Warrior, ou a série que Bruce Lee deixou por fazer

Antes da sua morte, o ícone das artes marciais tinha proposto uma série que nunca passou do projecto. Quase 50 anos depois, Warrior chega à televisão pelas mãos da sua filha Shannon e de Justin Lin, o realizador de Velocidade Furiosa

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O actor inglês Andrew Koji interpreta a personagem principal Ah Sahm, criada por Bruce Lee em 1971 CINEMAX/HBO
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A canadiana Olivia Cheng interpreta a mais poderosa madame de Chinatown, uma das personagens que foi acrescentada à criação original de Bruce Lee,A canadiana Olivia Cheng interpreta a mais poderosa madame de Chinatown, uma das personagens que foi acrescentada à criação original de Bruce Lee CINEMAX/HBO
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As Guerras dos Tongs na São Francisco de 1878 são o pano de fundo de Warrior. Rich Ting e Jason Tobin (ao centro) são dois dos muitos actores de ascendência asiática no elenco CINEMAX/HBO

“É uma história que tem Bruce Lee a correr nas veias, que concretiza um objectivo que ele tinha estabelecido durante a sua vida: ser capaz de mostrar um retrato autêntico da sua cultura, das suas origens.” Shannon Lee tem três razões para ser tão peremptória em relação a Warrior. Primeira: é a filha daquela figura icónica das artes marciais, falecida em 1973, aos 32 anos de idade. Segunda: é a responsável pela gestão da herança do pai. Terceira: é a produtora executiva de Warrior, nova série televisiva que começa neste sábado (6) no serviço HBO Portugal (um dia depois da estreia americana no canal irmão Cinemax) e que se baseia numa história nunca filmada, escrita pelo seu pai em 1971.

No pico da sua popularidade como actor em filmes de artes marciais (mas antes da sua entrada pela porta grande em Hollywood com O Dragão Ataca, último filme que estreou em vida), Lee propôs uma série televisiva sobre um imigrante chinês na América do século XIX. Não conseguiu convencer as produtoras — embora a viúva de Lee tenha sempre defendido que Kung Fu (1972-1975), a popular série sobre um monge de Shaolin no velho Oeste, era um “decalque” do projecto do marido (Lee chegou mesmo a estar na corrida para o papel principal, que coube a David Carradine). 

E esse tratamento inédito, já então intitulado Warrior, está agora na origem da nova série de dez episódios (com esperança de que possa ter mais temporadas). Acompanha Ah Sahm (o actor inglês Andrew Koji), que chega em 1878 da China a São Francisco num período conturbadíssimo, com as guerras entre facções chinesas rivais a levar a cidade portuária ao rubro pelo meio de um forte movimento anti-imigração (paradoxalmente liderado pelos… imigrantes irlandeses).

Se a série tivesse chegado a ser feita em 1971, teria sido Lee a interpretar Ah — “porque o meu pai estava sempre à procura de um veículo para expressar o que ele achava ser a viagem interior de um praticante de artes marciais”, como diz Shannon Lee à imprensa internacional reunida nos escritórios nova-iorquinos da HBO. “E a acção não é apenas uma questão de espectáculo. É uma questão de vida e de morte. O meu pai sempre quis que cada golpe fosse sentido pelo espectador como algo que deixasse marca, que fosse visceral.”

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Da esquerda para a direita: Justin Lee, realizador de Velocidade Furiosa e produtor executivo; Shannon Lee, filha de Bruce Lee e produtora executiva; Jonathan Tropper, argumentista e escritor CINEMAX/HBO

Mantendo intacta a dimensão kung fu das cenas de acção, a trama foi retrabalhada e expandida pelo escritor e argumentista Jonathan Tropper (Banshee) e pelo realizador taiwanês Justin Lin, que tornou o franchise Velocidade Furiosa num fenómeno global de popularidade. Mas, aos jornalistas reunidos em Nova Iorque, Tropper explica que o essencial da série já estava todo definido no documento redigido por Lee há quase 50 anos. “Bruce Lee pôs a mesa mas tivemos de ser nós a fazer o jantar,” explica. “Foi ele que escolheu este período histórico, que criou esta personagem principal, o conflito interior que ela enfrenta. A política, a questão da imigração, a xenofobia e o racismo para com os asiáticos, isso já lá estava tudo. O que nós fizemos foi compreender esse mundo – pesquisá-lo, compreendê-lo, construí-lo e povoá-lo com todas as outras personagens.”

Warrior é mais um passo em frente para uma comunidade geralmente sub-representada no cinema e na televisão, mas que, recentemente, tem vindo a demonstrar o seu “peso”, com o êxito da sitcom Fresh Off the Boat (entre nós exibida nos canais Fox Comedy e Fox+) ou o sucesso fulgurante da comédia romântica Crazy Rich Asians (um dos maiores êxitos recentes da indústria americana, que ficou por estrear entre nós). “Em termos puramente práticos, é uma série que não poderia ter sido feita em nenhum outro momento da história,” como diz Justin Lin, também presente nos escritórios da HBO. “Há dez anos ninguém a quereria fazer! É um reflexo dos avanços que fizemos enquanto sociedade. Mas os problemas continuam a existir.” 

A filha de Lee confirma. “Os asiáticos ainda são vistos como «o outro», e não ajuda sermos uma população relativamente pequena na totalidade dos EUA. Ainda perguntam a amigos meus da segunda geração a nascer no país de onde é que são, ainda somos muito estereotipados como o cromo marrão ou a senhora da mercearia… Foi preciso que pessoas como o Justin alcançassem uma posição de poder no sistema para poder dizer que não, que somos seres humanos com vivências específicas. Se a série tivesse sido feita quando o meu pai a propôs, tenho certeza que ele teria sido o único actor asiático no elenco.”

“A questão é que não estamos a contar uma história chinesa, como o Justin sempre disse,” aponta Tropper, sublinhando o melting pot — o caldeirão de culturas imigrantes que formou o país. “Estamos a contar uma história americana, que se passa nos Estados Unidos, com americanos de origem asiática como personagens principais. Não há muita coisa escrita sobre eles nos registos históricos, infelizmente: os livros de história não falam muito da comunidade imigrante chinesa. Os próprios chineses não registavam muitas coisas, e grande parte do que guardaram ardeu no terramoto de São Francisco de 1906. Por isso tivemos de fazer um trabalho de pesquisa muito minucioso, picando coisas aqui e ali e cruzando capítulos soltos de livros com o que sabíamos do período.”

“Mas atenção, isto não é um documentário!”, contrapõe Lin. “O essencial era honrar a essência do que Bruce Lee queria fazer, porque o próprio tratamento já de si tinha um olhar muito moderno, muito à frente do seu tempo.” “Queríamos arranjar uma maneira de tornar a série contemporânea e relevante,” como explica Shannon Lee. ”Sabíamos que íamos estar a jogar com as convenções dos géneros – o western, o filme de kung fu – mas que não íamos querer respeitá-las. Queríamos virar tudo do avesso, levar o espectador a pensar que estamos a ir numa direcção quando os estamos a levar noutra. Estamos a libertar-nos das restrições da tradição do género – muito como o meu pai fez em vida.”

O PÚBLICO viajou a convite da HBO