Tremor e é um festival de música nova portuguesa. É também uma manifestação de vitalidade. O desejo de fazer acontecer. Este fim-de-semana foi só o começo.

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Concerto de Jorge Coelho, dos Torto, no Ateneu Criativo Rui Soares
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O homem-orquestra Noiserv esgotou o Teatro Micaelense Rui Soares
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Miguel Nicolau e Jorge Queijo Rui Soares
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O rock mutante dos Torto fez-se ouvir na Arco 8 Rui Soares

E é então que ele exclama: “Venha o Tremor, venham vulcões!” Carlos Sá, gerente da histórica loja de roupa Londrina, está a ajudar a montar o equipamento de som para o que se seguirá. “O comércio está muito mau”, diz. “Mas nos últimos anos começaram a aparecer alguns espaços neste triângulo aqui no centro histórico”. Aqui, em Ponta Delgada. “É óptimo ver estas iniciativas dos jovens”. E ele, entusiasmado, juntou-se à iniciativa. A meio da tarde de sábado, a Londrina teve casa cheia.

Enchente para ouvir as canções de Duquesa, ou seja, Nuno Rodrigues, vocalista dos Glockenwise, a solo: o coração aberto do Lennon precoce e o trautear juvenil de Buddy Holly, cantados entre dois manequins e perante uma loja repleta de gente. Sim, é óptimo ver “as iniciativas da juventude”. Como esta que é o Tremor, o festival co-organizado pela Yuzin, agenda cultural de São Miguel, e a editora e promotora Lovers & Lollipops, nascida em Barcelos.

Isto é, perdoem-nos o palavrão, empreendedorismo à séria. Fazer acontecer. Entre as 17h de sábado e a madrugada seguinte, algo aconteceu sob o céu nublado e a chuva miudinha que caiu sobre Ponta Delgada. Algo aconteceu no Teatro Micaelense, esgotado para acolher as canções outonais do homem-orquestra Noiserv. Algo foi acontecendo desde que, ao início da tarde, a Galeria Fonseca Macedo, casa de arte contemporânea inaugurada em 2000, testemunhou o encontro entre Jibóia, ou seja, o lisboeta Óscar Silva, experimentalista do rock enquanto transe vindo do oriente, e Filho da Mãe, o guitarrista que nos ofereceu em 2013 esse álbum magnífico chamado Cabeça.

Na Galeria Fonseca Macedo, entre as telas actualmente em exposição do pintor micaelense Urbano, recriação moderna da estética dos retábulos renascentistas, dois músicos frente a frente para improvisar algo novo. “É importante libertar a arte dos espaços institucionais. Fazer a conexão com as gentes e com as cidades e procurar olhares não contaminados”, dizia horas depois Federico Lamas, ilustrador e videasta argentino que no âmbito do Tremor expôs no Ateneu Criativo, espaço que funcionou como sede não oficial do festival.

Parar não é opção

Ponta Delgada não tem o centro histórico invadido por turistas, não tem as suas praças repletas de gente aproveitando o fim-de-semana. Descendo do emaranhado de ruas estreitas até à marginal que acompanha a costa, vamos descobrindo diversos murais grafitados, erupção de cor e de vida nas austeras paredes e muros onde, entre o branco, impera o negro da rocha vulcânica. Os graffiti que marcam agora a paisagem citadina são reflexo do Walk & Talk, festival de arte urbana que se realiza em Ponta Delgada desde 2011.

A entrada do Arco 8, antigo armazém junto à rotunda de Santa Clara, na zona ocidental da cidade, está marcada por duas obras, dois rostos esculpidos por Vhils, o artista Alexandre Farto. Foi ali, no edifício que é agora bar e galeria, que se ouviu de madrugada o rock enquanto matéria sónica mutante dos Torto. Foi ali que, relógio aproximando-se das quatro da madrugada, Jibóia nos transportou para um qualquer território distante desta ilha atlântica. Com a ajuda da voz cativante, muito expressiva, de Sequin, que ouvíramos horas antes no Ateneu Criativo mostrar a sua pop electrónica de texturas densas, o público dançou como em ritual pagão, braços no ar, aqueles sons de uma Bollywood alimentada a rock psicadélico. Não precisou de mais que uma guitarra e um órgão de feira barato (dentro dele, um mundo de sons que não julgávamos possível).

