Reportagem

Eles têm trissomia 21 e estão no ensino superior

Há um novo curso do Instituto Politécnico de Santarém ao qual só podem ter acesso pessoas com uma taxa de incapacidade intelectual igual ou superior a 60%. Para os 11 estudantes que o frequentam, bem como para os seus pais, é uma vitória estar ali.

Alunos com síndroma de Down no Ministério do Ensino Superior
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Alunos com síndroma de Down no Ministério do Ensino Superior Rui Gaudêncio
Alunos do Instituto Politécnico de Santarém apresentaram trabalhos acompnhados por professores e pais
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Alunos do Instituto Politécnico de Santarém apresentaram trabalhos acompnhados por professores e pais Rui Gaudêncio
O ministro do Ensino Superior na sessão com os alunos com trissomia 21
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O ministro do Ensino Superior na sessão com os alunos com trissomia 21 Rui Gaudêncio
Manuel Heitor exibe um instrumento de "descontracção" inventado pelos alunos com síndroma de Down: um frasco com água que muda de cor
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Manuel Heitor exibe um instrumento de "descontracção" inventado pelos alunos com síndroma de Down: um frasco com água que muda de cor Rui Gaudêncio

Felicidade. É o sentimento que alunos, pais e professores mais evocam quando falam do que têm vivido desde que, em Outubro passado, a Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Santarém abriu uma formação destinada a estudantes com trissomia 21, uma experiência que o ministro do Ensino Superior desafia os outros politécnicos a seguir.

É um curso de dois anos de Literacia Digital para o Mercado de Trabalho, que não confere um grau académico mas prepara os seus alunos para terem um emprego no futuro. “É o sonho de todos os que têm filhos”, testemunha a mãe de uma das alunas do curso, que nesta terça-feira foram mostrar ao ministro Manuel Heitor o que já aprenderam em quase dois semestres do curso.

Este “sonho” de ter filhos a trabalhar é particularmente difícil de concretizar para quem é pai de alguém com síndroma de Down. Como também é o de lhes garantir o acesso ao ensino superior. Por isso, a emoção trespassou muitos dos curtos testemunhos apresentados pelas mães que acompanharam os filhos ao ministério da Ciência e do Ensino Superior, onde também deram conta do aumento da auto-estima que têm visto neles desde que a aventura de Santarém começou.

Rodrigo é um dos 11 estudantes do curso. Para ele, estar no ministério é quase como já estar em casa, porque será ali que vai fazer o seu estágio no próximo ano. O seu futuro “patrão” é o director-geral do Ensino Superior, João Queiroz. Rodrigo conheceu-o nesta terça-feira e não escondeu o seu entusiasmo pelo que aí virá, embora o seu sonho seja o de vir a ser actor de telenovela.

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Por agora envergou o “uniforme” do futuro trabalho. Apresentou-se de fato e gravata. E deixou um aviso: “Nós somos parte deste país e não somos para sermos gozados pela nossa deficiência.”

A maioria dos alunos do curso de Santarém vive em Lisboa, sendo o transporte diário garantido por uma carrinha fretada pelo politécnico daquela cidade, no âmbito dos acordos que estabeleceram com 40 empresas. Destas, 17 já apresentaram propostas de estágios para os estudantes do curso. Para além do ministério, estão nesta lista dois hotéis, uma empresa de consultoria e um banco, entre várias outros organismos.

Até lá, é tempo de viver esta nova realidade que Daniela, uma das alunas, resume assim na sua página do Facebook: “Eu sou estudante do ensino superior!” Daniela gostava de ser cantora. Talvez por isso foi ela que teve a ideia de fazer um hino para o seu curso. Conta que era “uma coisa que faltava”. A letra é da sua autoria. Refrão: “Queremos todos aprender/ Queremos todos trabalhar.”

Modelo espanhol

A formação de Santarém é uma “réplica” de uma outra que funciona há 12 anos na Universidade Autónoma de Madrid, refere a coordenadora do curso, Maria Barbas, que é professora coordenadora da Escola Superior de Educação de Santarém. O curso desenvolve-se em 19 unidades curriculares que, no final de dois anos, se traduzirão em 120 ECTS (European Credit Transfer System), que é a unidade de medida do ensino superior pós-Bolonha. Em regra, uma licenciatura equivale a 180 ECTS. O estágio realiza-se no final do curso.

A selecção dos alunos é feita, sobretudo, com base em entrevistas individuais, indica Maria Barbas. Mas para chegar a este momento os candidatos terão de mostrar que cumprem os critérios de selecção: terem mais de 18 anos, uma taxa de incapacidade intelectual igual ou superior a 60% e possuir competências instrumentais básicas tais como leitura, escrita e cálculo.

Muitos dos estudantes do curso, com idades entre os 19 e os 35 anos, não chegaram a concluir o ensino secundário, mas isso não impediu que uma das suas ambições fosse a de continuar a estudar. É o que se passa com Pilar, sobrinha de Maria Barbas. “Um dia levantou o braço e fez um pedido expresso aos pais e familiares: ‘Eu quero estudar'”, conta a coordenadora do curso, que assume ter sido esta uma das principais razões para avançar com o “primeiro modelo de formação de educação inclusiva em contexto de ensino superior implementado em Portugal”.

“O que é importante é estarmos felizes. E estamos”, desabafa em jeito de balanço deste quase primeiro ano do novo curso.