Tropas israelitas mataram três palestinianos, mas podia ter sido pior

Manifestantes recordam na fronteira entre Israel e a Faixa de Gaza o dia em que foram obrigados a deixar as suas terras, quando foi criado o Estado hebraico.

Fotogaleria
"Acabem com o bloqueio", diz a faixa na cabeça deste palestiniano Mohammed Salem/REUTERSS
Fotogaleria
A bandeira palestiniana e a máscara de Guy Fawkes, novos e velhos símbolos Mohammed Salem/REUTERSS
Fotogaleria
Um dos palestinianos mortos esta manhã Mohammed Salem/REUTERSS
Fotogaleria
De um lado da barreira, militares israelitas, do outro, manifestantes palestinianos Amir Cohen/Cohen

Dois palestinianos de 17 anos foram mortos pelas tropas israelitas no dia em que cerca de 40 mil manifestantes de Gaza se juntaram em vários pontos junto à barreira que marca a fronteira com Israel, assinalando o primeiro aniversário dos grandes protestos da Marcha do Retorno, que recordam as terras e as casas que foram forçados a abandonar quando foi criado o Estado hebraico, há 71 anos.

Segundo o ministério da Saúde da Faixa Gaza, controlada pelo movimento radical Hamas, há ainda 200 feridos, incluindo 65 crianças e 15 mulheres, o jornal israelita Jerusalem Post. Ainda na sexta-feira, um outro jovem palestiniano de 21 anos tinha já sido morto.

Apesar de tudo, o balanço do primeiro dia de uma nova série de protestos não foi tão mau quanto se temia. Negociações entre Israel e os palestianos na sexta-feira, mediadas pelo Egipto, levaram a que os manifestantes não tivessem feito fogueiras com pneus nos locais de protesto, por exemplo, para usar o fumo negro como cortina para se desviarem das balas dos atiradores furtivos israelitas. O exército de Israel reconheceu que o Hamas foi “contido”, segundo o Jerusalem Post

Mas os protestos vão continuar, garantem os palestinianos - no ano passado, a periodicidade era semanal.

Um porta-voz do exército israelita divulgou um vídeo em que são feitos avisos aos manifestantes palestinianos como o devem “guardar as vidas dos seus filhos”, relatou disse o Jerusalem Post. “Uma criança que atira pedras [às tropas israelitas] não é um herói” é outra das mensagens deste vídeo. 

O exército de Israel usa gás lacrimogéneo, balas de borracha – e balas verdadeiras. Por isso nos protestos do ano passado morreram perto de 200 palestinianos, segundo as Nações Unidas. As munições verdadeiras são disparadas por um grande número de atiradores furtivos destacados para impedir qualquer aproximação à barreira de segurança na fronteira.

Os manifestantes atiram pedras, granadas e por vezes usam também papagaios de papel em chamas, para queimar os campos de cultivo de colonos judeus.

Neste sábado, viram-se activistas palestinianos com coletes cor-de-laranja que tentam afastar os manifestantes da barreira, mas mesmo assim alguns chegam até lá. E isso, para os israelitas, é praticamente uma ameaça de terrorismo.

A Marcha do Retorno foi uma ideia para um protesto em Gaza feita numa rede social rapidamente adoptada pelos grupos palestinianos, do Hamas, no poder na Faixa de Gaza, à rival Fatah, no poder na Cisjordânia, e que gerou uma onda de entusiasmo organizativo e um rastilho para um descontentamento latente entre milhares de habitantes do território. As agências internacionais e responsáveis do lado palestiniano e até israelita, não se cansam de avisar que o bloqueio israelita estão a criar uma crise humanitária que está a chegar a um ponto de ruptura.

O Direito de Retorno é o direito que os palestinianos reivindicam para os refugiados que fugiram ou foram expulsos quando foi criado o Estado de Israel, a 14 de Maio de 1948, e também para os seus descendentes, que hoje serão mais de cinco milhões. Em Gaza, dois terços dos quase dois milhões habitantes são refugiados. Mas para Israel, este retorno é inaceitável porque significaria uma alteração do equilíbrio demográfico e que os judeus poderiam ser uma minoria no Estado hebraico.