Museu de Arqueologia vai mostrar como Portugal acompanhou a redescoberta de Pompeia

Numa parceria com o Palácio Nacional da Ajuda, o museu instalado nos Jerónimos está a preparar uma exposição que deverá ser inaugurada na Primavera de 2020. Com ela vamos perceber como e porquê ficou a Europa fascinada por este campo arqueológico.

Fotografias da visita da rainha D. Amélia a Pompeia, em 1903
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Fotografias da visita da rainha D. Amélia a Pompeia, em 1903 Cortesia: Palácio Nacional da Ajuda/DGPC

No final do Verão de 1974, a 16 de Setembro, era inaugurada na Fundação Gulbenkian a exposição Pompeia. Vida e Arte nas Cidades do Vesúvio. Tratava-se de uma mostra itinerante que há dois anos corria por várias cidades europeias e que em Lisboa ficou até 16 de Novembro. A exposição era acompanhada por um catálogo com vários textos a enquadrar historicamente a relevância dos sítios arqueológicos engolidos pela erupção do vulcão Vesúvio no ano 79. Mas a sua existência certamente passou despercebida por entre o frenesim da vida política e social do pós-25 de Abril de 1974.

Esta foi a última exposição realizada em Portugal relativa às escavações nas antigas ruínas de Pompeia e de Herculano, que tinham sido iniciadas em meados do século XVIII, sob o reinado de Carlos VII, rei de Nápoles (depois Carlos III de Espanha). Mas Portugal, e em particular a corte de Lisboa, acompanhou bem de perto a evolução dessas descobertas no leito da lava do Vesúvio. É isso que o Museu Nacional de Arqueologia (MNA) quer mostrar na exposição que está a preparar para o próximo ano e que deverá ter também um núcleo no Palácio Nacional da Ajuda — que, enquanto residência régia, foi de resto decorada segundo o modelo do Reggia di Caserta, o palácio que Carlos VII mandou construir nesta cidade da Campânia.

A nova exposição em Lisboa vem sendo preparada desde o ano passado, comissariada por Ricardo Estevam Pereira, arquitecto da equipa da Câmara de Sines, e António Carvalho, director do MNA, confirmou ao P2 a sua inauguração na Primavera de 2020, no mês de Março ou Abril, data avançada na sequência de uma reunião recente da Direcção-Geral do Património Cultural com a Embaixada de Itália.

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Pintura pompeiana no tecto da Sala do Corpo Diplomático do Palácio da Ajuda Cortesia: Palácio Nacional da Ajuda/DGPC

O objectivo da iniciativa, diz ainda António Carvalho, é “mostrar o impacto da descoberta de Pompeia e Herculano em Portugal no momento em que ela ocorreu, no século XVIII, e nos anos que se seguiram”. Assim, entre o MNA, em Belém, e o Palácio Nacional da Ajuda, a exposição vai reunir um corpus de bens culturais provenientes do Museu Arqueológico Nacional de Nápoles e do Parque Arqueológico de Pompeia. A eles serão acrescentados — e esta será a originalidade de uma iniciativa que não quer ser apenas “mais uma exposição com os testemunhos conhecidos de Pompeia”, nota Estevam Pereira — vários elementos, peças e documentos que mostram como em Portugal se acompanhou a descoberta da cidade romana sepultada pelo Vesúvio.

O comissário está a fazer o rastreio, em colecções públicas e privadas, de testemunhos coevos dessa época, como correspondência oficial — nomeadamente a que era endereçada para a corte de Lisboa por José António de Sá Pereira, 2.º conde de Anadia, que foi durante décadas ministro de Portugal em Nápoles —, relatos, livros, objectos de arte e de decoração.

Portugal não escapou, na altura, à atracção que as descobertas em Pompeia e Herculano motivaram nas elites culturais e sociais europeias. “Estas pessoas não se limitaram a visitar superficialmente estes lugares, mas trouxeram novos olhares e uma atitude crítica que souberam discutir com os responsáveis locais e que acabaram por redefinir a forma como as escavações, o registo dos achados e o seu estudo foram conduzidos”, diz o texto de apresentação da exposição, com o título provisório Pompeia, Uma Ideia Europeia.

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Peça do centro de mesa do 2.º conde de Anadia Cortesia: Palácio Nacional da Ajuda/DGPC

O comissário da exposição cita, a propósito, as intervenções do 2.º duque de Lafões, João Carlos de Bragança, fundador da Real Academia de Ciências, do arqueólogo e historiador de arte alemão Johann Joachim Winckelmann e do diplomata, arqueólogo e coleccionador britânico William Hamilton, além de muitos outros, sem cujas reflexões “certamente a imagem que temos de Pompeia não seria a mesma”.

Em sentido inverso, os achados desenterrados nas localidades a sul do Vesúvio foram determinantes na modelação de todo um imaginário neoclássico, não só em Lisboa mas em todo o país — “um gosto que foi muito desvalorizado pela nossa historiografia tradicional, que sempre valorizou mais aquilo que era historicamente patriótico e relativo à fundação da nacionalidade, aos Descobrimentos, ao Mosteiro dos Jerónimos”, realça Ricardo Estevam Pereira ao P2.

“As gazetas e as diversas obras impressas guardadas nas nossas bibliotecas revelam esta viagem das ideias: arquitectos, pintores, coleccionadores, entre outros, foram beber directamente às fontes antigas, recriando a partir delas atmosferas marcadas por uma busca da beleza ideal”, lê-se ainda na apresentação da exposição.

O arquitecto e investigador lembra que a corte portuguesa, em particular, acompanhou a evolução das escavações de Pompeia, desde os meados do século XVIII até à mediática viagem ao Mediterrâneo realizada em 1903 pela rainha D. Amélia e pelos seus filhos D. Luís e D. Manuel, que incluiu uma visita àquela estação arqueológica, de resto documentada no álbum de fotografia da monarca que o Palácio Nacional da Ajuda expôs entre Outubro de 2015 e Janeiro de 2016.

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Uma fotografia do álbum de fotografias da rainha D. Amélia Cortesia: Palácio Nacional da Ajuda/DGPC

A atestar essa atenção às marcas que do reino de Nápoles chegavam a Lisboa está, por exemplo, um álbum com gravuras e notícias dos achados, e que o rei de Nápoles oferecia aos embaixadores de diferentes coroas europeias. “Há livros absolutamente fabulosos, que são o mais mágico que o século XVIII produziu”, nota Estevam Pereira, citando o caso dos sucessivos volumes desse álbum que chegam à corte portuguesa, e que D. João VI levou inclusivamente para o Brasil. Essa colecção acabou por ficar no Rio de Janeiro, mas, refere o investigador, “a importância de Pompeia é tal à época que quando a corte regressa a Portugal volta a adquirir esses livros icónicos” — obras que hoje estão depositadas na Ajuda.

Há outra circunstância histórica que liga Lisboa a Pompeia: é o Terramoto de 1755. “A destruição causada por forças da natureza unia também as duas cidades: imagens do Vesúvio transbordando lava ameaçadora povoaram as pinacotecas, os objectos do quotidiano e os gabinetes de História Natural”, escreve ainda o comissário.

Este e outros temas vão ser tratados num conjunto de iniciativas paralelas à exposição, que incluirá, além de visitas guiadas, conferências, filmes, concertos e, espera o director do MNA, “um encontro científico sobre grandes catástrofes que destruíram cidades europeias”.