António Pedro Lopes, da organização do Tremor, refere que a forma como o Walk & Talk interagiu com a cidade e contaminou a população acabou por servir de motivação para o Tremor. Num contexto de crise, encontram-se alternativas. Veja-se o Ateneu Criativo. Nasceu há pouco mais de um ano no coração de Ponta Delgada, num dos edifícios que compunham o vetusto Ateneu Comercial. Pelas suas salas dividem-se agora em espaço de concertos, de exposições, de tertúlias, e bar – é ali também que está instalada a redacção da Yuzin, fundada em 2010 pelo portuense Luís Banrezes, que chegou há sete anos aos Açores para ser jogador de hóquei em patins e jornalista da delegação regional da Antena 3, entretanto encerrada por questões financeiras.

Filipe Mota, um dos fundadores do Ateneu Criativo, explica por que, nos últimos dois anos, nasceram naquela zona central de Ponta Delgada espaços como o Ateneu, A Tasca ou a Travessa dos Artistas, todos eles pólos de dinamismo multi-funções. A falta de trabalho estimulou a procura de outras soluções, diz. E, além disso, havia a necessidade de dar espaço e visibilidade às novas gerações de artistas locais, que tinham dificuldade em aceder “aos pólos institucionais”. O Tremor surge como manifestação dessa actividade que germina. E, não por acaso, juntou-se à Lovers & Lollipops, editora e promotora independente que tem tido papel de relevo na detecção do pulsar da música portuguesa recente.

E a terra tremeu

Num pequeno café perto do Mercado, um homem dos seus 50 anos aproveita o intervalo do jogo de futebol que a televisão transmitia para falar de outras coisas. O amigo que acaba de chegar não sabe o que é o Tremor: “Como é que não sabes? Concertos em todo o lado. Tem sido uma maravilha desde o início da tarde”. De outra mesa, outro companheiro lança uma sugestão: “Às duas da manhã no Arco 8 é que vai ser. Acreditem no que digo”.

Às oito da noite já não achávamos estranho de ver aqueles homens, naquele café, discutir o Tremor. Já tínhamos visto vários concertos. Já tínhamos visto entre o público crianças curiosas com os delicados instrumentais de Gonçalo, membro dos Long Way To Alaska, na sala do ¾ Hostel. Já tínhamos visto a comunidade espanhola de Erasmus prestar atenção às digressões jazz rock dos locais Lulu Monde, ponte entre os Soft Machine, o Miles Davis de Bitches Brew e um Jimi Hendrix convertido ao rock progressivo.

E veríamos depois, noite alta, os Glockenwise em aceleração garage rock num concerto guerrilha na Baía dos Anjos, bar da marina, ou Filho da Mãe no cenário da belíssima igreja setecentista de Santa Bárbara.

Um dia de música nova, de música portuguesa que fervilha, livre e independente. Um dia de concertos feitos de proximidade, com o público olhos nos olhos com as bandas, ao alcance da mão. Não fosse o Tremor e nunca teríamos assistido ao encontro entre Miguel Nicolau, dos Memória de Peixe, e Jorge Queijo, baterista dos Torto, diálogo assombroso entre dois músicos mais interessados na força avassaladora do som que em demonstrações de virtuosismo.

Um dia antes do festival, a terra tremeu em Ponta Delgada. Um sismo de 4.9 na escala de Richter. Sem danos, para além de alguns acordares sobressaltados. Coincidência curiosa. Metáfora feliz. Porque o Tremor pretende ser algo semelhante: um sobressalto que frutifique. Para o ano, novo sobressalto. Com mais gente, com mais espaços, com a cidade a funcionar como centro para o qual podem confluir os dois lados do Atlântico – os organizadores manifestam esse desejo. Pôr Ponta Delgada a mexer (novamente).