Um cordão humano para salvar as pegadas de dinossauro de Carenque

Na terça-feira logo de manhã cerca de 100 alunos vão fazer um cordão humano para chamar à atenção para o estado das pegadas de Carenque, em Sintra. Também convidaram Marcelo Rebelo de Sousa a participar na actividade.

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Pista de um dinossauro ornitópode que deixou pegadas no local há cerca de 95 milhões de anos, quando aqui havia uma área litoral alagadiça com restos de plantas e bivalves Vanda Santos
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Túnel construído para proteger a jazida DR
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Depósito de entulho no sítio DR
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Depósito de lixo no sítio DR

Salvar as pegadas da jazida de Carenque. É esta a principal missão de um grupo de alunos da Escola Básica Professor Galopim de Carvalho, em Queluz. Para isso, na terça-feira vão fazer um cordão humano à volta dessas pegadas de dinossauro, tentando assim chamar a atenção da população e das autoridades para o estado actual da jazida. A ver esta actividade estará o geólogo António Galopim de Carvalho, que depois – já na escola – falará com os alunos sobre a importância científica deste património geológico. Há mais de 20 anos o Governo gastou oito milhões de euros para evitar a destruição dos vestígios da pista de pegadas. Neste momento, esse património está coberto de lixo e entulho, conta o geólogo ao PÚBLICO.

Em 1986, dois alunos finalistas da licenciatura em Geologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa – Carlos Coke e Paulo Branquinho – descobriram um conjunto de pegadas de dinossauros no fundo de uma pedreira abandonada em Pego Longo, no concelho de Sintra, segundo a informação enviada por Galopim de Carvalho ao PÚBLICO. “Esta importante jazida paleontológica corresponde a uma superfície rochosa com cerca de duas centenas de pegadas, onde sobressai, pela sua excepcional importância, um trilho com 132 metros de comprimento no troço visível, formado por marcas subcirculares com 50 a 60 centímetros atribuídas a dinossáurio bípede”, refere-se nessa nota. “Além deste, considerado na altura o mais longo trilho contínuo da Europa, identificaram-se na mesma superfície pegadas tridáctilas atribuíveis a carnívoros (terópodes), parte delas igualmente organizadas em trilhos.”

Nessa mesma nota, Galopim de Carvalho informa que o chão que suporta estas pegadas corresponde ao topo de uma delgada camada de calcário com cerca de 92 milhões de anos (do período Cretácico). Além das consequências da degradação da jazida pelo uso do buraco como vazadouro, o geólogo recorda que em Maio de 1992 foi alertado que o traçado da Circular Regional Exterior de Lisboa (CREL) iria destruir a maior parte do trilho principal. Inicia-se assim a “batalha de Carenque”, como ficou conhecida, para preservar as pegadas de dinossauros. Esta batalha acabou por ser vencida e o Governo de Cavaco Silva acabaria por gastar oito milhões de euros (um milhão e seiscentos mil contos) na construção de túneis que evitaram a destruição dos vestígios.

Mas Galopim de Carvalho relembra que essa foi apenas uma primeira batalha: seguir-se-ia uma outra para a musealização do sítio. Na altura, o arquitecto Mário Moutinho foi o autor do projecto de arquitectura Museu e Centro de Interpretação de Pego Longo (Carenque) aprovado pela Câmara Municipal de Sintra em 2001, mas que há 17 anos aguarda verba.

O geólogo salienta ainda o “enorme potencial turístico desta jazida” (classificada como monumento natural) e que as pegadas de dinossauros de Carenque  “estão bem vivas na mente” de geólogos e investigadores nacionais e internacionais.

E também estão bem vivas para os alunos da Escola Básica Professor Galopim de Carvalho, que é a guardiã da maquete do projecto de musealização. Este ano lectivo, os alunos do sétimo ano decidiram desenvolver projectos sobre o património geológico local nomeadamente das pegadas de Carenque, que ficam bem perto da escola.

Em Dezembro do ano passado, Galopim de Carvalho esteve na escola para falar das pegadas e expressou um desejo: “Gostava muito de ainda poder ver um museu natural a proteger as pegadas de dinossáurios de Carenque.”

Os alunos do sétimo ano perceberam então que não podiam ficar de braços cruzados. “Perante as suas palavras, não podíamos ficar indiferentes e nada fazer”, escrevem numa carta enviada ao Presidente da República, onde convidam Marcelo Rebelo de Sousa a participar nas actividades de terça-feira. 

PÚBLICO -
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Maquete do projecto de musealização que está na Escola Básica Professor Galopim de Carvalho DR

Fátima Pina – professora bibliotecária do Agrupamento de Escolas Queluz-Belas e que está a ajudar coordenar este projecto – conta ao PÚBLICO que cerca de 100 alunos da escola se vão reunir às 9h15 à frente da escola para depois caminharem com cartazes para o sítio, que fica perto da escola. Por volta das 9h50, o grupo fará um cordão humano à volta das pegadas. No regresso, Galopim de Carvalho estará na “sua” escola para conversar com os alunos sobre a importância científica da jazida.

Lixo, entulho e vegetação

João Almeida, de 13 anos, é um dos alunos envolvidos nesta iniciativa. “Queremos chamar à atenção das pessoas para a conservação das pegadas”, diz ao PÚBLICO. O aluno quer que todos percebam que estas pegadas são “importantes”: “Eram de dinossauros e estão lá há milhões de anos. Com elas consegue-se perceber o passado do planeta.”

Para terça-feira, o aluno conta que pintou “patas de dinossauros” numa t-shirt, tal como os seus colegas. Por agora, deixa um conselho: “Não deitem lixo e tratem bem do espaço onde estão as pegadas. E façam o museu.”

Fátima Pina alerta que as pegadas estão abandonadas e que o local é o quase imperceptível. “Estão cheias de lixo e entulho e cobertas de vegetação e restos de lona.”

Para além do Presidente da República, que ainda não confirmou a sua presença, a professora espera que outras autoridades como o presidente da Câmara Municipal de Sintra estejam presentes. O convite também está aberto a todos que queiram fazer parte do cordão humano. No final, para Fátima Pina, o ideal seria proteger este património geológico através de um museu ou de outra forma.

“Não sabemos o que vamos conseguir, não sabemos se conseguiremos alguma mudança, o que desejamos é sensibilizar a população e as entidades para aquilo que o professor [Galopim de Carvalho] e nós achamos escandaloso”, escrevem na carta enviada a Marcelo Rebelo de Sousa.